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Jornal do Brasil online

Drogas: uso precoce nutre dependência

Publicado em 28 agosto 2010

Fábio Reynol

AGÊNCIA FAPESP - Quanto mais precoce o consumo de uma droga de abuso, mais o indivíduo se torna vulnerável à dependência. Este é o resultado de um estudo com camundongos conduzido no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).Ao administrar doses de álcool em animais adolescentes e adultos, os pesquisadores constataram que os mais jovens apresentaram uma compulsão maior ao consumo após um período de abstinência.

Segundo os pesquisadores, o resultado também pode valer para outros tipos de drogas de abuso, que englobam desde anfetaminas até entorpecentes pesados como cocaína e heroína, passando pelo cigarro e pelo álcool.

"Drogas de abuso são aquelas que induzem à fissura pelo consumo seja pelo prazer proporcionado ou pelos efeitos desagradáveis que a interrupção de seu uso provoca", explicou a coordenadora da pesquisa, Rosana Camarini, professora do ICB-USP.

Tolerância à drogas

Rosana analisou quatro grupos de camundongos: adolescentes que recebiam doses de álcool e adolescentes tratados com solução salina. Os adultos foram divididos nas mesmas categorias.

Entre as diferenças observadas está que os adolescentes que receberam álcool apresentaram tolerância à droga, enquanto que os camundongos mais velhos sob o mesmo tratamento responderam com uma sensibilização ao álcool.

Ambos são fenômenos neuroadaptativos provocados pelo uso contínuo da droga. A sensibilização é um aumento do efeito que a droga apresenta ao longo de um período de consumo. Já a tolerância significa a redução desses efeitos. Nesse caso, o indivíduo precisará de doses maiores para conseguir obter as mesmas sensações proporcionadas pelas doses iniciais.

Em uma outra etapa, os pesquisadores separaram os camundongos adolescentes e adultos que haviam recebido álcool. Colocados individualmente em uma gaiola, cada um poderia escolher entre dois recipientes, um com água e outro com álcool. O frasco com etanol continha doses que eram aumentadas gradualmente, de 2% a 10%.

"Não detectamos diferenças entre os dois grupos", constatou Rosana. "Porém, após a dose de 10%, resolvemos retirar o álcool para estabelecer um período de abstinência", disse, explicando que se trata de um teste para verificar se o animal se tornou ou não dependente da droga.

Ao serem novamente expostos ao álcool, os animais mais jovens começaram a beber gradativamente mais, enquanto que os adultos mantiveram o consumo que apresentavam antes da abstinência.

Já os animais-controle, tratados com solução salina, não apresentaram aumento no consumo ao serem expostos ao álcool em ocasiões diferentes. Isso se verificou tanto nos indivíduos jovens como nos adultos.

Nesta etapa, os animais tratados com álcool na adolescência já estavam adultos, considerando que a adolescência dos camundongos dura 15 dias.

Problemas futuros

"O que se pode concluir dessa experiência é que o contato prévio do adolescente com o etanol acaba induzindo alguma modificação que faz com que, quando adultos, eles fiquem muito mais vulneráveis ao consumo", disse a pesquisadora.

A droga provoca alterações neuroquímicas que interferem no processo de formação do cérebro do adolescente.

Rosana estima que indivíduos com experiência precoce com drogas tenham maior probabilidade de apresentar síndromes de abstinência mais severas.

Os efeitos observados levaram os autores do estudo a reforçar a importância de aplicações de políticas públicas para proteger o adolescente. A professora do ICB-USP exemplifica com a lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de idade.