Estudo foi conduzido pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina (FM) da USP
Um estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) constatou que mais da metade (53%) das vítimas de mortes violentas ocorridas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo em análises feitas logo após o óbito. Foram avaliados 3.577 casos em Belém, Recife, Vitória e Curitiba, representando, respectivamente, as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.
As análises laboratoriais incluíram álcool, um conjunto de drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, com protocolos padronizados. A equipe também adotou cuidados operacionais para reduzir perdas por degradação.
“Principalmente no caso do álcool, se a amostra não for armazenada de maneira adequada, a substância pode se degradar e mascarar o resultado”, explica o biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e primeiro autor do artigo.
“O objetivo foi produzir dados padronizados e comparáveis sobre o papel de substâncias psicoativas em mortes por causas externas no Brasil”, relata o pesquisador.”
Bombana conta que o estudo foi viabilizado a partir de um convênio firmado em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) para fazer o mapeamento da relação entre uso de álcool e drogas e mortes violentas. As quatro capitais foram escolhidas pela combinação de dois critérios: magnitude do problema e relevância estratégica.
“Essas cidades foram selecionadas com base na taxa de mortalidade por causas externas e por serem pontos estratégicos da rota de tráfico de droga”, explica o pesquisador.
A escolha levou em conta também o papel do país como corredor de circulação internacional:
“Muitas vezes a droga vem de outros países e passa pelo Brasil para ser distribuída para os Estados Unidos, Europa, África”.
Homens são maioria
O perfil das vítimas reflete a face mais recorrente da mortalidade violenta no país: 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% morreram por homicídio. Esse último dado é especialmente relevante quando comparado aos percentuais de morte por acidentes de trânsito (15%) e suicídios (9%).
No Norte e Nordeste, a porcentagem maior foi de indivíduos caracterizados como “pardos”, segundo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto no Sudeste e Sul a maioria foi composta por “brancos”.
Entre todas as vítimas, 53% testaram positivo para ao menos uma substância psicoativa. As mais detectadas foram: cocaína (30%), álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%).
Sinais de risco
A pesquisa transversal não permite estabelecer uma relação de causa e efeito. É um tipo de estudo em que os dados são coletados em um único “recorte” no tempo, como se compusessem uma fotografia da realidade.
Na pesquisa, para cada vítima, os pesquisadores registraram o tipo de morte (homicídio, trânsito, suicídio etc.) e o resultado da análise toxicológica pós-morte (cocaína, álcool, benzodiazepínicos etc.). Depois, compararam os dois grupos de dados. Mas a pesquisa não permite provar, por causa e efeito, que a cocaína “causou” o homicídio. Do mesmo modo, o desenho transversal, sozinho, não “fecha” a cadeia causal entre consumo de álcool e morte no trânsito. “O que se pode afirmar, com segurança, é a existência de sinais consistentes de risco”, destaca Bombana.
Ao analisar os registros policiais associados aos casos de homicídio, a equipe constatou que cerca de 85% das mortes foram resultantes de ferimentos por arma de fogo.
Intervenções sob medida
O mapa das ocorrências fatais não é uniforme. Há diferenças de padrão entre as quatro capitais estudadas: Recife com prevalência de mortes associadas ao álcool (sozinho ou combinado); Vitória e Belém com maior concentração de mortes associadas ao uso de drogas ilegais (sem álcool); e Curitiba com o álcool preponderando sobre as drogas ilegais. Para o pesquisador, essa heterogeneidade deve orientar intervenções sob medida, subsidiando políticas públicas focadas na realidade de cada cidade ou região.
O estudo foi conduzido pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina (FM) da USP, coordenado por Bombana e pela professora Vilma Leyton, que também assina o artigo, e recebeu apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Pós-Doutorado concedida a Bombana.