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DROGAS: dos primórdios aos dias de hoje

Publicado em 01 outubro 2010

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Hoje, o uso de álcool, tabaco e outras drogas é um fenômeno mundial que tem transcendido a categoria de problema de saúde, exigindo um controle mais rígido pelas autoridades competentes

O uso de substâncias psicoativas remonta aos primeiros tempos da civilização. A princípio, tinha por fim fazer com que os hominídeos suportassem as adversidades do meio e condições extremas como fadiga e fome. Mais tarde, esteve vinculado às primeiras formas de religião, possibilitando os primeiros contatos do homem com o sobrenatural. Já no século XIX, as substâncias psicoativas despontaram como medicamentos promissores. O interesse e discurso da classe científica despertaram a atenção do grande público, de tal forma que o uso das substâncias psicoativas voltou-se para uma perspectiva de prazer e recreação, migrando de um instrumento ritual a um produto de consumo (ARAÚJO & MOREIRA, 2006). Nessa época, mais especificamente em 1929, em sua obra "O mal estar na civilização", Freud já apontava que as substâncias tóxicas eram uma das medidas paliativas nas quais o homem buscava alívio para os sofrimentos, decepções e tarefas arduamente oferecidas pela vida. Nas palavras do próprio Freud: "Deve-se a esses eventos intoxicantes não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois se sabe que, com o auxílio desse amortecedor de preocupações, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio com melhores condições de sensibilidade".

Entretanto, o que talvez Freud não imaginasse é a proporção que esse uso tomaria no século XXI. Hoje, o uso de álcool, tabaco e outras drogas é um fenômeno mundial que tem transcendido a categoria de problema de saúde. Quase 2 bilhões de pessoas fazem uso de álcool (UNODC, 2008), entre 172 a 250 milhões de pessoas já relataram ter usado pelo menos uma substância ilícita durante o ano (UNODC, 2009) e cerca de 5 milhões de mortes são atribuídas ao uso dos derivados de tabaco (UNODC, 2008), esperando-se que uma população de até 500 milhões de pessoas, atualmente vivas, morreram por consequências relacionadas a esse uso (UNODC, 2009). A esse respeito, o que talvez Freud também não imaginasse, é que poucos seriam os usuários de drogas que usariam apenas uma única substância (GOSSOP, 2001), desenvolvendo um padrão de uso que atualmente é denominado por "uso múltiplo de drogas".

MIX DE DROGAS

No geral, tem sido sugerido que álcool e maconha sejam as substâncias mais frequentemente envolvidas no uso múltiplo, sendo as associações álcool/tabaco, álcool/maconha, álcool/cocaína (e crack) as mais regularmente relatadas (Midanik et al., 2007). Entretanto, independente das substâncias associadas, à medida que o uso múltiplo de drogas é regularizado, chega um momento em que o usuário se vê enredado num ciclo vicioso, no qual o desejo por uma droga leva ao consumo de outra, de tal forma que se influenciam reciprocamente e os consumos passam a caminhar pari-passu (MAGURA & ROSENBLAUM, 2000; REED et al, 2007).

Assim, o uso múltiplo de drogas pode dificultar a identificação apropriada dos transtornos de uso de substâncias existentes, servindo como um fator de confusão sobre a interferência de uma dada droga sobre a saúde, além de dificultar a adesão e o sucesso de uma possível abordagem terapêutica a que o usuário possa a vir a submeter-se. Em termos do funcionamento mental, o uso múltiplo de drogas aumenta a incidência de transtornos neuropsiquiátricos, problemas psicológicos e prejuízos cognitivos, diminuindo a capacidade de inibir comportamentos impulsivos e predispondo os usuários de múltiplas drogas a comportamentos de risco à sua integridade física, emocional e social. E comum que esses usuários sintam-se mais irritados, que se envolvam em episódios de violência interpessoal, sejam mais frequentemente admitidos a serviços hospitalares de emergência e tenham maiores riscos para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (PENNINGS et al, 2002; O"BRIEN et al, 2008).

De forma geral, o uso múltiplo de drogas é um padrão de uso que parece ser cada vez mais freqüente, com variadas formas de associação, com danos potenciais ao usuário, cuja existência sugere um controle mais próximo das autoridades competentes.

Arthur Guerra de Andrade é médico Psiquiatra, Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Professor Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do ABC, Presidente Executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)

Lúcio Garcia de Oliveira é biomédico, Mestre e Doutor em Psicobiologia pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atualmente é pós-doutorando pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP