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A Tribuna (Santos, SP)

Droga para hepatite C dá fim a febre e chikungunya

Publicado em 16 novembro 2018

Um remédio usado para tratamento da hepatite C crônica poderá ser, agora, usado para eliminar do organismo os vírus da chikungunya e da febre amarela, duas doenças que têm preocupado autoridades de saúde no Brasil devido às notificações de casos e a previsões de surtos. A descoberta foi realizada por meio de um estudo no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp). Durante os testes, iniciados no começo deste ano, o medicamento Sofosbuvir destruiu o vírus sem causar danos às células infectadas. "Testamos diversos outros fármacos utilizados contra outros tipos de vírus e este apresentou o melhor resultado contra chikungunya e febre amarela", explicou o orientador da pesquisa, o professor e biólogo Lu cio Freitas-Junior.

Segundo o professor, a estratégia foi testar medicamentos já existentes e difundidos no mercado, em vez de partir do zero, desenvolvendo uma droga que teria de passar por anos de testes até ser aprovada pelos órgão competentes. O período entre o início das pesquisas e a introdução no mercado demora, em média, 12 anos. "Os médicos podem usá-lo. No caso de um surto, já é possível serem criados protocolos médicos para o tratamento com este fármaco", afirma. Somente no ano passado, o Ministério da Saúde registrou 182.263 casos de febre chikungunya, conforme boletim epidemiológico divulgado pelo órgão. O mesmo medicamento respondeu positivamente a testes com o zika vírus em estudo divulgado em fevereiro deste ano e com participação do Instituto de Ciências Biomédicas. O zika tem uma incidência muito menor no Brasil - no ano passado foram 16.616 casos -, mas, se contraído por mulheres grávidas, pode causar microcefalia ou outros distúrbios neurológicos no bebê.

PONTOS NEGATIVOS

Para o infectologista Marcos Caseiro, do Hospital Guilherme Álvaro (HGA), em Santos, o uso do medicamento para casos de chikungunya, febre amarela e zika esbarram em dois entraves: o diagnóstico tardio e o alto preço. "Este medicamento é muito caro, o valor é proibitivo. O acesso não é garantido nem para pacientes de hepatite C, para o qual ele foi desenvolvido. Falta esse remédio, o governo não compra, temos uma fila de mais de 200 pacientes esperando", contou Caseiro. Em pesquisa na internet, a caixa com 28 comprimidos do Sofosbuvir pode ser encontrado por R$ 41 mil. Também segundo o infectologista, diagnosticar rapidamente essas doenças seria necessário, para que o uso do remédio se justificasse. "Mas o exame é de biologia molecular, demorado, não temos uso padronizado na rede e são poucos os laboratórios que fazem. E só faz sentido aplicar o medicamento nos primeiros dias de sintomas, quanto os vírus estão se replicando".

PARA FEBRE, SIM

Por causa disso, no caso do chikungunya e do zika vírus que são doenças febris agudas e com pouquíssimos casos de morte, quando comparados à quantidade de notificações - , o uso do fármaco não será justificado pelo menos neste momento, avaliou Caseiro. Em 2017, no País, foram confirmados 189 óbitos por chicungunyae somente um por zika Para o médico, entretanto, o Sofosbuvir poderá ser eficaz por diagnóstico clínico (antes mesmo que o resultado do exame fique pronto) contra a febre amarela, com incidência de mortes em torno de 40%, e para grávidas com sintomas de infecção pelo zika vírus, devido às sequelas da doença ao feto.