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Droga Experimental reduz o tempo de hospitalização nos Estados Unidos

Publicado em 02 maio 2020

Por Ricardo Zorzetto

Desenvolvido para combater o Ebola, antiviral mostra eficácia moderada contra o Sars-CoV-2

Um antiviral que está sendo testado contra o novo coronavírus mostrou resultados animadores e reduziu em cerca de 30% o tempo de internação de pessoas com Covid-19. A informação foi apresentada nesta quarta-feira (29/4) pelo imunologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid) dos Estados Unidos, em entrevista concedida a repórteres na Casa Branca. O composto com ação promissora contra o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, é o remdesivir. Considerado uma droga ainda experimental, ele foi desenvolvido pelo laboratório farmacêutico norte-americano Gilead Sciences para combater o vírus Ebola, causador de surtos de uma febre hemorrágica em países da África, e ainda não está disponível para comercialização.

Os resultados apresentados por Fauci referem-se ao estudo Adaptive Covid-19 Treatment Trial (ACTT), coordenado pelo Niaid. Até o momento, 1.063 pessoas integram a pesquisa. Metade foi sorteada aleatoriamente para tomar uma injeção diária de remdesivir por até 10 dias, enquanto o restante recebe a mesma dose de um composto inócuo (placebo). De acordo com as informações disponíveis no site clinicaltrials.gov, que cataloga ensaios clínicos conduzidos no mundo todo, o estudo do Niaid é do tipo duplo-cego, no qual nem médicos nem pacientes sabem quem está recebendo medicação ou placebo a fim de reduzir a probabilidade de haver interpretação tendenciosa dos dados.

Os resultados preliminares indicam que o uso do antiviral diminuiu de modo significativo o tempo de internação das pessoas com Covid-19. Metade dos indivíduos tratados com remdesivir deixou o hospital em até 11 dias, enquanto esse tempo foi de 15 dias no grupo que recebeu placebo. Os resultados também sugerem que o composto pode reduzir o número de óbitos: morreram 8% dos doentes que tomaram remdesivir e quase 12% dos que receberam o composto sem atividade farmacológica – análises estatísticas não permitem concluir se essa diferença ocorreu ao acaso ou por influência do tratamento.

O remdesivir atua inibindo a produção do material genético do vírus e, consequentemente, sua replicação. “Embora uma melhora de 31% [no tempo de recuperação] não pareça um nocaute de 100%, é uma prova de conceito muito importante, porque foi comprovado que um medicamento pode bloquear esse vírus. Isso é muito animador”, disse Fauci, um dos mais respeitados especialistas em doenças infecciosas do mundo e integrante da força-tarefa contra o coronavírus da administração de Donald Trump.

O imunologista lembrou que resultados modestos também surgiram nos testes de um dos primeiros medicamentos usados para combater o HIV, vírus da Aids, e evocou a ética médica para justificar a divulgação dos resultados antes que fossem publicados em um periódico científico. “Quando existe indicação nítida de que uma droga funciona, tem-se a obrigação ética de notificar imediatamente as pessoas do grupo placebo para que saibam que também podem ter acesso ao tratamento.” O remdesivir já havia se mostrado capaz de deter a multiplicação de alguns coronavírus, como o Sars-CoV, que provoca a síndrome respiratória aguda grave (Sars), e o Mers-Cov, responsável pela síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers), além do próprio Sars-CoV-2, em testes com células e com animais. Faltavam, porém, os experimentos com seres humanos, os chamados ensaios clínicos – raramente os tratamentos que funcionam com células e animais produzem o mesmo efeito quando transpostos para as pessoas. Atualmente o remdesivir está sendo avaliado em ao menos uma dúzia de ensaios clínicos em diferentes países.

Resultados de pelos menos dois outros estudos avaliando o efeito do remdesivir em seres humanos foram divulgados nas últimas semanas. No primeiro deles, financiado pela Gilead e publicado em 10 de abril no New England Journal of Medicine, o médico Jonathan Grein, do Centro Médico Cedars-Sinai, e colaboradores trataram com o antiviral 53 pessoas com Covid-19 e observaram melhora em 68% dos casos. Diferentemente do ensaio clínico do Niaid, porém, esse estudo não comparou o efeito do remdesivir com placebo, o que impede de saber se quem recebeu o composto melhoraria mais do que quem não tomou nada. Já o segundo estudo não identificou benefícios nem reduziu a quantidade de vírus na corrente sanguínea. No trabalho, publicado em 29 de abril na revista Lancet, 158 pacientes chineses foram sorteados aleatoriamente para receber remdesivir e 79 placebo. O estudo foi interrompido antes do planejado por causa dos efeitos colaterais, apresentados por 12% do primeiro grupo. De acordo com reportagem da agência de notícias Reuters, a Gilead havia afirmado anteriormente que os resultados tinham sido inconclusivos porque foi concluído precocemente.

Após o anúncio de Fauci, em 29 de abril, a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, relatou que planejava autorizar o chamado uso emergencial do remdesivir. Esse tipo de liberação é concedido em casos específicos, quando não há alternativas de tratamento contra doenças que causam sério risco de morte.

Artigos científicos GREIN, J. et al. Compassionate use of remdesivir for patients with severe Covid-19. New England Journal of Medicine. 10 abr. 2020. WANG, Y. et al. Remdesivir in adults with severe Covid-19: a randomised, double-blind, placebo-controlled, multicentre trial. Lancet. 29 abr. 2020.

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