Notícia

O Extra.net (Fernandópolis, SP) online

Dr. Júlio César Voltarelli e o seu legado para a humanidade

Publicado em 09 março 2021

Por Carlos Eduardo

Há pessoas que com seu trabalho não alcançam apenas o sucesso profissional, mas também deixam um legado inestimável para a humanidade.

A história do profissional que abordo nessas poucas linhas se encaixa nesse perfil. Destaco as fantásticas realizações acadêmicas do Dr. Júlio César Voltarelli, que foi um dos maiores pesquisadores do mundo em sua área, além de médico e professor titular da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. E poucos sabem que ele morou em Fernandópolis e cursou, de 1960 a 1963, o Ginásio (atual Ensino Fundamental II) no antigo Colégio Normal, onde hoje fica o prédio do Quartel da Polícia Militar.

Seu pai, Juliano Voltarelli, foi farmacêutico e administrador da Santa Casa de Misericórdia, e sua mãe, Nice Christofaro, trabalhou como professora no JAP e se aposentou naquela escola.

E quais foram os resultados de algumas pesquisas científicas do Dr. Júlio Voltarelli? Ele chefiou uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto-SP, que desenvolveu um tratamento inovador para pacientes acometidos por diabetes tipo 1, uma forma menos comum dessa doença (aproximadamente 10% dos casos), no entanto, mais agressiva e afeta comumente crianças e adultos jovens.

O tratamento desenvolvido pelo Dr. Voltarelli e a sua equipe foi o que mais se aproximou da cura dessa doença autoimune (aquelas causadas pelo mau funcionamento do sistema imunológico).

A pessoa desenvolve esse tipo de diabetes quando os seus anticorpos (proteínas produzidas por certas células do sistema imunológico), ao invés de combater os micro-organismos que invadem o corpo, passam a atacar as células do pâncreas que produzem insulina (hormônio que impede o acúmulo excessivo de açúcar no sangue). Com isso, o paciente passa a sofrer com alguns sintomas como vontade excessiva de urinar, boca seca, formigamento nos pés e pernas, “batedeira no coração”, visão embaçada, dentre outros.

Nesses casos, o paciente deve iniciar o tratamento o mais precocemente possível (não há cura, apenas tratamento à base de injeções de insulina, exercícios físicos, dieta específica etc), pois se não o fizer, poderá ficar cego, sofrer falência dos rins e adquirir gangrena nos pés que podem levar à amputação de parte desses órgãos, dentre outras sérias consequências. Como se vê, é uma doença de base muito séria.

O tratamento desenvolvido pela equipe do Dr. Voltarelli utiliza quimioterapia e células-tronco (aquelas com o potencial de se transformarem em outras células no organismo humano) do próprio paciente e a maioria daqueles que se submeteu à técnica deixou de utilizar as injeções de insulina, pois o organismo passou a produzir esse hormônio, e os que tiveram recaída, precisaram de doses bem menores do que antes. “Aumentamos o seguimento e mostramos que, apesar de verificar recaída em um número de pacientes, a produção endógena (própria) de insulina aumenta tanto no grupo que recai como naquele que se torna independente das injeções”, disse Voltarelli à FAPESP (agência paulista de fomento à pesquisa) em 2009.

Esse tratamento parece um milagre, mas na verdade é fruto de muita dedicação à pesquisa científica e do trabalho brilhante desenvolvidos pela equipe chefiada por Dr. Voltarelli. Na época, os resultados renderam um artigo publicado em uma das mais importantes revistas científicas da área médica do mundo, o “Journal of the American Medical Association” (JAMA).

Outra pesquisa com resultados sensacionais comandada pelo Dr. Júlio Voltarelli foi a que promoveu a reversão de déficits neurológicos em pacientes acometidos por esclerose múltipla em estágio inicial utilizando células-tronco do próprio indivíduo (informações obtidas da revista FAPESP). “As células foram utilizadas para reinicializar seus sistemas imunológicos”. Esse trabalho também foi publicado em uma revista científica de prestígio mundial – a “The Lancet Neurology”.

Dr. Voltarelli e sua equipe também desenvolveram pesquisas sobre outra doença autoimune importante, o lúpus eritematoso sistêmico.

“Voltarelli foi pioneiro ao utilizar transplantes autólogos (do próprio paciente) de células-tronco como alternativa para o tratamento de doenças imunológicas. Ele teve iniciativa e coragem para resolver muitos aspectos que são complicados para se realizar testes em humanos”, disse o ex-reitor da USP, Marco Antonio Zago, à revista da FAPESP, em 2012.

Infelizmente, Dr. Júlio Voltarelli não resistiu a um transplante de fígado e faleceu no dia 21 de março de 2012, aos 63 anos de idade.

Seu prestígio foi tão grande que após a sua morte, Dr. Voltarelli recebeu diversas homenagens. Em agosto de 2012, a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) criou o prêmio “Júlio César Voltarelli” de melhor trabalho na área de transplante de medula óssea. Em 2017, um viaduto no Km 308 + 900 metros na rodovia Anhanguera que liga a avenida Henry Nestlé à avenida Guadalajara, em Ribeirão Preto - SP, recebeu o nome “Prof. Júlio César Voltarelli” e uma escola municipal naquela cidade recebeu o nome do pesquisador: EMEF “Dr. Júlio César Voltarelli”.

Outra homenagem bonita foi prestada pelo Grupo de Apoio ao Transplantado de Medula Óssea (GATMO), que mantém uma casa no Câmpus da USP de Ribeirão Preto para receber os pacientes transplantados e os seus familiares. Essa casa de apoio recebeu o nome de "Dr. Júlio César Voltarelli" conferido pelos voluntários do GATMO.

Também destaco um artigo publicado em 2013 em uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo, a “The Lancet”, homenageando o legado acadêmico do Dr. Voltarelli. Um obituário descreveu a importância da trajetória desse pesquisador para a comunidade científica internacional.

Dr. Voltarelli foi um cientista que dedicou a sua vida profissional para aliviar o sofrimento de pessoas que são acometidas por algumas das mais importantes doenças autoimunes, como o diabetes tipo 1, esclerose múltipla e o lúpus eritematoso sistêmico. Não é pouca coisa! Ele simplesmente foi um dos pioneiros da pesquisa com células-tronco no Brasil. E pensar que ele morou e estudou em nossa cidade e a sua família constitui raízes por aqui, é motivo de orgulho para quem vive em Fernandópolis.

A propósito! Durante essa terrível pandemia, percebemos a enorme importância dos pesquisadores ao desenvolver as vacinas que vão aplacar esse sofrimento pelo qual passa a humanidade. Desenvolveram esses imunizantes tomando como base o funcionamento do sistema fisiológico que destrói o vírus, o mesmo sistema que foi o grande objeto de estudo do Dr. Júlio César Voltarelli – o sistema imunológico humano.

Dr. Voltarelli nos deixou, mas o seu importante legado científico marcou a Medicina, em especial a Imunologia, para sempre. Foi mais do que um grande trabalho científico, foi um legado para a humanidade.

Fontes consultadas: Revista FAPESP, arquivos fornecidos pelo Dr. Jesiel B. Macedo, relatos de Dona Wônia Aparecida Franco Gomes, Dr. Fernando do Carmo Bertucci e Drª Brígida do Amaral Botelho Prudêncio.