Notícia

Exame

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Publicado em 20 setembro 2000

Por Por José Fernando Perez
A recente divulgação de informações a respeito do possível envolvimento de cientistas brasileiros, no início dos anos 90, em pesquisas que visavam influenciar a percepção da opinião pública sobre os efeitos do cigarro, remete a uma reflexão sobre aspectos éticos associados à pesquisa científica e tecnológica. Tal reflexão se toma particularmente importante no momento em que a sociedade se mostra muito mais atenta aos desdobramentos das conquistas científicas das últimas décadas. Esses avanços têm levado muitos a acreditar que estaríamos assistindo ao nascimento de um novo homem e de uma nova sociedade, livre de alguns dos males que nos afligem desde a expulsão do Paraíso. Internet e genômica são, sem dúvida, os ingredientes a estimular o mais recente surto dessa euforia que periodicamente contagia o homem. E não é à toa. Por exemplo, Freeman Dyson - dos mais importantes físicos teóricos e visionários da ciência - conjuga essas duas ferramentas à energia solar, para desenhar fascinantes e verossímeis utopias de um planeta onde todos terão acesso à educação e onde a biodiversidade será utilizada de modo sustentável. As grandes conquistas do homem têm o condão de excitar esses sentimentos de onipotência. Expectativas semelhantes cercaram o aparecimento da energia nuclear (que passaria a inviabilizar guerras), do rádio (que tomaria os povos mais amigos) e os diversos avanços no campo da medicina - com a sedução da eterna juventude. Não que seja injustificado o entusiasmo com que são recebidos os grandes avanços no campo da tecnologia e da ciência. Pelo contrário, o impacto que terão sobre a vida de cada um e sobre a sociedade como um todo ainda não é possível calcular. Mas o fato é que o homem, com a beleza de que a natureza o dotou, continua com as mesmas contraditórias características: capaz de um maravilhoso impulso criador, na permanente busca da imagem e semelhança que lhe foi biblicamente imposta, mas capaz, também, individualmente ou em grupo, dos mais hediondos atos. É ocioso afirmar que nem mesmo os cientistas e os artistas, grandes artífices dessa busca, não estejam imunes à síndrome do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro. A natureza da informação que hoje pode ser acumulada a respeito de indivíduos - de seus hábitos de consumo a seu código genético - requer mecanismos de controle que, de um lado, não devem ser inibidores do progresso e, de outro, têm de ser eficientes a ponto de evitar que qualquer um possa ter negado acesso a emprego e a seguro de saúde e prejudicada toda sua inserção social. Da mesma forma, as opções informadas sobre uma gama de tópicos, que vão desde o uso de alimentos transgênicos até o consumo de drogas - de bebidas alcoólicas a cigarro - , passam a exigir mecanismos de controle por parte de instâncias competentes (tais como agências de fomento à pesquisa, universidades e academias de ciências) sobre as manifestações muitas vezes endossadas por cientistas a serviço de interesses pessoais e econômicos. É, pois, indispensável que os projetos de pesquisa sejam analisados também em suas dimensões éticas. Nesse cenário, a atividade de pesquisa na universidade, quando financiada por empresas, requer cuidados especiais. A relevância dessa parceria é incontestável e, especialmente no Brasil, é importante que seja estimulada. Mas é imperioso que essa relação seja transparente em todas as instâncias, evitando-se que o nome da instituição possa ser apenas usado para avalizar interesses escusos. Um critério simples, mas eficaz, consiste em verificar se a parceria é capaz de ir além de uma mera prestação de serviço, criando um círculo virtuoso onde conhecimento é gerado e transferido, benefícios econômicos são compartilhados e, o que é igualmente importante e indispensável: onde o processo seja intelectualmente enriquecedor para o parceiro acadêmico. Essas questões tomam-se ainda mais atuais no Brasil, agora que, como registra The Economist, não somos mais somente o país do samba e do futebol. Temos também uma genômica campeã.