Notícia

Gazeta Mercantil

Doutores podem virar empresários

Publicado em 31 março 1997

Por Getulio Bittencourt - De Boston
Além das ofertas do setor público e privado apresentadas para estudantes e doutores brasileiros nos Estados Unidos quando voltarem ao Brasil, existe uma alternativa muito interessante para eles no país, de acordo com Eduardo Moreira da Costa, um professor visitante na Harvard University. É a de se tornarem pequenos empresários. Costa, que dirige o Programa Brasileiro de Software para Exportação (Softex 2000), participou do painel sobre as experiências do Brasil e EUA, na I Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia. Ele englobou no que chama de indústria da informação três componentes: geração, transporte e processamento. E calcula que se trata de uma indústria de US$ 2 trilhões, a maior do mundo. O número cresce para US$ 9 trilhões quando se inclui tudo que é hoje produzido num escritório, segundo cálculos do diretor do laboratório de computação científica no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Michael Dertouzos, num livro recém publicado: "What Will Be - How the New World of Information Will Change Our Lives" (O Que Será - Como o Novo Mundo da Informação Vai Mudar Nossas Vidas, Harper Collins, 1997). A maior parte dos segmentos dessa indústria já está ocupada por atores dominantes. Costa menciona áreas em que o Brasil perdeu o barco da história, como na produção de computadores; e outros em que está prestes a fazê-lo, como no transporte de informação (telecomunicações). Ele nota que o resto do mundo está consolidando a indústria de telecomunicações para ganhar economias de escala, como na fusão MCI-British Telecom, que cria uma companhia de US$ 30 bilhões, ou Nynex-Bell Atlantic, que cria outra de US$ 40 bilhões. Ao mesmo tempo, o Brasil prepara-se para vender em pedaços a Telebrás, uma companhia de US$ 10 bilhões, que vai tornar-se um (ou melhor, vários), satélites das outras. Mas nem tudo está perdido. Costa destaca que o mercado de software aplicativos, mesmo nos EUA, é dominado por pequenas empresas, cujo faturamento médio fica em torno de US$ 2 milhões por ano. E aí estaria a oportunidade do futuro para o Brasil e seus jovens doutores em informática explorarem. A pesquisa básica pode ter excelência mas nem sempre tem relevância do ponto de vista da aplicação industrial, lembrou o conferencista seguinte, Ivan Moura Campos, secretário de Política de Informática no Ministério da Ciência e Tecnologia. Aos pesquisadores que lhe fizeram perguntas, ele insistiu na necessidade de separar ciência e tecnologia. Campos concorda com os universitários que defendem a independência da pesquisa científica pura, na busca de novas fronteiras do conhecimento; mas ressaltou que tudo que não esteja incluído nessa categoria é de fato pesquisa tecnológica, e esta precisa vincular-se às necessidades do mercado. O arcabouço legal para o florescimento da indústria da informação no Brasil está fixado ou a caminho, segundo ele. A quebra do monopólio começou com uma definição incorreta, mas política, segundo a qual a rede da Internet não é de telecomunicações, mas serviço de informações. Por isso, ficou livre para todo mundo entrar - menos o governo e as empresas de telecomunicações. Campos acha que isso era necessário para permitir a competição, e funcionou. Pequenas empresas, a maioria com quatro pessoas, dominam o segmento de provedores de Internet no Brasil, com "excelente dispersão geográfica". O crescimento da rede de acesso no Brasil foi de 982% no ano passado, sendo que 1.269% na parte comercial. Isto colocou o país como a 19ª maior rede de Internet no mundo em 1996, acima de países como Bélgica, México, China, Chile e Argentina. O próximo passo será a inclusão do país no projeto Internet 2.