Notícia

Gazeta Mercantil

DOUTORES EM DESINFORMAÇÃO

Publicado em 25 junho 1996

Por FRANCESCO DE CICCO
Vira-e-mexe, algumas pessoas, que ostentam até títulos de Ph.D, se põem a menosprezar as empresas brasileiras certificadas pela ISO 9000 e seu esforço para se tornarem mais competitivas, com afirmações do tipo "a conta das empresas detentoras da certificação ISO 9000 foi subindo, subindo, até passar do milhar e transformar o Brasil no segundo país do mundo nessa competição". Em primeiro lugar, não são mais de mil empresas - certificadas no Brasil; são somente cerca de seiscentas organizações que obtiveram pouco mais de 1.100 certificados ISO 9000. Isso porque várias delas certificaram mais de uma unidade ou linha de produto. O nosso país, ao contrário do que muitos apregoam, ocupa somente a 26ª posição em números de certificados ISO 9000 emitidos, ficando atrás de países como a Índia, Noruega, Malásia, Finlândia, Nova Zelândia e África do Sul, sem falar da Grã-Bretanha (que tem mais de 50 mil certificados!), dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. Diversas empresas certificadas também têm sua parcela de responsabilidade nessa onda de desinformação, por levarem o público a crer, por meio de anúncios em grandes veículos de comunicação, que seus produtos ou serviços atingiram um "padrão de qualidade superior". É importante esclarecer que a implantação da ISO 9000 numa empresa (ou num setor da mesma) é apenas o primeiro passo rumo à Excelência Empresarial. Obter o certificado ISO 9000 é uma garantia adicional que uma organização dá a seus clientes, demonstrando, através de um organismo certificador credenciado e independente, que ela possui um sistema de gestão com mecanismos e procedimentos para solucionar eventuais problemas relacionados à qualidade. A ISO 9000 tem que ser vista como o mínimo que qualquer empresa deveria ter, em termos de gestão da qualidade. Aliás, o objetivo maior da ISO (International Standardization Organization) é fazer com que as empresas adotem as normas da família ISO 9000 como modelo de seus sistemas da qualidade, e não, simplesmente, que corram atrás da certificação. Em outras palavras, quando uma organização é certificada, ela está apenas demonstrando aos clientes que suas atividades de marketing, projeto, compras, produção, inspeção, embalagem, armazenamento vendas, distribuição, instalação, operação, assistência técnica e manutenção estão estruturadas de tal forma que lhe permite garantir um nível de qualidade constante. Somente isso. A ISO 9000 não é sinônimo de "certificado de excelência", como um Ph.D recentemente "denunciou" nesta seção da Gazeta Mercantil. O fato de uma empresa ser certificada não implica, necessariamente, que seus produtos (ou serviços) satisfazem as expectativas de seus clientes, os quais, afinal, são os que julgam se um determinado produto tem ou não qualidade. Além disso, uma organização pode ter sido certificada para produtos que têm pouca aceitação no mercado, e isso acarreta baixas vendas e, invariavelmente, prejuízos - e a ISO 9000 não pode ser associada a erros estratégicos e mercadológicos que venham a ser cometidos pela empresa... O que ocorreu com as organizações brasileiras, nestes últimos quatro ou cinco anos, deve ser visto como o início de uma verdadeira e silenciosa revolução industrial, motivada fundamentalmente pelo crescimento da competitividade. Hoje, com a (quase) estabilização de nossa economia, o empresário não tem muita saída ou briga com os seus fornecedores para que não aumentem os seus preços (o que antes ele comodamente repassava para o consumidor), ou vai buscar ganhos significativos de produtividade e os transfere para seus clientes, a fim de não ser passado para trás pelos seus concorrentes (estrangeiros e nacionais) que produzem com qualidade e com preços competitivos. O esforço brasileiro para a implantação de Sistemas da Qualidade - que diariamente testemunhamos em nossos trabalhos de consultoria e treinamento, em grandes, médias e pequenas empresas dos mais diferentes setores de atividade - deve ser devidamente reconhecido e aplaudido. Vamos, pois, rechaçar os pessimistas profissionais, mesmo que sejam Ph.D, e ficar com os olhos bem abertos para que o velho costume tupiniquim de avacalhar iniciativas positivas não ponha tudo a perder, por desinformação ou vontade de aparecer.