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Doutor Google - Como a internet está mudando a relação entre médicos e pacientes

Publicado em 20 agosto 2007

O ritual clássico das consultas médicas é mais ou menos assim: o paciente diz onde dói, descreve alguns sintomas e pergunta se é grave. O médico junta os pedaços de informação, examina o doente, relembra lições do passado, confronta mentalmente suas impressões com casos semelhantes que já passaram pelo consultório e — em poucos minutos — profere o diagnóstico. Na maioria das vezes, um nome tão intimidador que o paciente acha melhor não perguntar mais nada. Daí em diante, segue-se um monólogo. O médico exibe seu conhecimento em meia dúzia de frases cifradas, dá uns conselhos paternais e rabisca uma receita ilegível.

Esse jogo de poder — em que o médico é o iluminado e o paciente é mero espectador — sobrevive há séculos. Na Grécia Antiga, a medicina era considerada uma ciência oculta, uma espécie de sacerdócio. O conhecimento devia ser guardado como um segredo pelos poucos eleitos que tiveram acesso a ele. A "letra de médico", incompreensível para a maioria das pessoas (até para as mais cultas), é um resquício dessa herança.

Pois essa tradição, como aconteceu com tantas outras normas de comportamento, está sendo atropelada pelo fenômeno da internet. Os médicos estão deixando de ser os detentores supremos do saber e passam a ser desafiados por pacientes cada vez mais informados. Antes da consulta médica, as pessoas vasculham a internet em busca de informações sobre as queixas que vêm apresentando ou sobre a doença que já sabem que têm.

A porta de entrada costuma ser o site de buscas Google. A partir dele, mergulham em sites especializados e blogs. Chegam ao consultório afiadas, com um conhecimento básico que lhes permite tirar melhor proveito dos poucos minutos em que estão diante do médico. Podem elaborar perguntas mais objetivas, discutir sobre o tratamento receitado, adotar uma postura crítica. Depois da consulta, esses pacientes voltam à internet para checar efeitos colaterais dos remédios receitados, ler opiniões de outros doentes, ver se o diagnóstico e o tratamento propostos fazem sentido, entender por que precisam realizar determinados exames.

Cresce em todo o mundo a quantidade de internautas que pesquisam sobre saúde: são os cibercondríacos

A quantidade de pessoas que se comportam dessa forma cresce ano após ano. Nos Estados Unidos, esses indivíduos estão sendo chamados de cibercondríacos. Parece xingamento, mas não é. O termo não se refere apenas aos hipocondríacos de carteirinha, que vasculham a internet em busca de um remédio novo ou de sintomas que gostariam de incluir em suas s intermináveis listas. Diz respeito a um público crítico, ativo, com sede de informação e que não aceita delegar a terceiros os rumos da própria saúde.

Os cibercondríacos já são 160 milhões nos Estados Unidos, segundo a consultoria Harris Interactive, uma das mais importantes empresas de pesquisa de mercado. A parcela da população que busca informações sobre saúde na internet cresceu de 53% em 2005 para 71% em 2007. Os dados são da The Harris Poll, uma pesquisa nacional realizada por telefone no mês de julho. Mais da metade dos entrevistados (leia o quadro) discute com o médico sobre o que descobriu na web e procura mais informações na internet quando volta do consultório.

No Brasil, a tendência é semelhante — embora a cultura da internet não seja tão massificada quanto nos EUA. No ano passado, a pesquisadora Wilma Madeira da Silva defendeu uma tese de mestrado sobre o assunto na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Segundo ela, a busca de informações médicas na internet é um fenômeno positivo, que pode contribuir para uma melhor relação entre médicos e pacientes. "A internet ajuda a desconstruir o poder simbólico que a figura do médico exerce no imaginário popular", diz. "Nestes novos tempos, o médico deve acolher as informações que o paciente traz e discutir com ele, mostrar o que é válido e o que não é", afirma.

Wilma realizou uma pesquisa sobre os hábitos dos pacientes em relação à internet. Um questionário ficou disponível na web e foi respondido por 116 pessoas. Entre os participantes, 83% disseram procurar informações sobre saúde e 85% afirmaram que voltam a fazer pesquisas on-line depois da consulta médica. O trabalho revela que o fenômeno não está restrito às classes média e alta, que têm fácil acesso à internet. Mais da metade dos entrevistados usa o Sistema Único de Saúde.

SAÚDE EM CASA

Savassa e a filha Thaís buscam informações médicas. Quando alguém da família fica doente, eles correm ao computador antes de ir ao consultório. 

Gente como a aposentada paulistana Josefina Aparecida Santos, de 50 anos. Ela foi telefonista e sofre de LER (lesão por esforço repetitivo). No ano passado, começou a navegar na internet para saber mais sobre o problema. Encontrou exercícios que ajudam a aliviar as dores, leu tudo sobre exames e remédios. Josefina tem o costume de abrir os exames que realiza e decifrar os resultados com a ajuda da internet. Diz que, quando retorna ao médico, já sabe do que se trata. "Isso é ótimo porque no SUS o fluxo de gente é muito grande e os médicos não têm tempo de explicar as coisas direito. Com a internet, não caio na negligência dos médicos", afirma.

O computador virou uma ferramenta tão importante para quem zela pela própria saúde quanto ter o telefone do médico sempre à mão ou manter abastecida a maletinha caseira de primeiros socorros. O fenômeno começou há dez anos e se intensificou nos últimos três. "Metade dos pacientes já chega ao consultório trazendo informações da internet", diz João Manoel Rossi, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Ele coordena o portal da SBC (www.cardiol.br), uma boa fonte de consulta para o público leigo. Os internautas enviam perguntas aos especialistas e recebem orientação. "Não diagnosticamos nem tratamos nada por internet. Mas orientamos o público, explicamos a doença em linguagem acessível."

Nem todos os médicos estão prontos para os novos tempos. Muitos se incomodam profundamente quando se sentem desafiados pelo paciente. Acham que a competência deles está sendo colocada em dúvida. "A vida dos colegas que não gostam de conversar com os pacientes ficou bem mais difícil", diz o cirurgião oncológico José Ricardo Guimarães, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. "Eles se sentem questionados em sua onipotência."

Em muitos consultórios, metade dos pacientes chega com dados da internet .

Nesses casos, a relação entre o médico e o paciente se torna insustentável. Não por causa da internet — que é apenas uma ferramenta —, mas pela personalidade inflexível do profissional. O melhor a fazer nessa situação é procurar outro. "Não há mais lugar no mundo para o médico que se acha onipotente", diz José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB).

Alguns pacientes chegam ao consultório mais atualizados que o doutor. Médicos dão plantões, passam o dia se dividindo entre várias clínicas e hospitais e muitas vezes não têm dinheiro para participar dos melhores congressos. Nem tempo para ler artigos científicos na mesma velocidade com que ficam disponíveis na internet. Quando o paciente traz uma informação que ele desconhece, é compreensível que se sinta desconfortável. Mas o melhor a fazer é lidar com a situação com naturalidade e clareza. Admitir que não sabe do que o paciente está falando e dizer que vai pesquisar.

"Com a internet, até a palavra paciente terá de ser revista. A idéia do 'tenha paciência' está esgotada. Agora, lidamos com clientes, com pessoas que cobram seus direitos", diz Luiz Arnaldo Szutan, vice-diretor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Nessa cobrança infindável de direitos e informações, as consultas podem ficar intermináveis.

Na maioria dos consultórios brasileiros e americanos, o médico passa em média 15 minutos com o paciente. O volume de dúvidas e argumentos suscitados pela internet é incompatível com esse tempo. Isso gera um conflito. Chega um momento em que o médico se torna monossilábico, a senha para o final de conversa. Alguns buscam uma saída elegante e compatível com os tempos modernos: indicam sites confiáveis nos quais o paciente pode ler mais sobre o assunto.

A parceria é sempre melhor que o confronto. Essa visão fez muito bem à saúde do torneiro mecânico paulistano José Ricardo Savassa, de 42 anos. Aposentado precocemente por causa de um tipo de reumatismo que afeta a coluna e o quadril, Savassa sentiu-se mais seguro depois de descobrir detalhes da doença na internet. E quem lhe indicou sites confiáveis foi a médica Elaine Néspoli. O nome da moléstia — espondilite aquilosante — assusta. Na primeira vez em que se sentou diante do computador para pesquisar sobre a doença, Savassa sentiu o coração disparar. Pai de três filhos pequenos, tinha medo do que podia encontrar. Descobriu que a doença é rara, degenerativa, sem cura. Mas que pode ser controlada.

A internet também pode fazer mal à saúde. Todo tipo de lixo eletrônico circula na rede

A médica sempre o estimulou a usar a web para entrar em contato com outros pacientes e aprender mais sobre o assunto. "Pesquisei tanto que comecei a chegar muito informado ao consultório. A médica se surpreendia", diz. Elaine nunca se mostrou incomodada. Ao contrário, ouvia as descobertas de Savassa com atenção e o ajudava a entender o que poderia ser útil ao caso dele e o que era bobagem. Essa experiência transformou o modo como toda a família do torneiro mecânico lida com a saúde. "Quando as crianças têm algum problema, corro para a internet. Na bula dos remédios, os efeitos vêm muito resumidos. Na internet, com paciência, dá para saber muito mais", afirma.

Para os médicos, a internet também se tornou uma ferramenta fundamental. De que outra forma eles poderiam ter acesso rápido aos milhares de pesquisas publicadas pelos periódicos científicos? A web não é apenas um instrumento de atualização. Ela ajuda os médicos nas tarefas mais corriqueiras. "Quando o paciente chega ao consultório tomando seis remédios, é provável que o médico não conheça todos eles", diz José Luiz Gomes do Amaral, presidente da AMB. No caso dele, que é anestesiologista, é muito importante saber os efeitos da combinação de drogas antes de submeter o paciente a uma cirurgia. "Em vez de demorar um tempo enorme consultando vários livros, consigo na internet um resultado rápido e excelente", afirma.

 

Como ocorre em qualquer profissão, alguns médicos têm grande atração pela tecnologia, enquanto outros resistem às inovações. É uma questão de estilo. Sozinha, a tecnologia não faz um bom médico. Ela até atrapalha, quando o torna um sujeito frio, mais preocupado em teclar dados no computador e demonstrar que é um sabichão que em olhar o paciente nos olhos e examiná-lo com cuidado.

"Muitos residentes sabem tudo sobre estudos, mas não colocam a mão no paciente. Esse é um dos males provocados pelo excesso de tecnologia", diz João Manoel Rossi, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

ANTENADO

O cirurgião Guimarães em seu consultório. Ele abastece prontuários eletrônicos e atualiza os dados dos pacientes no palm 

Quando o médico é atencioso e percebe como a tecnologia pode facilitar sua vida e torná-lo ainda mais competente, o paciente sai ganhando. O cirurgião oncológico José Ricardo Guimarães, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, sempre foi fã de tecnologia e adora testar novos "brinquedos". Teve toda a linhagem de computadores TK, depois os Apples e os mais modernos PCs. Usa palmtop há vários anos. "Estou convencido de que esses dispositivos auxiliam enormemente a atividade do médico e trazem segurança ao paciente", diz. A riqueza de informações que Guimarães carrega no palm não tem preço: dados sobre pacientes, medicamentos, dosagens, interações entre drogas. "Carrego livros de centenas de páginas no bolso da camisa."

Ao chegar ao hospital, um dos primeiros no Brasil a trocar os prontuários de papel pelos eletrônicos, Guimarães acessa informações dos doentes (diagnóstico, resultados de exames, medicamentos em uso) e as transfere para o palm por meio de um sistema de internet sem fio. Ter sempre à mão os dados dos pacientes pode ser uma questão de vida ou morte. Principalmente quando os médicos recebem telefonemas urgentes em casa ou em outro local de trabalho e precisam decidir rapidamente sobre a melhor conduta a seguir.

A internet vem se firmando também como o principal canal aglutinador de pacientes com interesses comuns. É na rede que eles trocam experiências, se informam sobre direitos, se articulam em grupos para pressionar os governos e os planos de saúde. O economista Haroldo Tajra, de 40 anos, mora em Brasília, mas tem contato diário com pacientes de todo o Brasil e do exterior. Tajra sofre de uma doença incurável que provoca lesões na pele, chamada psoríase. Há quatro anos, ele percebeu como a internet poderia ser usada a favor dos doentes e fundou a Associação Brasiliense de Psoríase (www.abrapse.com.br).

Tomou essa decisão depois de notar como as pessoas eram carentes de informação. Em 2003, ele fez um tratamento alternativo baseado em banhos e massagens realizados em termas no s interior de São Paulo. Sabia que não conseguiria se curar, mas esperava que a terapia melhorasse o aspecto da pele — o que, segundo ele, realmente aconteceu. Criou um site e, a cada sessão, descrevia como se sentia e postava fotos. "Era um fotoblog, embora ninguém usasse esse termo na época", afirma. O interesse do público surpreendeu Tajra. As pessoas acompanhavam cada relato e se diziam agoniadas quando ele demorava a fazer atualizações. Assim surgiu a associação. Dos 5 mil cadastrados, 4 mil foram atraídos pela web.

Atenção! A internet também pode fazer mal à saúde. Quem navega pelos programas de busca está sujeito a deparar com atividades criminosas (venda de remédios proibidos ou falsificados, promessas de curas milagrosas) ou pelo menos antiéticas (conteúdo informativo cuja única intenção é vender medicamentos ou procedimentos médicos). Encontra também informações absurdas, lixo eletrônico que seria apenas motivo de piada, se não provocasse danos gravíssimos.

Guia do paciente

Como tirar proveito das informações de saúde disponíveis na internet e como evitar armadilhas

O LADO BOM O LADO RUIM

- A internet ajuda o paciente a perceber que está doente e que precisa se tratar

- Mais informada, a pessoa ganha autonomia para decidir sobre sua saúde

- O médico deixa de ser o "dono da verdade"

- O doente chega ao consultório já com alguma informação e isso facilita a conversa com o médico

- O paciente bem informado adere ao tratamento com mais facilidade  - Não há filtro na internet. Muitas informações são erradas

- A internet favorece a hipocondria

- Informações complexas deixam o paciente confuso e ansioso

- Muitos sites prometem milagres. Desconfie se o responsável estiver interessado em vender determinado tratamento

- Medicina não é matemática. O tratamento encontrado na internet não se aplica a todos os pacientes com a mesma doença 

COMO ESCOLHER O MÉDICO

- Digite o nome do médico em programas de busca como o Google. Se ele for professor ou pesquisador de alguma universidade, é um bom sinal. Significa que, no mínimo, tem uma boa formação

- Entre no site http://lattes.cnpq.br e procure o currículo do médico na Plataforma Lattes, a base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Se ele estiver cadastrado, significa que é um pesquisador ativo. É um sinal de que está sempre atualizado. O currículo revela a atividade acadêmica do médico, além de endereço, telefone e e-mail

- Verifique se o médico está cadastrado no Conselho Regional de Medicina. No site do CRM de São Paulo http://www.cremesp.com.br, é possível fazer isso eletronicamente. É uma forma de se proteger contra os falsos médicos 

POR ONDE NAVEGAR Bons sites sobre saúde

www.drauziovarella.ig.com.br

Artigos e informações sobre diagnóstico de inúmeras doenças. Entrevistas didáticas com especialistas

www.fiocruz.br

Glossário de doenças, reportagens especiais e entrevistas produzidas pela Agência Fiocruz de Notícias

www.scielo.br

A biblioteca eletrônica mantida pela Fapesp é uma boa ferramenta para encontrar especialistas

www.inca.gov.br

Informações sobre cada tipo de câncer (diagnóstico, tratamento e prevenção) para o público leigo

www.cardiol.br

Biblioteca virtual sobre cardiologia, receitas saudáveis e teste do coração www.webmd.com Site em inglês, traz vídeos sobre doenças, informações sobre tratamentos e reportagens escritas por especialistas