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Dos laboratórios para a escola

Publicado em 12 janeiro 2007

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

Desde 1994 o projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, que tem apoio da Fapesp, realiza o mais completo inventário da vegetação paulista.

O projeto envolve mais de 200 pesquisadores e gerou, até o momento, quatro publicações técnicas que reúnem 2,5 mil páginas com a descrição e classificação de 1.830 espécies fanerógamas — as plantas que produzem flores.

É possível utilizar os resultados de um programa científico tão complexo para ensinar botânica a crianças? A resposta é sim, de acordo com Luiza Sumiko Kinoshita, professora do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das organizadoras do livro A botânica no ensino básico: relatos de uma experiência transformadora.

A obra recém-lançada relata a experiência pedagógica realizada por um grupo de colaboradores do Flora Fanerogâmica, coordenada por Luiza, com alunos da 6ª série de uma escola de Campinas (SP) entre 1998 e 2001.

Esse projeto piloto foi realizado simultaneamente em outras três escolas no Estado, em São Paulo, Santos e São Carlos.

"A proposta era desenvolver um projeto de ensino com formato integrado, interdisciplinar, no qual a botânica fosse atraente para o aluno e estivesse contextualizada em seu cotidiano. Ao mesmo tempo, precisávamos fugir da linguagem técnica", disse Luiza à Agência Fapesp.

O projeto piloto em Campinas envolveu oito pesquisadores da Unicamp e dois do Instituto Agronômico (IAC) de SP, além de seis professores das disciplinas de ciências, história, português, artes, educação física e geografia da escola estadual Padre Francisco Silva.

"Verificamos que a percepção dos alunos em relação à botânica era negativa — muitos consideravam que se tratava de 'decoreba'. Por isso, concluímos que seria preciso implantar uma abordagem interdisciplinar para fazer os alunos vivenciarem o objeto de estudo", explica Luiza.

De acordo com a pesquisadora, apesar de grandes dificuldades, os resultados foram satisfatórios.

"Não é fácil para o pesquisador sair dos laboratórios para desenvolver um projeto pedagógico, mas foi uma experiência rica, em que o professor podia interagir com pesquisadores, despertando maior interesse pela botânica nos estudantes. Foi uma construção coletiva com resultado muito positivo", afirma.

As atividades dentro e fora da classe exploraram a relação entre a botânica e as diversas disciplinas, com foco na educação ambiental.

"Os estudantes foram levados para conhecer a vegetação nativa em um fragmento de floresta próximo à estrada que vai para Mogi Mirim. Aprenderam, por exemplo, como os animais interferem na polinização e no ciclo de vida da floresta", conta Luiza.

Troca de experiências

Ao conhecer um pouco do cotidiano de trabalho dos pesquisadores, os alunos viram que, por trás do conhecimento, existe um complexo trabalho de descrição, classificação e identificação das plantas. Compreensão da dinâmica científica que deixou os alunos mais interessados.

Eles puderam compreender a importância da pesquisa taxonômica ao perceber, por exemplo, que não existe conservação ambiental sem que as plantas sejam conhecidas.

"Por outro lado, nós também aprendemos muito sobre a atuação do educador e tivemos oportunidade de pesquisar sobre o ensino, produzindo inovações no trabalho pedagógico da escola. Tudo isso é relatado no livro", explica Luiza.

Os professores participaram de todo o processo, inclusive da concepção do livro.

"Para nós, o professor é um pesquisador do ensino. Ele obtém excelentes resultados, mas não consegue perceber a importância da sua atuação cotidiana. No momento em que trabalharam fazendo relatórios sobre as atividades, deram um passo adiante", afirma a pesquisadora da Unicamp.

Além das excursões à mata, os alunos fizeram visitas às instituições de pesquisa. Na Unicamp, conheceram laboratórios e puderam observar no microscópio a estrutura celular de uma planta.

No Instituto Agronômico, viram pesquisadores trabalhando com melhoramento vegetal e compreenderam como se extrai o óleo de uma planta medicinal.

"Eles perceberam que as diferentes atividades são feitas em lugares diversos por especialistas diferentes, mas, no conjunto, todo conhecimento reverte em benefício para a sociedade. Também foi interessante vê-los desmistificar o trabalho do cientista. Entenderam que tudo depende de muito trabalho, de uma rotina disciplinada e organização", disse Luiza.

(Agência Fapesp, 12/1)