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Gazeta do Povo online

Dormir faz mal à saúde (alheia)

Publicado em 24 abril 2009

Por Francisco Camargo

Você mora em Curitiba e o maridão ronca feito um trator? E você, mora em Pinhais e o gentil-homem dormindo lembra um cortador de grama? E o senhor, o que está sorrindo aí e tem domicílio em Contenda, a prezadíssima cara-metade silva como o Brutus dos desenhos do Popeye? Pois não reclamem da vida. Vocês são felizes, posto que vivem longe de São Paulo. Lá, na capital, um terço dos “cabôcos” – mais precisamente 32,9% da população – é dada à prática ainda tolerada e não reprimida a cassetete do ronco livre e solto. Aproveitem enquanto dá. O barulho já varou a barreira dos decibéis toleráveis e virou assunto da revista Pesquisa, da Fapesp, edição de abril, em matéria de Carlos Fioravanti.

O problema é a síndrome da apneia obstrutiva do sono. Ou, uma série de breves interrupções na respiração que geralmente leva a um despertar momentâneo. “Por acordar, ainda que sem perceber, toda vez que falta o ar, quem tem apneia e sofre ao menos cinco pausas de até dez segundos na respiração a cada hora não descansa como deveria.” Resultado: no dia seguinte, dá-lhe sonolência, irritação, cochilos e queda do rendimento.

A constatação de que um em cada três paulistanos sofre de apneia – e muitos nem sabem – “é um dos resultados mais impressionantes do mais amplo e detalhado levantamento já feito sobre a qualidade do sono dos habitantes da capital”. A proporção é tão elevada que “inquietou até mesmo os coordenadores do estudo. Eles esperavam encontrar um índice de apneia um pouco superior ao observado em trabalhos anteriores conduzidos no Brasil e no exterior – a prevalência varia de 2% a 7% entre os adultos –, mas nada próximo do que observaram em São Paulo.”

Como São Paulo não pode parar, como se sabe, mantenham distância se pretendem passar a noite tranquilamente. Até porque, diz o estudo, 24% dos moradores têm pesadelos ao menos uma vez por mês, que perturbam o sono de 30% das mulheres e de 17% dos homens.

A apneia ataca em maior grau pessoas de renda mais baixa e de idade avançada. E a exclusão social se expande. O aparelho chamado CPAP, uma máscara de silicone conectada a um pequeno compressor que facilita a passagem de ar pela laringe, poderia ajudar, mas custa de R$ 500 a R$ 1 mil. Nem em sonho. Além disso, quem come muito, trabalha na cama ou toma bebidas alcoólicas antes de dormir vai roncar adoidado e perder uma parte do rico sono mais profundo.

– Durma-se com um barulho desses, reage Beronha.

Há uma saída acessível à maioria? O biólogo inglês Paul Martin sugere o cochilar sem culpa, que se considere a cama o móvel mais importante da casa e o quarto um ambiente acolhedor – “não um depósito de coisas inúteis”.

– Coisas inúteis? Ele não sabe com quem sou casado, fulmina o sempre apaixonado Natureza Morta, pulando na cadeira.

– Feliz mesmo é cavalo de padeiro: encosta em qualquer muro ou parede e dorme feito Cinderela.

Ao que consta, ela não roncava. Ainda bem.