Levantamento mostrou ainda que estes poos, que abastecem clubes, condomínios, hospitais e indústrias na região, nunca foram cadastrados pelo poder público
Grande São Paulo tem cerca de 14 mil poços, dois terços não cadastrados, com desconhecimento sobre operação e qualidade da água. Estudo da USP indica que muitos poços estão em áreas industriais antigas, contaminadas por solventes tóxicos persistentes no subsolo. Pesquisadores recomendam gestão integrada regional da água subterrânea, com monitoramento unificado e diagnóstico multidisciplinar.
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A Grande São Paulo consome água subterrânea em uma escala que a maioria dos moradores desconhece. Dos cerca de 14 mil poços que abastecem clubes, condomínios, hospitais e indústrias na região, aproximadamente dois terços nunca foram cadastrados pelo poder público. Ninguém sabe exatamente onde estão, quem os opera nem qual é a qualidade da água que fornecem.
O problema ficaria apenas no campo da burocracia se não fosse um detalhe: boa parte desses poços está perfurada em bairros que já foram industriais — e o solo ali, em muitos casos, ainda guarda o legado tóxico de décadas de produção.
É o que aponta um estudo publicado na revista Environmental Earth Sciences por pesquisadores do Instituto de Geociências da USP. O trabalho, apoiado pela FAPESP, cruzou mapas de zonas industriais, áreas oficialmente contaminadas e poços de abastecimento na Região Metropolitana de São Paulo. O resultado é incômodo: as três camadas se sobrepõem com frequência perturbadora.
Veneno
Os principais vilões identificados pelos pesquisadores são os solventes clorados — substâncias como o percloroetileno e o tricloroetileno, usadas durante décadas para limpar peças metálicas em fábricas e em lavanderias de limpeza a seco. Altamente tóxicas, essas substâncias têm uma característica que as torna especialmente perigosas no subsolo: elas não somem.
Diferente do combustível vazado por um posto de gasolina, que tende a se degradar com relativa rapidez, os solventes clorados persistem no aquífero por longos períodos. E quando eventualmente se decompõem, podem formar subprodutos ainda mais nocivos do que o composto original.
Há outro fator agravante. Quando um poço bombeia água a cem metros de profundidade, cria um gradiente que puxa a contaminação da camada superficial para baixo, aprofundando o problema. E os limites de potabilidade para essas substâncias são medidos em partes por bilhão — ou seja, uma quantidade mínima dissolvida já é suficiente para inutilizar grandes volumes de água.
Fábricas
A desindustrialização de São Paulo começou nos anos 1970 e se acelerou nas décadas seguintes. Empresas migraram para o interior ou para outros estados em busca de custos menores, deixando para trás galpões abandonados — e um subsolo comprometido.
Esses territórios foram sendo ocupados por comércio, serviços e empreendimentos imobiliários sem que o passivo ambiental fosse necessariamente resolvido. Bairros como Mooca, Vila Prudente e Jaguaré, na capital, e municípios como Diadema, Mauá e Osasco, na Grande São Paulo, concentram o que os pesquisadores chamam de “fontes multiponto de contaminação” — manchas que se sobrepõem e cujas plumas de poluentes se interceptam no aquífero.
O estudo identificou 17 aglomerações onde áreas contaminadas e poços de abastecimento estão a menos de 500 metros de distância — o raio que a legislação paulista considera como zona de risco. Dentro dessas faixas, há poços profundos usados para consumo humano.
Solução
Parte da dificuldade está no modo como a contaminação costuma ser tratada. A lógica dominante é a da propriedade: cada empresa ou proprietário responde pelo seu terreno. Remove-se o solo superficial contaminado, controlam-se os vapores tóxicos que poderiam entrar em edificações — e considera-se o problema endereçado.
Mas a água subterrânea não respeita cercas nem escrituras. A massa contaminante que permanece em profundidade continua sendo transportada pelo aquífero para além dos limites do imóvel em questão. Até 2020, apenas 18,6% das áreas contaminadas por solventes clorados no estado haviam sido classificadas como reabilitadas — e isso sem exigir a eliminação completa da contaminação, apenas sua redução a níveis considerados aceitáveis.
A pesquisadora Daphne Silva Pino, autora principal do estudo, resume o problema: “Remove-se solo superficial para controlar o risco imediato. Mas grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua sendo transportada pela água subterrânea.”
O que falta
Os pesquisadores não apontam apenas riscos — eles propõem uma mudança de abordagem. No lugar de uma gestão caso a caso, limitada às fronteiras de cada imóvel, defendem que as regiões afetadas sejam tratadas como sistemas hidrogeológicos integrados, com diagnósticos regionais, equipes multidisciplinares e bases de dados unificadas entre os órgãos responsáveis.
Jurubatuba, na zona sul de São Paulo, é citada como o território mais estudado da região — e ainda assim três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais. Para os autores, o monitoramento que vem sendo feito no bairro poderia servir de modelo para áreas mais amplas, como partes do Grande ABC.
A SP Águas, procurada pela Agência FAPESP, informou que novos estudos hidrogeológicos foram realizados para Jurubatuba e que o modelo de gestão precisa avançar na integração entre as políticas de recursos hídricos e de gerenciamento de áreas contaminadas. A Cetesb não se manifestou.
*Com informações da Agência FAPESP.