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Doenças, a principal causa de morte na Guerra do Paraguai

Publicado em 12 novembro 2021

Em 1982, o historiador Jorge Prata de Sousa descobriu nos antigos arquivos do Exército, em pleno Rio de Janeiro, um acervo de 27 livros, cada um de cento a 370 páginas, documentando a movimentação dos 10 hospitais e instalações que tratavam ou lesam pacientes. A Guerra do Paraguai, a maior guerra entre os países da América do Sul, que ocorreu entre dezembro de 1864 e abril de 1870. Sousa pode simplesmente não ler sobre eles sem demora porque estava indo para o seu mestrado no México, no entanto, ele retornou em 2008 como pós-graduação. Doutor pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) e desde 2018 tem lido novamente, desta vez trocando dados com a historiadora Janyne Barbosa, da Universidade Federal Fluminense.

A busca pelos arquivos com nomes, idade, título militar, explicação do motivo da internação, tratamento, datas de acesso e saída de hospitais e número de outras pessoas curadas ou mortas, sob os cuidados de Barbosa, mediu pela primeira vez o efeito sobre doenças nesta guerra: cerca de 70% das tropas aliadas (Brasil, Argentina e Uruguai) possivelmente teriam morrido de doenças infecciosas, basicamente cólera, malária, varíola, pneumonia e disenteria.

Suas pinturas dão uma visão ampla da causa da morte na guerra que uniu a Tríplice Aliança formada pelo Brasil, Uruguai e Argentina- oposta ao Paraguai e, somadas a outras, expõe as precárias situações sanitárias em que os bebês viviam e lutavam. então, os historiadores se basearam apenas na conclusão geral de que a doença tinha matado mais do que feridas em combate. A guerra terminou com cerca de 60. 000 mortos no Brasil; O Paraguai, derrotado no confronto que começou quando invadiu a então província de Mato Grosso, perdeu cerca de 280 mil combatentes, mais do que parte da população.

“As altas taxas de mortalidade por doenças infecciosas também marcaram outras guerras do mesmo período, como a Guerra da Criméia, na Rússia, de 1853 a 1856, e a Guerra Civil nos Estados Unidos, de 1861 a 1865”, observa Sousa, do e-book Escravidão ou Morte: Escravos Brasileiros na Guerra do Paraguai (Editora Mauá, 1996). Eles eram chamados de guerra de trincheiras – escavações que serviram de refúgio para as tropas, mas facilitaram a propagação de doenças infecciosas, devido à falta de higiene, abundância de roedores e insetos. e inundações.

“A Guerra do Paraguai foi uma guerra epidêmica”, conclui Barbosa. “As doenças infecciosas acompanharam o confronto do início ao fim, sem mencionar epidemias como a cólera. “O historiador Leonardo Bahiense, pós-doutorando da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reitera: “Só a cólera foi a culpada por pelo menos 4. 535 mortes de crianças brasileiras durante a guerra. Segundo ele, com base em documentos do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, na primeira parte de 1868, 52,5% das mortes de tropas aliadas resultaram de intensa desidratação causada pela bactéria Vibrio cholerae e 3,6% da malária e outras doenças caracterizadas genericamente, como febres. “Em muitas ocasiões”, acrescenta o pesquisador da UFF, “crianças paraguaias e prisioneiros com cólera foram abandonados nas estradas, sob ordens dos comandantes, enquanto as tropas se deslocavam de um campo para outro.

Os relatos daqueles que viveram a guerra suas conclusões. Em Um Retiro da Laguna, publicado em francês em 1871 e em português 3 anos depois, o engenheiro militar Alfredo Taunay (1843-1899) descreveu as epidemias de cólera como “o adversário oculto”, “Não perdoando ninguém”. “A peste é o maior inimigo que temos”, disse o marechal Manuel Luís Osório (1808-1879) ao ministro da Guerra Angelo Muniz da Silva Ferraz (1812-1867), quando assumiu o comando das tropas em julho de 1867. .

Nos livros dos arquivos do exército, Barbosa descobriu gravações de uma categoria de doenças infecciosas que raramente eram discutidas em relatos da época, de transmissão sexual: “Sífilis comum. Oficiais acusaram esposas ou amantes que viviam com soldados. Havia prostituição nos campos, basicamente com os paraguaios, por causa da fome. “Peculiaridade desta guerra, as mulheres que acompanhavam as tropas eram as mães, filhas, irmãs ou companheiras dos soldados, para quem cuidavam dos uniformes e cozinhavam.

Até as viagens eram arriscadas. ” Uma organização de médicos e enfermeiros que deixou a cidade do Rio de Janeiro em abril de 1865 se juntou a um batalhão de 500 soldados de infantaria na cidade de São Paulo, mas tiveram que prevenir duas semanas depois em Campinas, onde foi uma epidemia de varíola, que causou a morte de seis membros da tropa. “explica o médico josé María Orlando, de Vencendo a Morte – Como as Guerras Mudaram a Medicina (Matrix, 2016). A organização então teve que lidar com a malária, transmitida através de insetos abundantes nos pântanos do Pantanal, que tiveram que atravessar para ter sucesso nos campos de batalha quase nove meses depois.

“Muitos bebês não foram vacinados contra a varíola e trouxeram doenças de suas regiões”, disse a historiadora Maria Teresa Garritano Dourado, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, baseada basicamente em documentos dos arquivos militares, também no Rio, em janeiro. Autora de A História Esquecida da Guerra do Paraguai: Fome, Doença e Tristeza (UFMS, 2014), ela conheceu outro inimigo: o clima. ao sul, os bebês do norte morreram por causa do frio glacial”, diz ele. O combate não se opõe apenas ao inimigo, mas também à sobrevivência nos campos. “

O general Dionísio Evangelista de Castro Cerqueira (1847-1910), que chefiou e escreveu Reminiscências da Campanha do Paraguai, 1865-1870 (Biblioteca do Exército, 1929), relatou que “águas amarelas espessas, contaminaram as proximidades dos cadáveres”. os mortos estavam lotados ou jogados em rios, poluindo a água. Outro desafio foi o abate e preparação dos animais para a alimentação: as vísceras e outras porções não utilizadas foram deixadas ao sol, causando um mau cheiro. em ritmo de limpeza, devorando os restos mortais”, descreveu o oficial.

Cirurgiões civis que foram para a frente, concluíram Bahiense, souberam pela primeira vez de relatos de grupos médicos que haviam operado em guerras passadas. Durante as Guerras Napoleônicas (1803-1815), Dominique Jean Larrey (1766-1842), cirurgião líder do exército francês. , insistiu em bater nos grupos cirúrgicos perto da frente para fazer alguma atenção imediata e evacuação dos feridos através de ambulâncias, em seguida, carro puxado por cavalos. Durante a Guerra da Criméia, a enfermeira inglesa Florence Nightingale (1820-1910) implementou o que Orlando chamou de ” filosofia de cuidados extensivos [unidade de cuidados extensivos]”: espancar pacientes em uma condição mais grave perto da estação de enfermagem, ser monitorada, e muito menos grave.

“Durante a Guerra do Paraguai, houve um debate frutífero sobre técnicas cirúrgicas”, disse Bahiense. Foi discutido, por exemplo, se o momento mais produtivo para amputar um braço ou perna [golpe de bala, facão ou baioneta] seria logo após a lesão ou se esperar o lutador se acostumar com a ideia de ser ferido. Mesmo que as cirurgias tenham sido bem feitas, os infantarias podem morrer em breve de uma infecção generalizada, devido à falta de interesse e sabedoria no asséptico. Ele descobriu que as drogas, basicamente clorofórmio, usadas como anestésico e ópio, para dor, ataduras e roupas de internação estavam em demanda regular, já que o estoque era baixo.

“Guerras, como epidemias, transformam o global em um piso de testes e, mesmo ao custo de um imenso sofrimento, impulsionam a descoberta de novas técnicas cirúrgicas, o remédio de queimaduras ou doenças infecciosas”, disse Orlando. somente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) o número de mortos por feridas de guerra começou a ser maior, neste caso, o dobro das doenças infecciosas.

As razões para essa substituição foram a melhoria das condições higiênicas, a implementação de técnicas de cuidado: os feridos receberam uma solução salina diretamente na veia para compensar as consequências da intensa perda de sangue. O uso de antibióticos como penicilina extra reduziu o número de mortes de soldados por infecções resultantes de seus ferimentos. Durante a Guerra da Coreia (1950-1953), as amputações foram reduzidas com a progressão das técnicas de cirurgia vascular.

A bahiense explica a razão pela qual a maior mortalidade por doenças infecciosas durante a Guerra do Paraguai: “Ainda não havia enfermeiro no Brasil, como nos Estados Unidos e na Europa”. A equipe de ajuda dos cirurgiões era composta por soldados, cabos ou prisioneiros paraguaios que estavam prontos com um curso rápido de enfermagem e depois substituídos por freiras ou mulheres que acompanhavam os militares.

Entre elas, se destacou Anna Nery (1814-1880), referência nesta pintura no Brasil. Insatisfeita com a separação de duas crianças, sejam recrutadas na frente, ela se ofereceu para cuidar dos feridos. Com autorização do governo da Bahia. Nery os acompanhou, aprendeu enfermagem com freiras gaúchas e trabalhou como enfermeira em hospitais na frente. Em popularidade de seu trabalho, o imperador Dom Pedro II concedeu-lhe uma pensão vitalícia, com a qual criou seus outros filhos. .

Em março e abril de 2022, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus aquidauana, organizará um congresso estrangeiro para falar sobre o 150º aniversário do fim da guerra, encerrado no ano passado.

* Este artigo foi republicado pela Revista Pesquisa Fapesp sob uma licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.

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