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Doença de Chagas: Há mais de 30 anos com mesmo tratamento (1 notícias)

Publicado em 22 de julho de 2009

Por Washington Castilhos

Agência Fapesp

Eric Stobbaerts, da Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas, destaca que a doença de Chagas, que não teve nenhum medicamento nos últimos 30 anos, é a mais ignorada de todas

A Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) é uma organização fundada em 2003 e voltada para a produção de remédios para quatro doenças prioritárias e muitas vezes ignoradas: malária, doença do sono, leishmaniose e Chagas

A iniciativa, com sede na Suíça, é resultado da parceria de várias instituições de pesquisa e saúde do mundo, como os Médicos Sem Fronteiras, o Instituto Pasteur na França, o Conselho Médico da Índia, o Ministério da Saúde da Malásia e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil.

Para o economista belga Eric Stobbaerts, membro do DNDi, de todas as quatro a doença de Chagas é a mais negligenciada. “A doença recebeu, em 2007, apenas 0,25% do dinheiro destinado às quatro”, disse em entrevista à Agência FAPESP.

Stobbaerts foi diretor da Médicos Sem Fronteiras no Brasil entre 2007 e 2008, após ter ocupado a mesma posição na Espanha de 1998 a 2004. Fez trabalhos humanitários em conflitos militares no Líbano (1988), Afeganistão (1990 e 1991), Iraque (1991) e Bósnia (1993 a 1995).

O economista participou, na semana passada, do Simpósio Internacional do Centenário da Doença de Chagas, realizado pela Fiocruz no Rio de Janeiro. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a epidemiologia da doença de Chagas, dos fatores que a fazem ocupar uma posição silenciosa no mundo e como, paradoxalmente, a chamada globalização da doença pode chamar mais atenção para ela.

Agência FAPESP – Que lugar a doença de Chagas ocupa no rol das chamadas doenças negligenciadas?

Eric Stobbaerts – É a mais negligenciada de todas. Um dos indicadores é determinado pelo dinheiro destinado à pesquisa para as doenças negligenciadas vindo das iniciativas pública e privada, que foi de US$ 2,5 bilhões em 2007. Desse montante, apenas 0,25% foi para a doença de Chagas, o que representa cerca de US$ 10 milhões, metade dos quais é aplicada em pesquisa básica. Outro indicador dessa negligência é que a probabilidade de termos um novo medicamento para a doença é baixa, uma vez que nos últimos 30 anos (de 1975 a 2005) foram desenvolvidos 1.556 medicamentos, dos quais 21 eram para as outras doenças desta lista e nenhum para Chagas.

Agência FAPESP – A que se deve essa situação?

Stobbaerts – Ao perfil do doente. Chagas é chamada de “doença silenciosa” porque atinge pacientes de populações das áreas rurais, que não têm voz e têm muito pouca consciência de seu direito ao tratamento. Há aí uma negligência social e política por parte da indústria farmacêutica, dos governos e da mídia. A doença é silenciosa porque atinge uma população silenciosa.

Agência FAPESP – A epidemiologia da doença justifica essa situação?

Stobbaerts – Esse é um outro sinal do descaso, uma vez que todos os números da doença são baseados em estimativas. Segundo fontes oficiais, a ocorrência varia de 8 milhões a 16 milhões de pessoas no mundo, essencialmente nos 21 países endêmicos latino-americanos, onde são estimadas 14 mil mortes por ano. Sabemos que muitas dessas mortes são notificadas como cardiopatias, não como resultado de Chagas. A forma mais comum é a morte súbita, ou seja, as pessoas nem sabem que têm a doença. E ainda há o risco de 100 milhões de pessoas contraírem a doença. Epidemiologicamente falando, há também um fato importante a ser considerado: atualmente, devido à crescente mobilidade das pessoas, encontramos casos nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Europa. Está havendo uma globalização da doença. O paradigma de que Chagas é um mal latino-americano está caindo.

Agência FAPESP – Paradoxalmente, essa globalização da doença não pode atrair mais atenção para ela, fazendo com que seja menos negligenciada?

Stobbaerts – Sem dúvida, essa é uma oportunidade para a doença abandonar sua posição de doença silenciosa. Já está havendo uma preparação dos corpos médicos dos países não-endêmicos, que não estão preparados para ela. Há uma tomada de consciência mundial e tem se questionado a ausência de soluções no programa de prevenção da doença.

Uma coisa é controlar o vetor, mas o que fazemos com as pessoas infectadas? Há apenas dois medicamentos desenvolvidos nos últimos anos. São tóxicos e não há um consenso médico sobre usá-los nas duas fases da doença – a aguda e a crônica. Não são eficazes, como os medicamentos antirretrovirais para a Aids, por exemplo. A diferença entre Chagas e problemas como a Aids é que as pessoas soropositivas se mobilizaram rapidamente. Para Chagas, não há sequer uma associação de doentes. O círculo do silêncio é perpetuado, mesmo depois de cem anos da descoberta da doença.

(Envolverde/Agência Fapesp)