Notícia

Agência C&T (MCTI)

Doce perigo na embalagem

Publicado em 01 dezembro 2007

Item obrigatório de quem está com quilinhos a mais e moda entre os que preferem paladar mais adocicado, o refrigerante diet costuma trazer boas notícias para quem sobe na balança, mas pode esconder perigosos efeitos para a máquina que move o corpo: o coração. O alerta consta de recente estudo publicado pelo pesquisador e professor da Universidade de Boston Ramachandran Vasan na revista Circulation, da Associação Norte-Americana do Coração.

Levantamento realizado com nove mil pessoas de meia idade durante quatro anos demonstra, pela primeira vez, que o consumo de refrigerantes com adoçantes artificiais pode estar ligado a múltiplos fatores de risco para doenças cardíacas. O resultado da pesquisa, publicado em forma de divulgação científica pela Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mostra que os participantes que beberam mais de um refrigerante por dia tinham 31% mais tendência de desenvolver obesidade, 25% mais risco de ter triglicérides elevados e 32% mais propensão a baixos índices de colesterol bom fatores que compõem a chamada síndrome metabólica.

De acordo com o diretor de serviços médicos e de eletrocardiologia do Instituto do Coração da USP (Universidade de São Paulo), Carlos Alberto Pastore, a síndrome metabólica é definida como a presença de três ou mais componentes individuais: circunferência abdominal aumentada (igual ou maior a 88 centímetros em mulheres e 102 centímetros em homens), glicemia de jejum maior ou igual a 100 mg/dL (miligramas por um décimo de litro) ou tratamento com agentes orais ou insulina, pressão arterial maior ou igual a 135/85 mm Hg (milímetros de mercúrio) ou tratamento de hipertensão, triglicérides maiores ou iguais a 150 mg/dL, colesterol HDL (o bom colesterol) abaixo de 40 mg/dL em homens ou de 50 mg/dL em mulheres.

"Sozinhos, os componentes da síndrome metabólica representam graves riscos de problemas cardiovasculares. Falta definir a contribuição da junção desses componentes, na síndrome metabólica, para o aumento desse risco" - avalia o cardiologista do Incor, que alerta: "Pode-se dizer, com base na associação encontrada entre consumo intenso de refrigerantes e desenvolvimento da doença, que crianças que consomem es se tipo de bebida correm, sim, risco de problemas cardiovasculares futuros".

Doce vida — A associação do consumo de refrigerantes, inclusive os diet, com o risco de desenvolver síndrome metabólica carece de explicações. De acordo com o estudo publicado pela equipe de Ramachandran Vasan, a presença de xarope de frutose de milho nas bebidas poderia causar ganho de peso e, por tabela, levar à diabetes. Outra possibilidade é o consumo de refrigerantes durante a re feição, que prejudica a compensação de alimentos sólidos ou, ainda, uma hipótese forte: a versão diet dos refrigerantes é altamente adocicada, o que poderia contribuir para o consumo maior de doces.

Segundo o médico Carlos Alberto Pastore, ainda não há dados que permitam relação causa-efeito ligando o consumo de adoçantes à síndrome metabólica, pois diversos fatores podem estar envolvidos. "A partir do estudo publica do na revista Circulation viu-se que o refrigerante artificialmente adoçado não impede a associação entre seu consumo e a doença" lembra o cardiologista. "Devido à extrema complexidade do organismo de um ser vivo, poderíamos pensar em condicionantes metabólicos que estariam influenciando o desenvolvimento tanto do gosto pelo consumo de refrigerantes e outras bebidas gaseifica das e os traços da assim chamada síndrome metabólica" — observa.

Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas, a produção de refrigerantes aumenta a cada ano. Em junho de 2006 foram produzidos 956 milhões e 546 mil litros da bebida e no mesmo mês de 2007 houve acréscimo de 5,78% na produção, atingindo 1 bilhão, 11 milhões e 815 mil litros.