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Informática Hoje

Doação de cérebros

Publicado em 01 novembro 2006

O déficit no setor de software é de R$ 2,7 bilhões por ano. Para pagá-lo, é como se cada homem, mulher e criança no Brasil pusesse R$ 15 num envelope e o enviasse ao exterior.

A explicação desse déficit pode ser resumida num rapaz de 28 anos, o Thiago, e num senhor de 60 anos, o Fernando. Durante três anos e seis meses, Thiago Alexandre Salgueiro Prado viveu e trabalhou com dinheiro da Fapesp, da Capes, do CNPq e da Comissão Fulbright.

Até que, em agosto de 2005, defendeu a tese de doutorado em ciência da computação — construiu o Dizer, programa de análise automática de textos escritos em português brasileiro, "Choveu esta manhã. O chão está molhado." Sem ajuda humana, o Dizer junta causas e efeitos: o chão ficou molhado porque choveu.

Pode ser usado como motor de programas automáticos de tradução, de resumo, de correção. E o terceiro desse tipo no mundo — o primeiro é de 1996, americano, e o segundo é de 1998, japonês.

Talvez o DiZer esteja sendo usado por outros cientistas e programadores, porque Thiago dá o código a quem pedir, mas ele não tem certeza.

"Até agora", diz Thiago, "nem a revista da Fapesp ligou para saber a história." 

Fernando Lefôvre, também cientista, tinha 44 quando começou a trabalhar no Qualiquantsoft planejou codificar tudo o que havia aprendido sobre a tabulação de pesquisas de opinião e sobre a arte de cruzar os dados. Conseguiu organizar a festa de lançamento do Qualiquantsoft 14 anos depois, ao meio-dia de 16 de dezembro de 2004, depois de uma "novela jurídica rocambolesca". O projeto ficou mais de um ano parado no departamento jurídico da USP; ninguém sabia como pagar a pequena Sales & Paschoal Informática, que escreveu o código e até hoje coordena as vendas via Internet. Aos 60 anos, Fernando acha que o Qualiquantsoft vai lhe garantir uma velhice cheia de empreitadas, e por isso fundou o Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo, tocado por sua sócia e mulher, Ana.

O instituto trabalhará para clientes como o Ministério da Saúde, misturando o serviço de pesquisa com a pilotagem do Qualiquantsoft. Se for um tremendo sucesso, é puro azar, "Se viessem interessados demais", diz Fernando, "eu teria de recusar trabalho, Como professor titular da USP, trabalhar muito no instituto é proibido."

O jovem Thiago gostaria de ver o Dizer sendo usado por empresários brasileiros, já que ele mesmo não tem a ambição de tocar um negócio. Mas nenhuma empresa brasileira fez contato. O Google fez.

Ciência e dólares

Cientistas são obrigados a ir descobrindo como o mundo funciona — do contrário, não sobem na vida. Descobrem como usar matemática para analisar o conteúdo inerente ao texto; é o caso do Dizer.

Ou descobrem como usar  matemática para apresentar a opinião de muitas pessoas como se fosse a opinião de uma pessoa só; é o caso do

Qualiquantsoft.

Mas raramente o empresário brasileiro consegue incluir a ciência brasileira no software que produz. Quando ele vive bem de software, na verdade vive de colocar programadores para transformar especificações

em código-fonte (é o caso da fábrica de software), vive de colocar programadores para transformar práticas em código-executável (é o caso do fabricante de ERP, o sistema de apoio à gestão da empresa) ou vive de revender software estrangeiro.

Software estrangeiro contém mais ciência, um ótimo diferencial competitivo.

Daí, para cada dólar trazido com o que o empresário exporta, o CIO no Brasil envia US$ 5 com o que importa. (A exportação de software vale US$ 300 milhões por ano, e a importação, US$ 1,5 bilhão, segundo dados do Banco Central.) Às vezes, o software estrangeiro contém até mesmo a ciência doada ao mundo por brasileiros criados na Fapesp, na Capes e rio CNPq.

Sem corporativismo

Ciência é bizarramente frágil. É feita por professores de universidade e por alunos de doutorado, e ambos usam o apoio dos alunos de mestrado e de graduação.

Esse povo é alvo fácil de criticas — não sabe S defender direito, às vezes nem quer. A ciência brasileira precisa de várias reformas, mas não merece críticas duras. É recente demais. Na inauguração de Brasília, havia só um curso de pós-graduação no Brasil, um curso de mestrado. Hoje as escolas formam 10 mil doutores por ano. "E ainda não temos doutores em excesso", diz o professor Celso Pinto de Meio, físico e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. "Precisamos de mais."

Cientistas brasileiros descobrem verdades em todas as áreas do conhecimento e são bem mencionados em trabalhos estrangeiros. (Poucas menções, mas condizentes com o tamanho da produção científica nacional: 1,7% da produção mundial.) O número de doutores vem crescendo 15% ao ano, o que é bom, já que existe 1 doutor para 56 pessoas, dez vezes menos que a média dos países mais ricos. Políticos só conseguem influir no trabalho do cientista no atacado, mexendo em incentivos fiscais ou no orçamento da União. No varejo, cada cientista trabalha livre de coações. "Recebo verba da Fapesp sem passar pela reitoria da USP", explica

Marcelo Knõrich Zuifo, engenheiro e coordenador do grupo de computação visual e meios eletrônicos interativos da USA E Marcelo distribui a verba como quer. "Temos boa imunidade contra corporativismos."

Sou pago para...

Vivendo no Brasil, o professor não consegue fazer muito com o conhecimento que produz.

Se vivesse no Canadá, como em outros países ricos, poderia também abrir uma empresa. Se abrisse uma de tecnologia audiovisual em Toronto, teria todos os impostos devolvidos, porque os políticos canadenses resolveram transformar Toronto num pólo de animação e de efeitos especiais para TV e cinema. No Brasil, professor de universidade pública só abre empresa cheia de limitações legais e operacionais. (A maior parte da ciência brasileira é feita em universidades públicas.) O único lugar em que pode transformar ciência em inovações, com liberdade até para vender as inovações depois, é o C.E.S.A.R — criado não por iniciativa de instituições, mas de uma pessoa, Sílvio Meira. "São

Paulo é a cidade que mais produz software no Brasil", diz Marcelo Zuffo, "e há dez anos tentamos construir aqui, sem sucesso, algo como o C. E. S.A.R"

Mas, vivendo no Brasil, poucos doutores se animam a virar professor-empresário. Quase sempre, um doutor vai escolher a vida de funcionário superqualificado da iniciativa privada — na prática vai abandonar a ciência. Se a idéia lhe parecer absurda, então sim vai escolher a vida de professor universitário.

Tudo o que descobrir será propriedade da universidade. A lógica é: se o cientista vive de dinheiro público, então suas descobertas são propriedade pública. O cientista fica só com o mérito. Em 2000, o Brasil inteiro conseguiu depositar 220 patentes nos Estados Unidos. Foi o melhor ano até agora. "Por isso a USP está no 1° lugar em orçamento, mas no 130 em inovação", diz Marcelo Zuifo. Nenhuma universidade, nem mesmo a USP, está bem organizada para defender direitos autorais ou patentes no mundo inteiro. O trabalho das universidades é apoiado pelo INPI, que, algumas vezes, demora oito anos para liberar uma patente. Uns poucos professores não se conformam e brigam por patentes nos meandros da burocracia ou até na justiça. A maioria desiste. "Nós, cientistas, somos cobrados por artigos publicados e pela produção científica", explica o professor Ricardo Anido, do instituto de computação da Unicamp. Ninguém é cobrado pelos negócios possíveis com o conhecimento descoberto. Em vez de guardar segredo e esperar a patente sair, em vez de fechar negócio com empresários, o cientista faz aquilo que põe sua carreira adiante: publica tudo o que aprendeu e descobriu, e se for numa revista estrangeira de renome, de alcance mundial, melhor. O jovem Thiago já publicou 50 textos até agora, incluindo a dissertação de mestrado e a tese de doutorado. Dez deles em inglês.

No Google

Em alguns países, o empresário se habituou a raciocinar e agir em termos mundiais. Se o negócio do momento é petróleo, ele vai buscá-lo no Oriente Médio. Se é tabaco, vai buscá-lo no Brasil, na Turquia, na Índia. Se é conhecimento científico, vai buscá-lo onde houver gente talentosa num laboratório, pesquisando com liberdade.

Na página do google o internauta clica em ferramentas de linguagem e traduz textos de uma língua para outra. Técnicos do Google vivem atrás de conhecimento científico na área de linguagem; se conseguem melhorar os serviços de tradução, atraem mais público e vendem mais publicidade. Há umas semanas, fizeram uma palestra para os 30 alunos liderados por Thiago, para explicar que tipo de empresa era o Google — e anunciaram o plano de contratar pessoal. "Alguns dos alunos do nosso grupo", informa Thiago, "já estão estagiando no processamento de português do Google."

A SAP, multinacional alemã, chegou a abrir duas empresas especializadas na busca de novas idéias: a SAP Ventures, que investe em pequenas empresas inovadoras, e a SAF Inspire, que procura boas idéias e tenta transformá-las em realidade, Em 2005, 11.624 pessoas trabalharam com pesquisa e desenvolvimento — ou 32% dos funcionários da SAR No cardápio de pesquisas, estão computação para vestir e sistema de gestão de crises civis provocadas por desastres naturais. Se um dia a roupa for interface com sistemas de informática, a SAP estará pronta. Se um dia alguma organização quiser automatizar o socorro aos refugiados de um tsunami, a SAP será opção.

Área de D

Sendo rico o suficiente, o empresário brasileiro de software mantém uma área de P&D, na verdade uma área de D. "O fornecedor brasileiro", diz Henrique Mascarenhas, vice-presidente de inovação e tecnologia da Totvs, "investe só no D de P&D." O foco é desenvolvimento mesmo quando assina acordo com a universidade.

Na verdade, é difícil investir em pesquisa. O Brasil inteiro parece ter se organizado para tornar complicada a aproximação entre empresários e cientistas. "É a lógica do nosso setor", diz Fábio Gandour, gerente de novas tecnologias da IBM. Por que o empresário iria adicionar ciência ao software, se ainda é tão caro proteger os direitos autorais? For que iria investir em conhecimento científico brasileiro, se ele nem sabe se tal conhecimento está protegido por patente em algum outro país? Segundo Celso Meio, o NA não mantém serviço de checagem sobre patentes no resto do mundo.

Sendo teimoso o suficiente, só com dificuldade vai achar no que investir. Nenhuma lista mostra o que professores e alunos andam fazendo. "No máximo", explica Ricardo Anido, "existe a lista de contratos assinados com a Finep." Mas ela é pouco confiável. Todo projeto financiado pela Finep é aprovado por um comitê, cujo trabalho inclui avaliar a probabilidade de o projeto um dia dar lucro. Freqüentemente, formam comitês em que todos os participantes são professores, mas nenhum é ou foi homem de negócios.

Publicidade é básico

Gomo cientistas e empresários não conseguem fazer negócios juntos, os brasileiros todos perdem de várias maneiras, além dos R$ 2,7 bilhões na balança comercial.

Se o cientista vira professor-empresário, como Fernando Lefèvre, sofre com todas as desconfianças. O internauta cismado entra na página da Saies & Paschoal informática, clica em Qualiquantsoft e vê como tudo é amador, como o próprio Fernando reconhece:

"O esquema todo é muito caseiro." Fernando nem consegue dizer, de memória, em que tipo de servidor o Qualiquantsoft deve funcionar — aliás, nem sabe se é software para servidor ou para micro de mesa. Giancarlo Stefanuto, consultor da Softex, conhece várias empresas assim. "No fundo", explica, "ninguém confia num fornecedor que é, na verdade, um professor e uns alunos."

Fernando recorreu a vários alunos ao longo dos anos, tanto para aperfeiçoar sua ciência quanto seu software. Quase todos viveram de bolsas de estudo da Fapesp, da Capes, do CNPq, de fundações. Dinheiro público. Fernando pensa em recorrer a um aluno de mestrado, com bolsa da Fapesp, para melhorar os gráficos quantitativos do Qualiquantsoft. Gráficos mais fáceis e mais bonitos teriam sido vantajosos quando Fernando tentava fechar negócio com o Ibope.

Fez umas poucas reuniões, demonstrou o Qualiquantsoft, mas o pessoal do Ibope acabou escolhendo um fornecedor francês. Fernando nunca conseguiu divulgar o quanto é respeitado como cientista e o quanto seus clientes apreciam o Qualiquantsoft. No negócio de software, confiança é tão fundamental quanto código. For isso as multinacionais investem tanto em publicidade — para não investir em P&D à toa.

Mantra indiano

Sem cientistas no quadro de funcionários, o empresário brasileiro de software ou vai viver exclusivamente de clientes brasileiros ou vai competir com indianos e chineses.

"O Brasil é muito grande", diz Ricardo Anido, "e ele absorve uma boa parte dos fornecedores." Eles se acomodam com seus clientes e tocam a vida sem se preocupar demais com a globalização do software e da ciência. Os que querem exportar, escolhem um ramo em que a ciência não importa: fábrica de software. Se o trabalho é converter especificações em código, ninguém precisa de um cientista no departamento de P&D.

O dono da fábrica de software vai conseguir clientes no exterior e vai empregar programadores no Brasil, mas, para Fábio Gandour, é um desperdício da cultura brasileira. Fábio se deu ao trabalho de examinar o código produzido por gente de vários países, linha por linha. "O código dos indianos parece um mantra. É monótono, é disciplinado, é sempre a mesma coisa". Por isso é estável e mais fácil de documentar. O código dos brasileiros é criativo, ousado e compacto. Combina bem com a transformação de ciência em software

Criando o futuro

A Totvs está montando uma unidade especializada em inovação e pesquisa, com a participação de cientistas. Eles devem ajudar a empresa a buscar um futuro melhor para os produtos das outras empresas do grupo — Microsiga, Logocenter e RM Sistemas. "Pesquisa é

para criar a demanda, é uma coisa para o futuro", explica Henrique Mascarenhas, o responsável pela nova unidade. "Desenvolvimento é para atender a demanda já existente, que vai sempre diminuindo conforme o tempo passa." A diretoria da Totys ainda não fechou os detalhes, mas dá um sinal: o empresário brasileiro de software já sabe que, de algum jeito, precisará incluir o trabalho de cientistas nos processos da empresa. Cientistas mesmo, professores, e não apenas doutores.

Políticos já deram os primeiros passos coma Lei de Inovação e a MP do Bem. "Mas falta muita regulamentação ainda", diz Giancarlo. "Falta uma malha de mecanismos para que a ciência brasileira se transforme em software brasileiro".

Há anos Oldemar Brahn tenta usar todos os mecanismos de incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento, sem sucesso. Ele é dono da Digistar, um elogiado fabricante gaúcho de equipamentos para telefonia por IR "A Digistar faz tudo sozinha. Se estivéssemos em Israel, ou no Japão, ou na Coréia, a Digistar seria considerada uma bênção de Deus" Recentemente, tentou entrar num programa da Finep, que paga R$ 800,00 para a empresa contratar um doutor, mas ele não pode ter nenhum outro vínculo empregatício. Nenhum doutor da região se interessou em ganhar tão pouco. Agora, Oldemar está esperançoso com uma iniciativa da Fiergs, a de criar um jeito de aproximar as empresas e as universidades do Rio Grande do Sul.