Notícia

Jornal da Unicamp online

Do pergaminho ao Excel

Publicado em 06 agosto 2012

Por Maria Alice da Cruz

Muita terra vermelha. Assim funcionários que participaram do período pré-edificação da Unicamp se referem ao campus de Barão Geraldo. A maioria deles hoje é aposentada, mas outros, por opção, ainda figuram no topo da lista da Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) da Unicamp por data de admissão. É o caso do terceiro colocado dessa lista, o bibliotecário da Biblioteca Central Cesar Lattes Roberto Orlando Pereira, que há 44 anos ingressava na área de compras da Universidade, na época instalada no prédio do Colégio Técnico da Unicamp, no centro de Campinas. Há 27 anos morador da Cidade Universitária, ele reconhece que a Unicamp é o seu lugar. Onde conheceu a esposa, criou as filhas e viu o conhecimento científico se desenvolver.

Com a transferência para a Biblioteca Central pouco antes de se formar em biblioteconomia, em 1973, Pereira chegou a fazer manualmente as estatísticas para controle e acompanhamento das assinaturas de periódicos. Ao recontar sua trajetória e ver a transformação de um grupo de 13 bibliotecas dispersas em um complexo sistema integrado por 27 bibliotecas, não hesita em arriscar: “Fui um tijolinho no processo de desenvolvimento do Sistema de Bibliotecas [SBU] dentro da Universidade”.

Apesar de alguns cursos de biblioteconomia esvaziarem-se e a tecnologia facilitar o método de consulta aos acervos, Pereira não deixa de reconhecer que é ali, entre tintas e pergaminhos, que o conhecimento germina. E para que isso ocorra, é preciso de pessoas que cuidem para que o acervo se mantenha atualizado e qualificado. Numa época em que informática e Excel em biblioteca nem eram sonho, Pereira foi incumbido de fazer estatística anual para garantir verba para manutenção e aquisição de novos periódicos sempre que novos cursos eram criados. O jeito era recorrer à calculadora para um planejamento anual de compras bem-sucedido que evitasse que a biblioteca ficasse sem alguma assinatura. Cabia às Comissões de Bibliotecas fazerem a avaliação dos periódicos, classificando-os por prioridade. Os mais importantes, segundo Pereira, eram assinados antes, numa época em que os recursos orçamentários para essa finalidade não eram disponibilizados na sua totalidade no início. “O planejamento era necessário, pois as editoras geralmente reajustavam o valor da assinatura de um ano para outro”, explica. Hoje, ao olhar para a facilidade em se comunicar com outras instituições, eletronicamente, Pereira se orgulha da transformação que teve oportunidade de assistir.

A mesma logística foi aplicada quando a Universidade passou a adquirir livros para graduação. E Pereira mais uma vez cuidou dos cálculos para distribuição, de acordo com critérios estabelecidos pelo Colegiado. “A forma de aquisição pode ter mudado, atualmente é feita por pregão, mas os critérios, com algumas adequações, continuam os mesmos, o que garante a compra e a distribuição das obras a todas as bibliotecas, conforme as prerrogativas e necessidades da sua comunidade acadêmica”, diz.

O tempo de permanência na Universidade o fez vivenciar histórias para as quais muitos funcionários atuais são simplesmente ouvintes. É como a imagem de um médico chamado Zeferino Vaz que um dia idealizou uma universidade brasileira que se aproximasse de instituições as quais admirava. A imagem e o discurso de Vaz são muito vivos para Pereira, no início de sua história no campus de Barão Geraldo. Quando entrou na Universidade, como escriturário, a administração funcionava no prédio do Colégio Técnico (Cotuca), na Rua Culto à Ciência, mas os funcionários foram trazidos para participar da inauguração do primeiro edifício do campus de Barão Geraldo, prédio que atualmente sedia a DGA, com a presença do então governador Abreu Sodré, que se referiu ao mesmo como “barracão”.  Da cerimônia, algumas palavras de Zeferino ficaram em sua memória: “Recordo-me que Zeferino enfatizava não ser importante para a Unicamp uma edificação suntuosa, mas ter como base o conhecimento humano. Por isso se empenhou em trazer os melhores profissionais para a Universidade. Ele já dizia que uma universidade se faz com pessoas”.


Com Zeferino

Outro episódio em que se surpreendera com o fundador da Unicamp se deu no ermo da Avenida Romeu Tórtima. Com uma circulação de veículos e uma habitação bem menores que as de hoje, a avenida foi palco do primeiro encontro dele com o reitor. Minutos depois de estacionar seu carro para auxiliar uma funcionária da copa da Reitoria, cujo carro havia quebrado, o bibliotecário percebeu que um Galaxy preto reduzia a velocidade até acostar-se atrás de seu automóvel. Prontamente, Zeferino pediu ao motorista que o acompanhava para ir a Barão Geraldo buscar um mecânico. Maior foi a surpresa de Pereira quando o então reitor pagou o serviço. Enquanto esperava o mecânico, Zeferino dedicou seus minutos a uma boa conversa com os funcionários que acabaram estacionando para oferecer ajuda.

Quando entrou na Unicamp, Pereira concluía o curso de técnico de contabilidade e tinha como pretensão fazer ciências contábeis e em seguida administração de empresas, mas uma proposta do governo do Estado de equiparação de cargos de nível superior fez com que optasse pela formação em biblioteconomia. “Fui incentivado por uma amiga que era bibliotecária e trabalhava na Seção de Protocolo que ficava no mesmo ambiente da Seção de Compras”. Em 1972, no segundo ano do curso, Pereira procurou a primeira bibliotecária da Unicamp, Cibele Martins Domingues, no prédio do Ciclo Básico 1, onde funcionava a BC, para tentar se realizar em sua área de formação. Apesar da resposta positiva de Cibele, ele foi informado de que teria de encontrar um substituto para sua vaga na área de compras.  “Batalhei um ano para que alguém me substituísse, mas consegui”. Porém, ao chegar à BC, em 1973, Cibele também teria sido substituída por Maria Alves de Paula Ravaschio, professora de Pereira na faculdade, o que serviu para aprimorar seus conhecimentos na área pela qual se decidira

As fichas catalográficas foram os primeiros produtos confeccionados por ele na Seção de Preparação da BC. Ainda guarda algumas, mimeografadas após serem datilografadas em estêncil, e outras, impressas em formulário contínuo, com a chegada da informática na biblioteca. “Os livros eram catalogados, tombados e as fichas eram preparadas e dispostas em fichários de aço. Computador nem na imaginação. Isso perdurou por anos, até a consulta online chegar”, diz Pereira. Ele conta que em uma “Semana de Estudos de Biblioteconomia da PUC”, alguns participantes, inclusive de outros estados, ficaram encantados com a duplicadora de fichas, pois em suas bibliotecas nem isso havia.

Uma das primeiras missões de Pereira como bibliotecário foi auxiliar na catalogação de obras do acervo Paulo Duarte, em 1974. Depois disso, foi designado para registrar e distribuir para as bibliotecas uma grande coleção de periódicos adquirida do Instituto Politécnico da Universidade de Nova York, colocada numa sala do Instituto de Química. Este foi seu primeiro contato com periódicos.

 “Depois desse trabalho, a BC foi transferida para o barracão onde hoje é o Siarq”, relembra. E no barracão, participou também de uma das tantas transformações da biblioteca ao desenhar a divisão das áreas internas do prédio em vários ambientes, colocando em prática a formação em desenho mecânico. “O projeto da circulação interna da BC, de acordo com um engenheiro do Escritório Técnico de Construções (Estec), na época responsável pela construção dos prédios, acabou inspirando a distribuição de outros barracões da Universidade.”
Em 15 de dezembro de 1983, foi aprovado o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU), formado pelas bibliotecas dos institutos e faculdades, sob a coordenação da Biblioteca Central. Era o embrião do atual sistema cujo passo mais importante foi, a partir da constituição do Órgão Colegiado, em 8 de agosto de 1985, o estabelecimento de uma política biblioteconômica para a Universidade, com a participação de todos os segmentos da comunidade acadêmica. Quando o SBU foi finalmente criado, em 25 de novembro de 2003, por meio de deliberação do Conselho Universitário (Consu), Pereira ocupava o cargo de diretor administrativo e participou de todas as reuniões para a implementação do sistema.

O funcionário também participou, ao lado de outros colegas bibliotecários e com apoio dos professores do Colegiado, da elaboração do regimento interno do SBU, conforme estava previsto na deliberação. Participou também da elaboração do regimento interno da BC, como os demais regulamentos internos para que se completasse o ciclo de institucionalização do sistema.

 Momento especialmente importante para ele foi a elaboração de uma série de projetos para a Biblioteca Central dentro do programa de fomento para melhoria da infraestrutura de bibliotecas da Fapesp.

Nessa época, a biblioteca já estava instalada no prédio atual. “Queríamos melhorar a infraestrutura da biblioteca, adquirindo divisórias, placas, estruturas de metal, troca de piso, pintura do prédio, instalações elétricas, sanitárias e até mesmo a troca do sistema de telefonia”. De um total de sete projetos, a fomentadora aprovou seis na íntegra.
Em 44 anos de Unicamp, Pereira encontrou somente uma dificuldade: desvencilhar-se de um sonho que viu se construir. Apesar de ter tempo de sobra para a aposentadoria, ele trocou as tarefas de diretor administrativo pelas atribuições da área de circulação da BC para se aproximar mais dos usuários do sistema.

Muita terra vermelha. Assim funcionários que participaram do período pré-edificação da Unicamp se referem ao campus de Barão Geraldo. A maioria deles hoje é aposentada, mas outros, por opção, ainda figuram no topo da lista da Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) da Unicamp por data de admissão. É o caso do terceiro colocado dessa lista, o bibliotecário da Biblioteca Central Cesar Lattes Roberto Orlando Pereira, que há 44 anos ingressava na área de compras da Universidade, na época instalada no prédio do Colégio Técnico da Unicamp, no centro de Campinas. Há 27 anos morador da Cidade Universitária, ele reconhece que a Unicamp é o seu lugar. Onde conheceu a esposa, criou as filhas e viu o conhecimento científico se desenvolver.

Com a transferência para a Biblioteca Central pouco antes de se formar em biblioteconomia, em 1973, Pereira chegou a fazer manualmente as estatísticas para controle e acompanhamento das assinaturas de periódicos. Ao recontar sua trajetória e ver a transformação de um grupo de 13 bibliotecas dispersas em um complexo sistema integrado por 27 bibliotecas, não hesita em arriscar: “Fui um tijolinho no processo de desenvolvimento do Sistema de Bibliotecas [SBU] dentro da Universidade”.

Apesar de alguns cursos de biblioteconomia esvaziarem-se e a tecnologia facilitar o método de consulta aos acervos, Pereira não deixa de reconhecer que é ali, entre tintas e pergaminhos, que o conhecimento germina. E para que isso ocorra, é preciso de pessoas que cuidem para que o acervo se mantenha atualizado e qualificado. Numa época em que informática e Excel em biblioteca nem eram sonho, Pereira foi incumbido de fazer estatística anual para garantir verba para manutenção e aquisição de novos periódicos sempre que novos cursos eram criados. O jeito era recorrer à calculadora para um planejamento anual de compras bem-sucedido que evitasse que a biblioteca ficasse sem alguma assinatura. Cabia às Comissões de Bibliotecas fazerem a avaliação dos periódicos, classificando-os por prioridade. Os mais importantes, segundo Pereira, eram assinados antes, numa época em que os recursos orçamentários para essa finalidade não eram disponibilizados na sua totalidade no início. “O planejamento era necessário, pois as editoras geralmente reajustavam o valor da assinatura de um ano para outro”, explica. Hoje, ao olhar para a facilidade em se comunicar com outras instituições, eletronicamente, Pereira se orgulha da transformação que teve oportunidade de assistir.

A mesma logística foi aplicada quando a Universidade passou a adquirir livros para graduação. E Pereira mais uma vez cuidou dos cálculos para distribuição, de acordo com critérios estabelecidos pelo Colegiado. “A forma de aquisição pode ter mudado, atualmente é feita por pregão, mas os critérios, com algumas adequações, continuam os mesmos, o que garante a compra e a distribuição das obras a todas as bibliotecas, conforme as prerrogativas e necessidades da sua comunidade acadêmica”, diz.

O tempo de permanência na Universidade o fez vivenciar histórias para as quais muitos funcionários atuais são simplesmente ouvintes. É como a imagem de um médico chamado Zeferino Vaz que um dia idealizou uma universidade brasileira que se aproximasse de instituições as quais admirava. A imagem e o discurso de Vaz são muito vivos para Pereira, no início de sua história no campus de Barão Geraldo. Quando entrou na Universidade, como escriturário, a administração funcionava no prédio do Colégio Técnico (Cotuca), na Rua Culto à Ciência, mas os funcionários foram trazidos para participar da inauguração do primeiro edifício do campus de Barão Geraldo, prédio que atualmente sedia a DGA, com a presença do então governador Abreu Sodré, que se referiu ao mesmo como “barracão”.  Da cerimônia, algumas palavras de Zeferino ficaram em sua memória: “Recordo-me que Zeferino enfatizava não ser importante para a Unicamp uma edificação suntuosa, mas ter como base o conhecimento humano. Por isso se empenhou em trazer os melhores profissionais para a Universidade. Ele já dizia que uma universidade se faz com pessoas”.


Com Zeferino

Outro episódio em que se surpreendera com o fundador da Unicamp se deu no ermo da Avenida Romeu Tórtima. Com uma circulação de veículos e uma habitação bem menores que as de hoje, a avenida foi palco do primeiro encontro dele com o reitor. Minutos depois de estacionar seu carro para auxiliar uma funcionária da copa da Reitoria, cujo carro havia quebrado, o bibliotecário percebeu que um Galaxy preto reduzia a velocidade até acostar-se atrás de seu automóvel. Prontamente, Zeferino pediu ao motorista que o acompanhava para ir a Barão Geraldo buscar um mecânico. Maior foi a surpresa de Pereira quando o então reitor pagou o serviço. Enquanto esperava o mecânico, Zeferino dedicou seus minutos a uma boa conversa com os funcionários que acabaram estacionando para oferecer ajuda.

Quando entrou na Unicamp, Pereira concluía o curso de técnico de contabilidade e tinha como pretensão fazer ciências contábeis e em seguida administração de empresas, mas uma proposta do governo do Estado de equiparação de cargos de nível superior fez com que optasse pela formação em biblioteconomia. “Fui incentivado por uma amiga que era bibliotecária e trabalhava na Seção de Protocolo que ficava no mesmo ambiente da Seção de Compras”. Em 1972, no segundo ano do curso, Pereira procurou a primeira bibliotecária da Unicamp, Cibele Martins Domingues, no prédio do Ciclo Básico 1, onde funcionava a BC, para tentar se realizar em sua área de formação. Apesar da resposta positiva de Cibele, ele foi informado de que teria de encontrar um substituto para sua vaga na área de compras.  “Batalhei um ano para que alguém me substituísse, mas consegui”. Porém, ao chegar à BC, em 1973, Cibele também teria sido substituída por Maria Alves de Paula Ravaschio, professora de Pereira na faculdade, o que serviu para aprimorar seus conhecimentos na área pela qual se decidira

As fichas catalográficas foram os primeiros produtos confeccionados por ele na Seção de Preparação da BC. Ainda guarda algumas, mimeografadas após serem datilografadas em estêncil, e outras, impressas em formulário contínuo, com a chegada da informática na biblioteca. “Os livros eram catalogados, tombados e as fichas eram preparadas e dispostas em fichários de aço. Computador nem na imaginação. Isso perdurou por anos, até a consulta online chegar”, diz Pereira. Ele conta que em uma “Semana de Estudos de Biblioteconomia da PUC”, alguns participantes, inclusive de outros estados, ficaram encantados com a duplicadora de fichas, pois em suas bibliotecas nem isso havia.

Uma das primeiras missões de Pereira como bibliotecário foi auxiliar na catalogação de obras do acervo Paulo Duarte, em 1974. Depois disso, foi designado para registrar e distribuir para as bibliotecas uma grande coleção de periódicos adquirida do Instituto Politécnico da Universidade de Nova York, colocada numa sala do Instituto de Química. Este foi seu primeiro contato com periódicos.

 “Depois desse trabalho, a BC foi transferida para o barracão onde hoje é o Siarq”, relembra. E no barracão, participou também de uma das tantas transformações da biblioteca ao desenhar a divisão das áreas internas do prédio em vários ambientes, colocando em prática a formação em desenho mecânico. “O projeto da circulação interna da BC, de acordo com um engenheiro do Escritório Técnico de Construções (Estec), na época responsável pela construção dos prédios, acabou inspirando a distribuição de outros barracões da Universidade.”


Em 15 de dezembro de 1983, foi aprovado o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU), formado pelas bibliotecas dos institutos e faculdades, sob a coordenação da Biblioteca Central. Era o embrião do atual sistema cujo passo mais importante foi, a partir da constituição do Órgão Colegiado, em 8 de agosto de 1985, o estabelecimento de uma política biblioteconômica para a Universidade, com a participação de todos os segmentos da comunidade acadêmica. Quando o SBU foi finalmente criado, em 25 de novembro de 2003, por meio de deliberação do Conselho Universitário (Consu), Pereira ocupava o cargo de diretor administrativo e participou de todas as reuniões para a implementação do sistema.

O funcionário também participou, ao lado de outros colegas bibliotecários e com apoio dos professores do Colegiado, da elaboração do regimento interno do SBU, conforme estava previsto na deliberação. Participou também da elaboração do regimento interno da BC, como os demais regulamentos internos para que se completasse o ciclo de institucionalização do sistema.

Momento especialmente importante para ele foi a elaboração de uma série de projetos para a Biblioteca Central dentro do programa de fomento para melhoria da infraestrutura de bibliotecas da Fapesp.

Nessa época, a biblioteca já estava instalada no prédio atual. “Queríamos melhorar a infraestrutura da biblioteca, adquirindo divisórias, placas, estruturas de metal, troca de piso, pintura do prédio, instalações elétricas, sanitárias e até mesmo a troca do sistema de telefonia”. De um total de sete projetos, a fomentadora aprovou seis na íntegra.


Em 44 anos de Unicamp, Pereira encontrou somente uma dificuldade: desvencilhar-se de um sonho que viu se construir. Apesar de ter tempo de sobra para a aposentadoria, ele trocou as tarefas de diretor administrativo pelas atribuições da área de circulação da BC para se aproximar mais dos usuários do sistema.