Notícia

Mulheres na Ciência

Do mundo de Beakman às epidemias e pandemia virais

Publicado em 28 maio 2020

Por Rafaela da Rosa Ribeiro

Quando eu tinha uns 7 anos, eu assistia “Mundo de Beakman” com meu pai depois que eu voltava da escola. Lembro de um programa que o Beakman disse: “a célula é a menor parte de um ser vivo” e eu perguntei pro meu pai: “mas não é o átomo?” , porque eu já tinha visto em outro programa. Meu pai ficou sem saber o que falar, porque nem ele entendia aquilo direito.

Com certeza, eu não tinha ideia de que a curiosidade e as perguntas faziam parte da minha personalidade. Mas era assim que era. Cresci e já no primeiro ano da faculdade de Biologia no Paraná (Universidade Estadual de Ponta Grossa), eu insisti para a professora da área de Biologia Celular me aceitar como aluna de Iniciação Científica (aceitar porque ela não tinha nenhuma vaga aberta e nem intenção de começar uma pesquisa nova naquele ano). Mas quando conversei com ela, ela disse: “vou pensar”. Pensou, e abriu seleção. Passei e comecei de fato no mundo da ciência.

Eu trabalhava com apoptose (morte celular) usando uma mosquinha de fruta (não é Drosophila, é Bradisya, que na verdade pertence ao grupo dos mosquitos, mas que não picam) como modelo experimental. Viajei para Maringá para aprender a cuidar desses insetos, e trabalhava sempre, inclusive em muitos finais de semana, pois tinha que coletar os ovos, dar comida e separar os estágios de desenvolvimento para fazer meus experimentos.

Terminando a faculdade, fui alçar outros voos. Cheguei para o mestrado na UNICAMP, não passei. Então, peguei o dinheiro que juntei no último ano da faculdade dando aula para o ensino médio (era um sufoco!) e propus ao meu orientador: “Posso ficar aqui em Campinas três meses e depois prestar a prova no final do ano de novo?”. Ele adorou a ideia. Eu me bancava por três meses, mas logo ele me propôs de ficar o ano todo com um salário que dava para eu comer e pagar um quarto dividido. Sempre agradeço essa chance que ele me deu, porque ali de fato eu percebi que eu gostava disso: aprender, pensar e testar.

Bem, passei no Mestrado. Foram dois anos intensos de muito aprendizado sobre morte celular dependente de hormônio na próstata. Veio o Doutorado, mais quatro anos de trabalho árduo em Biologia Molecular e Estrutural e oito meses na Universidade da Califórnia – Berkeley. Que experiência!! Ali eu vi meu senso crítico científico crescer e entendi o que é ser valorizada e ouvida de fato. Me redescobri com todo meu potencial. Voltei renovada para continuar na ciência.

Mais um ano e meio de doutorado quando retornei ao Brasil e dei uma desmotivada, acabei entrando forte na área de bioinformática, estudando assuntos que estavam difíceis de explicar. Fui roubada, tive que gerar muitos dados novamente e pensava que o caminho da ciência estava errado na minha vida. Mas respirei, pensei, dei um tempo. Fui escrever e fazer outras coisas, me aprimorar na cozinha, adotei uma cachorrinha e fui conhecendo outras linhas de pesquisa que eu pudesse me interessar para continuar, porque eu amava demais a ciência, era só uma questão de ajuste.

Ajustei e apareceu uma vaga: “Morte celular no cenário da infecção por Zika vírus”. Nossa!! Desafiador, tem morte celular, tem vírus (será que eu ia gostar?), e era uma coisa que estava precisando de atenção na ciência. Lá vou eu pra São Paulo, fazer a seleção para a vaga no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP). Uau, passei!

Final do ano 2017, e eu estava animada. Mudando linha de pesquisa, aprendendo e fazendo redes de colaborações essenciais. Para continuar, precisava de mais uma coisa: mais experiência internacional.

A princípio eu não estava querendo, tinha acabado de mudar para São Paulo. Mas no último minuto do segundo tempo consegui a bolsa BEPE da FAPESP e vim pra Itália (Milão) em Junho de 2019 (meu último dia, senão perderia a bolsa). Muita coisa na minha vida é rápida e intensa, então, essa foi mais uma delas. Organizei tudo em um mês e vim, com o detalhe de ter quebrado o dedo da mão, o que dificultou bastante para carregar as duas malas!!

Começo a fazer uma ponte entre o laboratório de neurociências e virologia aqui na Itália. Sempre fui bem atendida e aceita pelos pesquisadores daqui. Minha voz parece ser melhor ouvida, consegui confiança rápido, comecei a colaborar em várias pesquisas e é dessa forma que gosto de fazer ciência: com bastante coisa para discutir, pensar e experimentar.

Eis que, no meio disso tudo, somos atingidos em cheio pela COVID-19. Minha supervisora, Dra. Elisa Vicenzi, de quem eu sempre fui mais próxima, do laboratório de virologia, e especialista em coronavírus, já fica de antena ligada sobre a situação na China e logo em seguida na Itália. A gente mastigava os artigos disponíveis, discutia e queria entender mais daquela doença.

Ainda não tinha caído a ficha! Bem, à medida que imprensa relatava as mortes, as pessoas iam enchendo os hospitais, e a ficha foi caindo. Ao mesmo tempo que tive que processar toda uma pandemia que me atingia em cheio no lado pessoal: aprender a ficar na minha kitnet “monolocale” de um pouco menos de 30m2 por mais de 70% do meu tempo, também tive que processar a enxurrada de informações que a ciência gerava sobre o assunto, pois estávamos escrevendo alguns projetos para pesquisar como o vírus infecta as células, como ele mata as células, como os fármacos agem nos diferentes tipos celulares, e assim por diante.

Entre o projeto do ZIKA parado, laboratórios vazios, e revezamento entre os cientistas por mais de um mês para que as células, experimentos muito delicados e animais não fossem desperdiçados tinha ainda o fardo dos mercados com filas longas por conta do espaçamento entre as pessoas, máscaras, álcool, pouca conversa e um clima pesado e triste. O que me ajudou, e ainda ajuda, foi relativizar com a história da humanidade. Durante guerras e outras pandemias, muita gente teve que parar seus projetos pessoais e seus planos, então, eu sou só mais um humano nisso tudo.

O tempo passa e nossos projetos são aprovados. Então, a Dra. Elisa me convida para colaborar com eles e entrar na pesquisa da COVID-19, em paralelo ao ZIKA. Eu aceito! Eu já estava envolvida pessoalmente, cientificamente e queria era colocar a mão na massa. Bem, iniciamos.

Completamente diferente do ZIKA que usamos proteção P2, o coronavírus exige mais camadas de roupas, sala especial (chamamos de proteção P3) e é cansativo passar horas dentro dessas salas sem poder sair. Porém, a emergência faz a motivação vir e a ciência andar. O meu projeto ZIKA vai caminhando lentamente, mesmo sendo meu xodó, enquanto o do coronavírus, me suga e me ocupa a cabeça para conseguir lidar com tudo isso de maneira psicologicamente sadia e feliz, porque a ciência me desafia e me preenche.

Eu trabalhando com células neuroprogenitoras infectadas com Zika vírus.Eu trabalhando no Laboratório no Ospedale San Raffaele na Itália. Equipe do laboratório de Virologia do Ospedale San Raffaele na Itália. No centro (loira) a Dra. Elisa Vicenzi , principal investigadora dos projetos ZIka Vírus e SARS -CoV-2 que participo.Eu, Rafaela da Rosa Ribeiro