Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Do lixo para livros escolares e cédulas de dinheiro

Publicado em 19 janeiro 2009

Um papel sintético fabricado com plástico descartado pós-consumo foi desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e testado em uma planta piloto da empresa Vitopel, fabricante de filmes flexíveis com fábrica em Votorantim, no interior paulista.

Produzido em forma de filmes, o material produzido a partir de garrafas de água, potes de alimentos e embalagens de material de limpeza, pode ser empregado em rótulos de garrafas, outdoors, tabuleiros de jogos, etiquetas, livros escolares e até em cédulas de dinheiro.

"Ele é indicado para aplicações que necessitam de propriedades como barreira à umidade e água, além de ser bastante resistente", diz a professora Sati Manrich, do Departamento de Engenharia de Materiais da universidade e coordenadora do projeto que teve financiamento da Fapesp para o desenvolvimento da pesquisa e o depósito de patente.

Inédito

O papel sintético comercializa- do atualmente é produzido com derivados de petróleo. "Existem várias patentes e produtos comercializados com matéria-prima virgem, mas não encontramos nenhuma patente ou papel sintético feito a partir de material plástico reciclado", diz Sati. Os testes na planta piloto, também chamada de escala semi-industrial, foram conduzidos por Lorenzo Giacomazzi, coordenador de tecnologia de processos da Vitopel, que tem a cotitularidade da patente.

"O grande diferencial desse processo é fabricar um papel sintético com material totalmente reciclado", diz Giacomazzi. "O aspecto final é o mesmo do produto feito a partir da resina virgem, com a vantagem que se aproveita o material que iria para o aterro sanitário ou para os lixões".

Parceria

A negociação da patente foi uma permuta entre as duas partes. Como a empresa precisava conhecer a composição do material para permitir o uso do equipamento, foi feita uma parceria. "Não pagamos nada para usar a máquina necessária para o experimento e, em troca, eles ficaram com um terço da propriedade intelectual", explica Sati.

Atualmente a empresa está à procura de fornecedores de material reciclado para continuar os testes em escala ampliada. No processo desenvolvido na universidade, os plásticos, depois de limpos e moídos, recebem a adição de partículas minerais para obtenção de propriedades ópticas ­ como brilho, brancura, contraste, dispersão e absorção de luz ­ e resistência mecânica ao ser rasgado, tração e dobras.

Boa qualidade

A mistura é colocada em uma máquina extrusora a altas temperaturas, onde amolece e se funde. No final, o material transforma-se em uma folha grande fina, semelhante a um papel fabricado com celulose, que é enrolada e cortada de acordo com a aplicação.

Os testes na planta piloto foram feitos com as composições de plásticos que apresentaram em laboratório as melhores propriedades para fabricação de papel sintético.

Para efeito de comparação, foram avaliadas as propriedades ópticas e o resultado da impressão em papéis produzidos com matéria-prima virgem e com resíduos plásticos. "Nos testes feitos, as propriedades do papel sintético praticamente não se alteraram com o uso do material reciclado", relata Sati. (Dinorah Ereno, da Revista Pesquisa Fapesp).

O curioso mundo do reaproveitamento

O trabalho desenvolvido pela professora Sati Manrich é um dos diversos exemplos de tecnologia que baseada no reaproveitamento de resíduos, permite com que muitos recursos naturais sejam preservados no País. É o caso, por exemplo, da madeira.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criaram uma alternativa para o abate de árvores destinadas à fabricação de dormentes ­ toras sobre as quais se assentam os trilhos. Por meio de uma tecnologia 100% nacional, a s toras de madeira plástica são feitas a partir de saquinhos de supermercados, vasilhames, embalagens de agrotóxicos, pneus e diversos outros polímeros. Para se ter uma idéia do que essa alternativa representa, até 2015 serão instalados seis mil novos quilômetros de trilhos.

Resultado: oito milhões de árvores irão se transformar em dormentes. Mas se o seu objetivo é decorativo, então a Bananaplac é uma alternativa à madeira.

Em forma de chapas, ideais para o revestimento de móveis ou paredes, elas são feitas com o caule da bananeira, um produto geralmente descartado pelo produtor após a colheita.

Já em Campinas, o engenheiro Flávio Pedrosa Dantas Filho desenvolveu um tijolo que reutiliza pó de serrarias. Atualmente, mais de 600 mil toneladas desses rejeitos são produzidas todos os anos nas marcenarias brasileiras. A maior parte vai para o lixo. Nos tijolos, a serragem entra no lugar da areia, um recurso cuja retirada causa grandes danos ao meio ambiente.

Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Presidente Prudente (SP), o bagaço de cana-de-açúcar está dando origem a tijolos, telhas e placas cerâmicas. A cada ano, a colheita da cana gera mais de 2 milhões de toneladas de bagaço só no Estado de São Paulo.

No Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, garrafas PET e isopor viram blocos semelhantes aos de concreto, diminuindo o uso da brita, oriunda das pedreiras, que desmatam áreas virgens e empregam explosivos.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os biotijolos vêem de resíduos siderúrgicos e petroquímicos ­ processo semelhante ao pesquisado pela Cosipa. Um dos mais curiosos métodos de reaproveitamento de resíduos vem da cidade de Lins (SP). Lá, dois pesquisadores da Unicamp criaram blocos vazados, telhas, floreiras e bancos usando cascas de ovos, de arroz e folhas de cana. Batizado de Biokreto, ele já foi testado e aprovado dentro das normas brasileiras de segurança e qualidade para construção civil. A Baixada Santista também tem os seus pioneiros na área do uso sustentável de recursos naturais. O engenheiro Nelson Parente criou formas plásticas de material reciclado para substituir a madeira na construção civil, reduzindo em 5% o custo final da obra. Já o empresário Oscar Toffoli produz briquetes (lenha) a partir de engradados, caixas ou paletes usados. Segundo ele, 30 quilos de briquetes seriam suficientes para iluminar uma casa que consome 100 kWh/ mês de eletricidade.