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Do laser às políticas científicas

Publicado em 18 outubro 2004

Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Unicamp, é mistura de cientista e administrador Alessandra Greco escreve p ara 'O Estado de SP': No 'DNA Brasil', reuniu 50 pensadores de diversas áreas para pensar o Brasil em Campos do Jordão há quatro semanas, o reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz, de 48 anos, estava ansioso para ir embora. Nada contra o encontro, do qual era um dos organizadores, mas em casa uma diversão maior o esperava: carrinhos de autorama recém-comprados para brincar com o filho Luiz, de 9 anos. "Já está funcionando e sempre que posso brincamos à noite e nos fins de semana.' Da mesma forma que monta carrinhos e aeromodelos, Brito fala dos tempos de aluno do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), quando, no segundo ano, em 1975, aos 18 anos, construiu com dois colegas um laser de gás carbônico, comprando material com dinheiro próprio e 'expropriando' equipamentos dos laboratórios. 'Deixávamos um bilhete avisando que estávamos usando o equipamento e onde ele se encontrava', conta, rindo. A brincadeira se tornou uma empresa quando o trio foi convidado por um empresário para fazer um equipamento de furar tubos de PVC com laser. 'Criamos a LaserTec Lasers Industriais e construímos o equipamento', diz. 'Ganhamos um bom dinheiro, mas após quatro anos cada um seguiu seu caminho. Eu decidi fazer pós-graduação e não ser empresário.' O talento para montar coisas ganhou mais espaço no mestrado e doutorado sobre laser ultra-rápidos. 'Ele era capaz de fazer coisas muito interessantes virtualmente sem nenhum aparato experimental. Fiquei tão impressionado que lhe mandei um laser que tinha sobrando', diz Charles Shank, ex-diretor do Laboratório Lawrence Berkeley, um dos maiores centros de pesquisa dos EUA, que na época estava no Bell Labs. Brito esteve no grupo de Shank em 1986 e 1987, quando fez seu trabalho mais conhecido, o laser que por dez anos deteve o recorde de pulso mais rápido do mundo. Acho que esses anos com ele foram os mais produtivos da minha carreira científica', diz Shank. O trabalho com lasers ultra-rápidos rendeu recentemente a Brito R$ 100 mil da Fundação Conrado Wessel. Sobre o prêmio, ele não gosta de falar. Prefere lasers e política científica. Carioca de nascimento, mineiro de família - o pai padre largou a batina para se casar com a mãe, então vereadora em Uberaba -, Brito tem uma mistura incomum de cientista e administrador, além de uma disponibilidade ímpar para o trabalho. 'É impressionante o número de coisas que ele faz ao mesmo tempo', conta o físico Edson Zacarias da Silva, que trabalha no Instituto de Física da Unicamp, o mesmo em que Brito mantém seu laboratório e do qual foi duas vezes diretor, de 1991 a 1994 e de 1998 a 2002. Ainda estudante, militou no Partido Comunista Brasileiro, no fim dos anos 70 e anos 80. Sobre a militância, também fala pouco. Prefere os números. Sua obsessão por cálculos fez com que se deparasse com dados hoje famosos da Coréia do Sul, que mostravam que boa parte da inovação do país era feita nas empresas, não nas universidades. A idéia de que a inovação deveria estar nas empresas é dele. Hoje todo mundo fala nisso, mas em 1996 a comunidade científica torcia o nariz para o conceito', conta o biólogo Fernando Reinach, diretor da Votorantin Novos Negócios e professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). A criação do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe), em 1997, tem muito a ver com isso. Não o inventei, mas na hora que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) começou a pensar nisso havia uma justificativa conceituai para implantá-lo', conta Brito. Na época, ele já havia se tornado, aos 39 anos, presidente do conselho da Fapesp. Na sua gestão, a entidade implementou alguns dos programas que a tornaram ainda mais conhecida, como o Projeto Genoma, que seqüencial o amarelinho (Xyllela fastidiosa), uma praga que destrói laranjais. 'O avanço da Fapesp no tempo que ele foi presidente do conselho foi extraordinário. Sua presença criou respaldo político e conceituai para que fosse feita inovação na Fapesp', diz o diretor-científico da instituição, José Fernando Pérez. Brito também tem participado de comissões de estudo e avaliação no governo. "Estivemos juntos em dois comitês. Um para avaliar a qualidade da física no Brasil e outro para escolher o novo presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). A presença dele foi fundamental nos dois', conta o físico e diretor emérito de pesquisa da École Politechnique, na França, Roberto Salmeron. 'É uma figura excepcional não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo.' Brito ficou no cargo até 2002, quando se tornou reitor e continuou a bater na tecla da inovação - este ano, a Unicamp bateu o recorde de patentes em um ano. O mandato vai até 2006, mas, com o anúncio da saída de Pérez da Fapesp, em agosto, seu nome está cotado para o cargo, um dos mais poderosos da ciência nacional. Em 2003, a Fapesp desembolsou R$ 354 milhões para pesquisas e talvez por isso seja tão difícil ouvir qualquer crítica ao seu trabalho. O Estado conversou com nove cientistas e todos tiveram elogios, mas três ressalvaram que 'ninguém vai criticar alguém que está cotado para ser diretor científico da Fapesp'. Sobre a possibilidade, Brito não gosta de falar. O comportamento de não falar muito vem da adolescência. "Era um bom aluno. Nem nerd nem bagunceiro', conta Wilson Tucci, professor de Brito no ensino médio no Colégio Dante Alighieri. "Era reservado, estilo coruja: falar, não falava, mas prestava uma atenção...' Não mudou. (O Estado de SP, 17/10) JC e-mail 2628, de 18 de Outubro de 2004.