Notícia

Revista Concerto

Do gesto à gestão

Publicado em 01 maio 2011

Por Rita de Cássia Fucci Amato

Em setembro de 2009, propus à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) um projeto de pesquisa, o qual foi aprovado pelo comitê da área de administração de empresas, sobre O trabalho do regente como administrador e a perspectiva organizacional do canto coral. A intenção era estudar as múltiplas atividades que o regente coral, principalmente em coros amadores, exerce fora do palco e até mesmo nos ensaios. Contatos com patrocinadores, marketing, gestão financeira do grupo somam-se ao papel técnico-musical. Durante o ensaio, motivação e liderança são as palavras-chave na realização de uma atividade trabalhosa e cansativa, que conta apenas com a boa vontade e o prazer de cada integrante da equipe.

Isso revela uma imagem do maestro que foge daquela comumente propagada, de líder poderoso e bem trajado, que comanda seus cantores ou músicos pela teatralidade de seus gestos. É esse o mito que muitos autores da área de administração e negócios difundem para executivos como o exemplo do comando eficaz. Um estudioso da gestão, Henry Mintzberg, resolveu explorar essa imagem e passou um dia com um maestro para avaliar como era seu trabalho. Dessa experiência resultou um artigo na prestigiosa revista Harvard Business Review, no qual o autor destaca: "Quando o maestro sobe ao pódio e levanta sua batuta, os músicos respondem em uníssono. Outro movimento, e todos eles param. Essa é a imagem do controle absoluto - gestão capturada perfeitamente em caricatura".

Essa visão romântica, contudo, parece não se aplicar aos maestros que trabalham junto às grandes organizações profissionais; muito menos é aderente à realidade dos que regem e gerem profissionalmente a atividade musical amadora.

As recentes crises surgidas em grandes orquestras e uma emergente crítica à forma de condução do trabalho por certos profissionais do gesto colocam em xeque a visão tirânica da regência, na qual quase monarcas pretendem se perpetuar no poder, ampliando-o constantemente e tomando seu grupo e sua organização como patrimônios pessoais inalienáveis e inatingíveis. Questiona-se tal visão autoritária de gestão: uma versão distorcida do mandar versus obedecer que marcou a teoria da administração até pouco mais da metade do século XX.

O comportamento tradicional é resultado de uma cultura do meio musical consolidada secularmente e que ganha tonalidades mais fortes em nossa realidade. Os próprios coros e orquestras públicas - as que ainda se mantêm assim - em muitos casos não parecem pertencer à administração pública, que deve obedecer a parâmetros de profissionalismo, transparência e eficiência. Pequenos reinados se formam, boatos são propalados no meio musical, os maestros mandam e desmandam em sua isolada e desregrada corte.

Após várias disputas, um novo momento tem reconfigurado a importância da competência administrativa dos maestros. Os próprios processos de contratação desses artistas consideram as opiniões dos músicos que irão liderar; o regente é exigido não só quanto ao saber musical, mas também no que diz respeito a suas habilidades de comunicador, estrategista, mobilizador de recursos e gestor do clima humano, flexível, criativo, otimista e cativante.

Fora das grandes orquestras profissionais, muitos maestros desenvolvem experiências inovadoras de gestão em coros amadores. Novas formas de apresentação, organização em rede, autogestão, liderança participativa são palavras-chave que, implícita ou expressamente, dirigem a prática de muitos dos melhores coros da cidade de São Paulo.

A crise do autoritarismo na regência tem corroborado assim as palavras de um teórico da administração que amava Bach e teve que trabalhar como afinador de pianos para pagar seus estudos de economia em Harvard (os quais não chegou a concluir). Chester Barnard (1886-1961) sentenciou que um gerente, "se usar só suas próprias ideias, será como que uma orquestra de um homem só, e não um bom maestro, figura que representa grandemente o líder".

Rita de Cássia Fucei Amato, maestrina, é pós-doutoranda em Engenharia de Produção (USP).