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Divulgar para preservar

Publicado em 12 novembro 2008

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

Para cientistas reunidos em simpósio sobre biologia evolutiva e biodiversidade, divulgação do conhecimento científico – e não apenas a importância dos serviços ambientais – deve orientar sensibilização da sociedade para a conservação

Os caminhos concretos para a transformação do conhecimento científico em políticas públicas de conservação. Esse foi o tema debatido nesta terça-feira (11/11), em São Paulo, no último dia do simpósio “Biologia evolutiva e conservação da biodiversidade: aspectos científicos e sociais”.

Um dos aspectos debatidos no evento – realizado pelos programas Biota-Fapesp e bioGENESIS, da organização internacional Diversitas, sediada no Museu de História Natural, em Paris, na França – foram as estratégias mais favoráveis para sensibilizar os gestores públicos e a sociedade para a necessidade da preservação da biodiversidade.

O debate final foi conduzido pelos dois coordenadores científicos do evento: Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e ex-coordenador do Biota-Fapesp, e Lúcia Garcez Lohmann, professora do Instituto de Biociências da USP e integrante brasileira do comitê científico do bioGENESIS.

Depois de apresentar, no primeiro dia, os mais recentes avanços da pesquisa na área de biologia evolutiva e suas implicações para a aplicação na conservação da biodiversidade, o simpósio dedicou o último dia a debater os mecanismos para a efetiva aplicação desses estudos.

“Trouxemos participantes de várias das instituições que trabalham para fazer essa ligação entre a pesquisa científica e aplicações. O objetivo era orientar estudantes, professores e pesquisadores que querem fazer isso e não têm idéia de como proceder”, disse Lúcia à “Agência Fapesp”.

Segundo ela, o evento permitiu que os participantes situassem suas próprias pesquisas no cenário das últimas inovações da área e também em relação às instituições encarregadas de levá-las ao plano prático. “Os pesquisadores puderam avaliar a relevância de seus próprios estudos”, disse.

Além da Diversitas, do bioGENESIS e do Biota-Fapesp, a professora se referia a instituições como o Mecanismo Internacional de Expertise Científica em Biodiversidade (Imoseb), o Biodiversity Observation Network (Geo Bon) e a rede européia European Distributed Institute of Taxonomy (Edit).

Uma questão sobressaiu no debate com o público: que meios utilizar para convencer a opinião pública e, conseqüentemente, os tomadores de decisão, de que a preservação da biodiversidade tem importância crucial.

“Quase sempre, nas discussões sobre a tomada de decisões relacionadas à conservação da biodiversidade, os aspectos relacionados aos serviços de ecossistemas são levantados. Esse é um ponto que nós biólogos – em particular os taxonomistas – temos tentado colocar em discussão, porque restringe a necessidade de conservação a uma visão utilitária dos organismos. Achamos que é preciso preservar a biodiversidade por si mesma”, disse Lúcia.

Para a maior parte dos cientistas presentes, o melhor caminho para estimular as políticas de preservação é o conhecimento da biodiversidade. “As pessoas querem preservar o que conhecem. Por isso costumamos dizer que a taxonomia está para a conservação assim como a língua está para a educação. Sem conhecer, não há como preservar”, afirmou.

Para Michael Donoghue, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, a importância dos serviços de ecossistemas – como regulação da erosão, manutenção da qualidade do ar, purificação da água, controle de doenças e provisão de produtos naturais – é sempre ressaltada porque “parece ser uma argumentação mais fácil de ‘vender’ para quem cria as políticas de conservação”.

“Mas acho que esse não é o único tipo de estímulo que gera resposta nos gestores públicos. A maior parte da população não sabe o que são serviços de ecossistemas. Por outro lado, a preservação de pandas e baleias tem uma apelo muito popular, sendo que o fim dessas espécies não representaria a supressão de nenhum serviço de ecossistemas”, apontou.

Elena Conti, professora da Universidade de Zurique, na Suíça, enfatizou o papel importante da educação e da divulgação científica para influenciar as tomadas de decisão.

“O papel dos biólogos inclui a produção de mais materiais didáticos que ajudem as crianças a conhecer a biodiversidade, estimulando a vontade de preservar. Eu gostaria de ver a produção de filmes que mostrassem como ficaria o mundo em diferentes cenários de redução da biodiversidade”, sugeriu.

Expressão e negociação

Para Maria Cecília Wey de Brito, secretária de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), se gestores, responsáveis por políticas de conservação ou a opinião pública não dão importância suficiente à biodiversidade, a razão disso não é uma suposta falta de sensibilização.

“A comunidade científica deveria rediscutir sua argumentação e sua forma de expressão do conhecimento. Se ninguém entende o que dizemos ou se ninguém faz uso do que ensinamos, há algo de errado na comunicação”, disse à “Agência Fapesp”.

Segundo ela, é preciso diminuir a distância subjetiva existente entre a comunidade científica e os especialistas em conservação que atuam em entidades governamentais.

“Eu não me sinto distante desse público de pesquisadores. E é evidente que não preciso ser sensibilizada em relação à importância da biodiversidade. Mas falta à comunidade ambientalista – em seu sentido mais amplo – entender que não há como fazer as coisas virarem realidade sem negociações. Não há meios para fazer prevalecer sempre os pontos de vista de nenhum grupo, ainda que eles sejam absolutamente relevantes”, afirmou.

Ao responder às perguntas da platéia após sua exposição no simpósio, Maria Cecília debateu com pesquisadores a polêmica em torno da divulgação, em setembro, da lista das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção.

A lista original elaborada pela Fundação Biodiversitas, sediada em Minas Gerais e incumbida pelo governo de fazer a pesquisa, apresentava 1.495 espécies. O MMA, no entanto, publicou uma lista com 472 espécies ameaçadas e outra lista com 1.079 espécies com deficiência de dados.

“Alguns pesquisadores acusaram o ministério de fazer uma lista política. Ela não era política, absolutamente. Mas a lista original era impraticável do ponto de vista da aplicação. As informações sobre muitas espécies eram insuficientes para confirmar o risco. Se deixamos passar algo assim e alguém descobrir que uma daquelas espécies existe em profusão, além de deslegitimar a lista inteira, vamos colocar a pessoa que vai aplicá-la em situação de improbidade administrativa”, disse.

As apresentações do simpósio estão disponíveis no site da Fapesp, em http://www.fapesp.br/materia/4655

(Agência Fapesp, 12/11)