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O Povo

Divergências sobre as células-tronco

Publicado em 09 abril 2005

A aprovação do uso científico de células-tronco embrionárias humanas, feita recentemente pelo Congresso Nacional, foi comemorada por muitos pesquisadores. Mas, ao contrário do que pode parecer em um primeiro mo mento, o consenso está longe de ser atingido. Por uma série de razões, técnicas ou até filosóficas, parte da comunidade científica é reticente ao uso das células. Alguns grupos chegam a ser contrários à prática. Outros afirmam que se criou um otimismo exagerado sobre o assunto.
"Quanto à aplicação das células embrionárias em terapias de vários tipos de doenças, existem algumas desvantagens da utilização desse material genético que não apareceram durante os debates de aprovação do Projeto de Lei de Biossegurança", disse Nance Nardi, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Segundo a cientista, que disse achar interessante oferecer às pessoas a liberdade de opção, os problemas são basicamente dois. "Tais células apresentam grave risco de segurança. A não ser que estejam sob total controle, pode ocorrer o surgimento de tumores, do tipo teratomas, nos recipientes do transplante", explica.
Além disso, o'uso de células-tronco embrionárias e, portanto, de outro indivíduo - traz o problema da rejeição imunológica, assim como ocorre em qualquer tipo de transplante. "Esse porém poderia ser superado pelo emprego da clonagern terapêutica ou, como é chamada agora, da transferência nuclear, mas o texto aprovado não permite o emprego dessa metodologia".
Com bastante experiência nas pesquisas com c tronco adultas, a cientista lembra que a aprovação do projeto de lei não significa que a cura de certas doenças esteja "logo além da primeira esquina". Para Nance, isso passa a ser bastante doloroso particularmente para pessoas que aguardam com ansiedade uma novidade nessa área, que passa a ser a única possibilidade de cura de doenças corno Parkinson, Alzheirner e lesões espinhais que causam paraplegia.
"E necessário deixar muito claro que, atualmente, as células-tronco adultas representam uma possibilidade muito maior de tratamento que as embrionárias. Na verdade, existe no mundo hoje um grande número de estudos clínicos que empregam células-tronco adultas para tratar uma variedade de doenças, mas nem sequer um que utilize as embrionárias. Isso mostra que ainda estamos longe de dominar essa tecnologia e também como estamos perto da expansão do uso das células adultas para um número maior de patologias", afirma.
Para Nance, o uso de células-tronco embrionárias humanas tem uma importância muito grande para a pesquisa básica. Além disso, os grupos que pretendem usar as células embrionárias humanas apontam outros pontos de destaque. Um deles é que, por exemplo, essas linhagens apresentam uma plasticidade muito grande, o que pode ser fundamental em determinados casos.
(Agência Fapesp)