Notícia

Agecom da UFSC

Divagações de Mallarmé ganha lançamento nesta quinta em Florianópolis

Publicado em 12 agosto 2010

Divagações - Stéphane Mallarmé

Tradução e apresentação de Fernando Scheibe

Florianópolis: Editora da UFSC, 2010

270 páginas

R$ 41,00

Ele representa para a literatura moderna e contemporânea o que Cézanne representa para a pintura. Sua vida foi tomada pelo esforço silencioso de construir um livro em que a linguagem se integrasse perfeitamente ao objeto e com esse propósito reinventou o próprio livro. A obra do francês Stéphane Mallarmé marcou as artes e o pensamento vanguardista do século XX, a ponto de Michel Foucault dizer que esse pequeno professor de inglês , nascido em 1842, iniciou a literatura propriamente dita. Divagações, seu livro de ensaios com a exposição mais completa e radical do pensamento do poeta-inventor e o único realmente organizado por Mallarmé, reúne uma preciosa coleção de textos de classificação indefinível que são um enigma de tão profundos e belos.

E é essa obra emblemática e monumental, pela primeira vez traduzida para o português e publicada no Brasil graças ao desafio hercúleo de Fernando Scheibe, que a Editora da UFSC lança em Florianópolis nesta quinta-feira, 12, às 18h30min, na sala Drummond, no Centro de Comunicação e Expressão CCE . O lançamento em casa terá a presença e o depoimento do tradutor, depois de um percurso de muito êxito no mercado editorial do país, com direito a resenhas de capa dos suplementos dos principais jornais brasileiros, elogios de grandes críticos como Luiz da Costa Lima e exposição no estande de entrada da Livraria Cultura, em São Paulo.

Fruto de uma pesquisa de seis anos de pós-doutoramento de Scheibe na Faculdade de Educação da Unicamp, sob a supervisão do professor Joaquim Brasil Fontes e bolsa da Fapesp, a tradução permite que se revisitem hoje as ideias e as posições estéticas de Mallarmé, autor considerado um divisor de águas entre a literatura romântica e moderna, mas tradicionalmente refém de alusões genéricas ou fetichizadas. Em sua apresentação, o tradutor dialoga com a apresentação do autor no original: Publicado na França em 1897, pouco tempo antes da morte do poeta, Divagações reúne textos ´em prosa´ escritos por Mallarmé ao longo de toda sua vida. ... Embora seja uma grande bricolagem, um grande pasearse aqui e acolá ao longo de mais de trinta anos, ´as Divagações aparentes tratam um tema, de pensamento único´. Qual?, pergunta Scheibe. E ele mesmo responde: as possibilidades políticas da poesia. Na aguardada tradução do rodopio de textos classificados por Joaquim Fontes, também em texto de apêndice, como monstruoso na acepção grega de maravilha, unem-se poemas em prosa que o autor chama de Anedotas e poemas o resumo de uma novela fantástica inglesa divagações sobre Wagner, Baudelaire e Poe, crônicas teatrais nominadas de Rabiscado no teatro as seções Quanto ao Livro, O mistério das letras e Grandes fatos diversos , onde coloca em prática um jornalismo que anote os acontecimentos sob a luz própria ao sonho .

Frequentemente citado como o poeta de Um lance de dados ou O virgem, o vivaz e o belo hoje , Mallarmé teve sua prosa raramente considerada, embora seja parte fundamental da formulação do trabalho do autor, tanto por ajudar a dar-lhe sentido quanto por dar corpo e estilo singulares a seu projeto de poesia crítica , como assinala Marcos Siscar, na resenha que consta do apêndice da edição. Ora usado como fetiche do experimentalismo, ora acusado de hermetismo e esteticismo sem consciência política na recepção crítica de sua obra durante o século XX, Divagações desautoriza essas apropriações rasas de sua obra. Siscar cita Henri Meschonnic: Reler Mallarmé, sua prosa reflexiva, é um alívio depois de tantas glosas, porque seu jorro, seu gestual, permite-nos ouvir a inteligência e esta mistura tão própria de humor e ironia , aos quais se acrescenta uma inteligência da sociedade e do político .

Pensadores como Walter Benjamin, Foucault, Derrida, Deleuze são reconhecidos como vanguardistas que construíram obras emblemáticas a partir da transformação do legado intelectual de outros autores. Mas Mallarmé, assim como Baudelaire, Rimbaud e Nietzsche, figuram entre os profetas, porque anunciaram um tempo sem matéria antecedente, praticamente criando sua matéria-prima , analisa o entusiasmado editor Sérgio Medeiros, finalista do Prêmio Telecom de Literatura, que em agosto vai brindar os cinéfilos com o lançamento dos Ensaios Críticos, de Rogério Sganzerla, o genial cineasta catarinense, diretor de O Bandido da Luz Vermelha, em um pacote-presente luxuoso patrocinado pelo Itaú Cultural que inclui um DVD com suas principais realizações. O abre-alas dessa reformulação ética e estética foi eleito como referência fundamental por grandes artistas e críticos brasileiros, como Augusto e Haroldo de Campos e Mário Faustino e inspira a obra de pensadores como Jacques Derrida, Alain Badiou, além de Foucault e tantos outros.

O namoro com Divagações começou quando a tradução ainda estava sendo gestada pelo jovem e brilhante doutorando de Literatura da UFSC, que empreendeu um desafio evitado até por grandes especialistas e herdeiros da obra de Mallarmé. Eu disse a Fernando Scheibe que quando concluísse o livro eu o ajudaria a encontrar editor , conta. Ao assumir a direção da Editora da UFSC, em março deste ano, foi Scheibe o primeiro autor contatado por Medeiros para estrear o novo projeto editorial. Nada mais justo do que eleger como carro-chefe o autor de textos - ou seriam versos ao ritmo da leitura? - que encerram uma vida feita da espera pelo encantamento da palavra literária:

Agora mesmo, em abandono de gesto, com a lassidão que causa o mau tempo desesperando uma após outra tarde, fiz recair, sem uma curiosidade, mas parece-lhe ter lido a tudo eis já vinte anos, o afilado de multicores pérolas que a chuva folheia ainda, ao reluzir das borchuras na biblioteca. Muita obra, sob os vidrilhos da cortina, alinhará sua própria cintilação: gosto como no céu maduro, contra a vidraça, de seguir luzires de tempestade. Fragmento de Crise do Verso, de Stéphane Mallarmé.

Por Raquel Wandelli jornalista, SeCarte

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