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O Estado (MS) online

Dispositivos ajudam a prever convulsões e a tratar pacientes com epilepsia

Publicado em 29 abril 2019

Por Maria Fernanda Ziegler, da Agência FAPESP

Pesquisadores da Austrália estão desenvolvendo dispositivos eletrônicos implantáveis para pacientes com epilepsia. O objetivo é prever convulsões, identificar o padrão de frequência das crises e até liberar medicamentos a fim de evitar novos episódios. Os aparelhos ainda não são comercializáveis, mas alguns deles já estão em fase de testes em humanos.

A epilepsia atinge cerca de 1% da população mundial e, mesmo assim, ainda está envolta em estigmas e mistérios. Por algum motivo genético ou ambiental, um conjunto de células do cérebro fica extremamente ativo, a ponto de tornar os sinais elétricos completamente desorganizados. Esse descompasso culmina muitas vezes em perda de memória e em convulsões.

“A epilepsia não é uma doença rara e tem inúmeros efeitos na vida das pessoas. Portanto, o paciente precisa saber que se trata de um problema elétrico no cérebro, passível de ser previsto, monitorado e tratado. Isso tira todo o mistério da doença que, para infelicidade dos pacientes, está envolta em ignorância e superstições”, disse o cientista australiano Mark Cook, professor da Universidade de Melbourne e diretor do Departamento de Neurologia do St. Vincents Hospital, na Austrália.

O pesquisador participou, em abril, do 6º Congresso do BRAINN, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O evento foi realizado pelo Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

Em sua palestra, Cook apresentou os novos dispositivos que, segundo ele, poderão dar maior qualidade de vida às pessoas com epilepsia no futuro. Ele também falou sobre os últimos resultados de suas pesquisas sobre padrões das convulsões em pacientes com a doença.

“Cada paciente tem um padrão específico, já provamos isso. Imagina então poder prever quando se terá um desses episódios? As pessoas poderiam se proteger, permanecendo em casa e acompanhadas, em vez de exercer alguma atividade de risco naquele dia específico”, disse Cook à Agência FAPESP.

Os novos dispositivos têm como objetivo principal antecipar a ocorrência de uma convulsão e estão sendo desenvolvidos pelo Bionics Institute, por meio de uma parceria entre a Universidade de Melbourne e o St. Vincents Hospital. O instituto conta com doações e fundos, como o recebido na edição do programa televisivo The Shark Tank Miami (Estados Unidos) – no qual Cook concorreu e ganhou, em uma edição especial sobre epilepsia realizada em 2015.

Predição

“Existem duas formas de detectar uma convulsão. Em uma delas, é possível ler o sinal cerebral e perceber a assinatura elétrica que ocorre antes de ela acontecer. Outra forma é monitorar as convulsões por um determinado período e identificar um padrão. Assim que esse padrão for estabelecido, a predição é muito precisa”, disse.

Para o primeiro caso, quando se detecta os sinais elétricos cerebrais, estão sendo desenvolvidos dispositivos implantáveis que fazem a entrega de medicamentos. Um deles, foi implantado há dois anos em uma paciente na Austrália, que tem respondido bem ao tratamento.

Os pesquisadores também estão desenvolvendo um equipamento com eletrodos implantáveis para aplicar tratamento de eletrochoque – outra forma, além de medicação e da cirurgia, de tratar a epilepsia –, mas ainda não há previsão de testes em humanos.

Já para monitorar as convulsões a fim de identificar padrões foram desenvolvidos aparelhos para serem inseridos sob o escalpo ou na região atrás da orelha (como os implantes cocleares para surdos).

“Percebemos que, se pudéssemos contar as convulsões de forma confiável, seria possível identificar padrões mensais, semanais ou diários de cada paciente. Isso daria mais segurança para os pacientes poderem exercer atividades cotidianas e evitaria constrangimentos”, disse.

Com base em bancos de dados abrangentes (dos aplicativos SeizureTracker e NeuroVista), Cook e sua equipe identificaram periodicidades marcantes entre uma convulsão e outra. De acordo com o estudo, mais de 80% dos pacientes apresentaram intervalos de um dia entre as convulsões. Observou-se também ciclos de uma semana ou de três semanas ou mais.

“A compreensão desses padrões pode trazer implicações significativas para o gerenciamento da vida das pessoas e a previsão de crises. Normalmente, pacientes são incentivados a escrever diários ou a usar aplicativos de celular para anotar as convulsões. No entanto, isso se mostrou muito impreciso, pois as convulsões podem causar perda de memória e inconsciência. Muitas vezes, o paciente não se dá conta de que teve um pequeno lapso”, disse.

Muito mais precisos que os diários, os dispositivos implantáveis podem ser usados por um longo período, possibilitando cruzar informações com condições externas que podem estar relacionadas com as convulsões, como temperatura, umidade do ar ou ainda condições de estresse, alimentação e medicamentos. Os testes clínicos para esse dispositivo devem iniciar no segundo semestre de 2019.

De acordo com Cook, todos os aparelhos foram desenhados para o estudo de casos de epilepsia, mas poderiam ser também usados para outras condições, como o controle de açúcar no sangue de diabéticos, por exemplo.

O maior desafio desses pesquisadores que querem empreender é desenvolver boa visão de negócio, afirma Mariana Zanatta, gerente da Incamp (Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp).

"Passamos a oferecer palestras sobre finanças, vendas e marketing, em parceria com o Sebrae, além de mentoria e encontros com investidores e empresas incubadas", diz.

A meta do programa, segundo Mariana, é que a universidade vá além de suas funções tradicionais de ensino e pesquisa e gere emprego, renda e tecnologia.

A doutora em biologia molecular Soraia El Khatib, 48, mira o bilionário mercado de cosméticos, que movimentou 200 bilhões de euros (R$ 874 bilhões) em 2018, segundo dados da LOréal.

Sua empresa, S Cosméticos do Bem, termina no final de 2019 o terceiro e último ano de incubação na Unicamp após desenvolver produtos como um repelente de artemísia, sustentável e de baixa toxicidade.

"Temos o know-how para desenvolver a tecnologia, mas o custo é alto. Estamos conversando com gigantes do setor farmacêutico para colocar o produto no mercado, primeiro distribuindo para clínicas e dermatologistas", afirma.

Seu maior problema foi perder bons pesquisadores, frustrados com o ambiente incerto do empreendedorismo.

"Nem todo mundo tem o preparo emocional necessário. É preciso convencer as pessoas o tempo todo que podemos sim chegar a algum lugar. Muitos desistem", diz.

Encontrar um time resiliente e que trabalhe bem no dia a dia é a parte mais difícil, mas mais importante para as startups que querem ganhar mercado depois da incubação, afirma Risola, do Cietec.

"Aqui, temos mão de obra farta e capacitada. E o que o empreendedor precisa é de gente boa, que fica mesmo nas fases difíceis e sabe trabalhar no risco."

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