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FAPEAM - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas

Discurso sobre o sonho pode ajudar no diagnóstico de doenças mentais

Publicado em 18 março 2014

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP

18/03/2014– A pista dada por Sigmund Freud (1856-1939) no livro “A intepretação dos sonhos”, de 1899, de que “os sonhos são a estrada real para o inconsciente”, chave para a Psicanálise, também pode ser útil na Psiquiatria, no diagnóstico clínico de transtornos mentais, como a esquizofrenia e a bipolaridade, entre outras.

A constatação é de um grupo de pesquisadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em colaboração com colegas do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Neuromat) – um dos CEPIDs da FAPESP.

Eles desenvolveram uma técnica de análise matemática de relatos de sonhos que poderá, no futuro, auxiliar no diagnóstico de psicoses.

A técnica foi descrita em um artigo publicado em janeiro na Scientific Reports, revista de acesso aberto do grupo Nature.

“A ideia é que a técnica, relativamente simples e barata, seja utilizada como ferramenta para auxiliar os psiquiatras no diagnóstico clínico de pacientes com transtornos mentais de forma mais precisa”, disse Mauro Copelli, professor da UFPE e um dos autores do estudo.

De acordo com Copelli, apesar dos esforços seculares para aumentar a precisão da classificação dos transtornos mentais, o atual método de diagnóstico de psicoses tem sido duramente criticado.

Isso porque ele ainda peca pela falta de objetividade e pelo fato de a maioria dos transtornos mentais não contar com biomarcadores (indicadores biométricos) capazes de auxiliar os psiquiatras a diagnosticá-los com maior exatidão.

Além disso, pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar muitas vezes apresentam sintomas psicóticos comuns, como alucinações, delírios, hiperatividade e comportamento agressivo – o que pode comprometer a precisão do diagnóstico.

“O diagnóstico dos sintomas psicóticos é altamente subjetivo”, afirmou Copelli. “Por isso mesmo, a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais [publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013] foi muito atacada”, avaliou.

A fim de desenvolver um método quantitativo para avaliar sintomas psiquiátricos, os pesquisadores gravaram, com o consentimento dos envolvidos, os relatos dos sonhos de 60 pacientes voluntários, atendidos no ambulatório de psiquiatria de um hospital público em Natal (RN).

Alguns dos pacientes já tinham recebido o diagnóstico de esquizofrenia, outros de bipolaridade e os demais, que formaram o grupo de controle, não apresentavam sintomas de transtornos mentais.

Os relatos dos sonhos dos pacientes, feitos à psiquiatra Natália Bezerra Mota, doutoranda na UFRN e primeira autora do estudo, foram transcritos.

As frases dos discursos dos pacientes foram transformadas por um software desenvolvido por pesquisadores do Instituto do Cérebro em grafos – estruturas matemáticas similares a diagramas nas quais cada palavra dita pelo paciente foi representada por um ponto ou nó, como o feito em uma linha de crochê.

Ao analisar os grafos dos relatos dos sonhos dos três grupos de pacientes os pesquisadores observaram que há diferenças muito claras entre eles.

O tamanho, em termos de quantidade de arestas ou links, e a conectividade (relação) entre os nós dos grafos dos pacientes diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade ou sem transtornos mentais apresentaram variações, afirmaram os pesquisadores.

“Os pacientes com esquizofrenia, por exemplo, fazem relatos que, quando representados por grafos, possuem menos ligações do que os demais grupos de pacientes”, disse Mota.

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Fonte : Agência FAPESP