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Discurso do presidente da ABC, Eduardo Moacir Krieger

Publicado em 15 junho 2000

Criada há 84 anos, a ABC vem promovendo a Ciência no país e servindo de referencial de qualidade da Ciência Brasileira. A cerimônia de hoje é das mais significativas, porque a Academia cumpre uma de suas funções maiores: a de reconhecer e premiar o mérito, elegendo os cientistas destacados que irão reforçar os seus quadros, e assegurar a continuidade de suas ações. É também, uma sessão histórica porque, pela primeira vez, são incorporados à Academia cientistas das Ciências da Saúde, Agrárias e Humanas, que somados aos cientistas recentemente eleitos das Ciências da Engenharia e aos cientistas das nossas áreas tradicionais: Matemática, Física, Química, da Terra, Biológicas e Biomédicas, completam a representação do todo do saber em nossa Casa. Essa ampliação era indispensável porque uma das características da Ciência em nossos dias é a interdisciplinaridade, e a vocação maior das Academias de Ciências no mundo atual é colaborar com os governos e a sociedade nos grandes desafios, onde Ciência e Tecnologia são instrumentos indispensáveis. Ai a abordagem multidisciplinar é a regra e a dimensão humana essencial. Cada vez mais, o domínio e o uso do Conhecimento são considerados pelos paises como fatores indispensáveis para assegurar a competitividade internacional e a melhoria das condições de vida de seu povo. São os paises que produzem mais conhecimento aqueles que também produzem os produtos mais competitivos, e dominam os mercados internacionais. Aos paises em desenvolvimento, não há outra alternativa senão a de criar uma massa critica de cientistas que lhes possibilitem melhorar e modernizar a Educação, em todos os níveis, dando embasamento científico à formação dos profissionais de diferentes áreas, e fornecendo a todos os cidadãos o mínimo de conhecimento científico e tecnológico para que entendam e utilizem adequadamente os avanços científicos, geralmente oriundos de uns poucos paises industrializados. Pode-se afiançar com segurança que em nosso país existe uma base científica ainda limitada em tamanho, mas muito sólida, criada nos últimos cinqüenta anos e que pode ser facilmente aquilatada pela produção científica, que cresce anualmente, e pela formação de novos doutores, que atinge quase cinco mil por ano. Essa base científica é que permitirá alcançarmos, em futuro bem próximo, novos patamares de desenvolvimento socioeconômico, pela ação conjunta do governo, da comunidade científica e tecnológica e do setor privado. Exemplo de que quando se tem ciência é possível aplicar ciência foi dado recentemente em SP, com o mapeamento do genoma da Xylella fastidiosa, primeiro fitopatógeno no mundo a ter o seu genoma seqüenciado. A Xylella ataca os laranjais causando enormes prejuízos. Os investimentos feitos nos grupos de pesquisa paulistas, especialmente nas Universidades Publicas, pelo Governo do Estado, pelas agencias federais, e pela Fapesp de modo continuo nos últimos trinta anos, criaram uma competência científica que pode ser mobilizada rapidamente para responder aos desafios tecnológicos. Isso pode e deve ocorrer mais generalizadamente em nosso país, especialmente se o sistema federal contar com maiores recursos, liberados regularmente para pesquisa. A criação recente dos fundos setoriais de pesquisa é de extraordinária importância nessa direção. Tal iniciativa partiu de uma decisão do presidente da Republica, ao determinar ao MCT e ao MEC a formulação de projetos de lei criando esses fundos para C&T, com caráter permanente, isto é, sustentáveis ao longo do tempo. Isso foi feito em tempo recorde por estes Ministérios. Encaminhados ao Congresso Nacional, foram prontamente apoiados pelos lideres de todos os partidos políticos, sendo aprovados em um período de menos de um mês, fato inédito nos anais daquela casa. Também devemos contar com uma participação mais efetiva dos estados nas atividades de C&T, particularmente pelo funcionamento das Fundações de Amparo à Pesquisa. É indispensável ressaltar e agradecer o excelente desempenho do senhor Ministro Sardenberg e sua equipe na recente aprovação dos fundos. Devemos enfatizar novamente que a Ciência Brasileira é de boa qualidade, mas deve se expandir muito para beneficiar a todas as regiões do país. Também, dentro de uma mesma região, há enormes discrepâncias que devem ser vencidas entre a ciência que, em grau maior ou menor, é praticada nas Universidades Publicas, e a quase nenhuma ciência existente nas Universidades Privadas, salvo as exceções conhecidas. A Academia e os seus membros tem participado, mas necessitam envolver-se muito mais na busca de soluções para as dificuldades que afligem a Universidade Brasileira: Que Universidades temos? Como implantar e assegurar a pesquisa em todas elas, inclusive com o aproveitamento dos doutores que estamos formando em grande numero? Que tipo de Universidade precisamos ter para, com qualidade, isto é, praticando a pesquisa, duplicar ou mesmo triplicar o numero de alunos que o país necessita a curto prazo? Ter Universidade com qualidade é condição essencial para um país construir um sistema de C&T eficiente. Ai e que se cria grande parte do conhecimento e se preserva a cultura. E é ai, com exclusividade, que se formam os recursos humanos qualificados, responsáveis maiores pelo desenvolvimento das nações no mundo de hoje. A participação da nossa Academia no sistema de C&T nacional e cada vez mais intensa em colegiados, comissões e através de estudos e projetos, tanto na esfera federal como na estadual. Alem de nossa tradicional atuação em SP e no RJ, onde temos nossa sede, inauguramos no ultimo ano escritórios da Academia no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco. Queremos agradecer ao senhor ministro da C&T, Ronaldo Sardenberg, ao Secretario Executivo, Carlos Pacheco, aos diretores do MCT, João Evangelista Steiner, Esper Abrão Cavalheiro, Vanda Regina Scartezini e Antonio Fragomeni, ao presidente do CNPq Evandro Mirra e ao presidente da Finep Mauro Marcondes, a forma fidalga como sempre somos tratados e a colaboração nas parcerias que estamos desenvolvendo, em beneficio do país. No RJ, devemos destacar e agradecer o apoio que estamos recebendo do governador Anthony Garotinho, do secretario de C&T, Wanderley de Sousa, e do diretor superintendente da Fundação de Amparo à Pesquisa Carlos Chagas Filho Antonio Celso Alves Pereira. Nossa interação com a SBPC, na defesa dos altos interesses da C&T nacionais é sempre fecunda e fraterna. É um prazer contarmos com professor Marco Antonio Raupp, vice-presidente da SBPC, prestigiando nesta noite a nossa solenidade maior. No plano internacional, nossa Academia vem participando ativamente dos esforços que fazem as Academias de Ciência do mundo para que a Ciência, e os benefícios que dela se originam, sejam partilhados por toda a humanidade e não apenas por aqueles que vivem nos paises industrializados, Também, para que os recursos naturais sejam utilizados sem degradar o meio-ambiente, preservando-o para as gerações futuras. Na Declaração da Conferencia das Academias de Ciência do mundo, realizada em Tóquio no mês passado, assinada por nossa Academia, reconhecemos que os principais desafios da transição para a sustentabilidade no século XXI são: a fome a pobreza; as alterações climáticas; a deterioração ambiental e as desigualdades econômicas. Para enfrentar esses desafios, as Academias se propõem a trabalharem juntas visando: 1) Que o acesso e o uso do Conhecimento sejam estendidos a toda a humanidade. Para tanto, propoe-se: melhorar a educação pela ciência; fortalecer a capacidade de cada país em C&T; construir uma rede internacional de informação e expandir a contribuição das Academias no seu papel de consultoras e assessoras dos governos e da sociedade. 2) Acelerar a criação de novos conhecimentos. Para tanto, propoe-se: aumentar o investimento em ciência básica; integrar as instituições locais nacionais e internacionais em um eficiente sistema de pesquisa; integrar os governos, as comunidades de C&T e os setores privados em sistemas nacionais de C&T e integrar o conhecimento disciplinar em um conhecimento interdisciplinar, no estudo dos grandes temas. 3) Finalmente, aplicar os valores da comunidade de C&T na construção da sustentabilidade Deve ser ressaltado que a contribuição da Ciência Brasileira para a Conferencia de Tóquio, documentada em um alentado volume, foi muito apreciada. A participação dos cientistas brasileiros, particularmente dos membros desta casa, em reuniões e organizações de ciência internacionais, e a seriedade e eficiência que a nossa Academia vem demonstrando no desenvolvimento de programas acordados entre as Academias, pesaram para que fossemos escolhidos, juntamente com a Academia da Franca, para presidir a Confederação das Academias de Ciências, nos próximos três anos. Também, a nossa Academia organizará no Brasil, em 2002, a Assembléia Geral do ICSU, a entidade mais importante na coordenação internacional da Ciência, integrada pelas Academias como representante de cada país, alem das 23 reuniões das diferentes áreas do Conhecimento. São todas excelentes oportunidades para promover cada vez mais a Ciência Brasileira no exterior, e para buscar as cooperações e parcerias com a comunidade científica internacional, visando acelerar o desenvolvimento do país. Recebemos de nossos maiores, uma Academia seria e digna que sempre pautou sua conduta na defesa dos postulados da Ciência, buscando o rigor e a excelência científicas, sempre preocupada com a ética que deve presidir o trabalho dos cientistas. Esses valores continuarão embasando as nossas ações nessa hora em que a Academia e o seus membros são convocados a participar mais ativamente da vida nacional, educando, criando mais conhecimento e colaborando para que os avanços científicos e tecnológicos também beneficiem o nosso país, melhorando a qualidade de vida da nossa gente e diminuindo as desigualdades sociais. Esse é o compromisso de todos nos, os que estamos há mais tempo na Casa, e os novos acadêmicos que hoje festivamente recebemos.