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Diretor da Fiesp propõe que Brasil seja base para lançadores de satélites do Japão

Publicado em 22 fevereiro 2016

Por Katya Manira e Graciliano Toni

José Augusto Corrêa, diretor titular adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex) apresentou nesta segunda-feira (22/2) uma proposta surpreendente durante o seminário Intercâmbio Brasil-Japão em Perspectiva. Corrêa sugeriu que o Japão faça no Brasil o lançamento de seus foguetes de transporte de satélites. É um acordo em que todos ganham, disse, lembrando que a enorme extensão (3.000 km) de território na linha do Equador torna o Brasil ótimo local para o lançamento. O Japão, com um dos programas aeroespaciais mais avançados do mundo, ganharia com o corte de custos. Ter base no Brasil permitiria ao Japão economizar 30% de combustível no lançamento, ou levar 30% mais carga, explicou Corrêa. Atualmente a China se encarrega do lançamento dos satélites brasileiros.

O seminário

Na abertura do evento, promovido pela Fiesp em parceria com o Centro de Estudos Nipo-Brasileiros e o Consulado Geral do Japão em São Paulo, o diretor titular do Derex, Thomaz Zanotto, destacou a importância de olhar para o Japão neste momento em que o Brasil está “numa fase clara de transição de um ciclo político econômico para outro”, uma vez que os nipônicos são conhecidos por sua visão a longo prazo e projetos que miram o futuro. O apoio japonês no início dos anos 80, ele diz, foi um exemplo dessa percepção aguçada. O Brasil estava sem reservas, com hiperinflação e mesmo assim empresas japonesas acreditaram no país, fazendo investimentos na mina de Carajás e no setor de papel e celulose.

“Isto é algo que falta ao Brasil: perspectiva de longo prazo. Quando vemos os projetos do Japão em que houve participação japonesa, são sempre projetos grandes e de sucesso”, lembrou Zanotto. “Não podemos mais pensar no máximo na próxima eleição ou no orçamento deste ano, apenas. Temos que pensar no longo prazo, e o Japão, nesse sentido, é um forte exemplo para nós.”

O presidente do Centro de Estudos Nipo-Brasileiro, Shozo Motoyama, também falou sobre parcerias passadas de sucesso, como por exemplo o aproveitamento do cerrado para a extração de celulose. “Temos muito que aprender com esse passado, que deve servir de inspiração para os novos. E chamo a atenção para as duas variáveis que devem ser pensadas: cooperação técnico científica e o fortalecimento da comunidade nikkei. Tenho certeza que as discussões tratadas nesse seminário dignificarão nosso passado e inspirarão nosso futuro.”

Já o cônsul geral do Japão no Brasil, Takahiro Nakamae, lembrou que a visita do primeiro-ministro de seu país ao Brasil, em 2014, foi de extrema importância para as relações bilaterais. Nessa mesma visita, ambos os países acordaram uma estratégia global de posicionamento na questão do clima, por exemplo, além de concordarem em impulsionar alguns setores específicos, como agrícola, infraestrutura, saúde e capacitação em recursos humanos. “Já na área econômica, assinamos o memorando de facilitação de visto de múltiplas entradas para curta permanência, estamos preparando a instalação da Japan House em São Paulo e esperamos contribuir cada vez mais.”

Brasil e Japão na COP 21

Abrindo o primeiro painel do seminário, “COP 21 e Cooperação Nipo-Brasileira em Meio-Ambiente, o presidente do Tribunal de Contas do Município de São Paulo, Edson Emanoel Simões, ressaltou que os dois países possuem vários aspectos que se complementam. “O Japão é a terra da tecnologia avançada, dos computadores. Já o Brasil dispõe de recursos naturais em abundância, criatividade e expertise inovadora para soluções cotidianas. Por isso acredito que a parceria [bilateral] seria exitosa em todos os temas.”

Por sua vez, o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Goldemberg, fez um relato histórico da participação de ambas as nações em diversas edições da Conferência do Clima (COP).

“O Brasil representa 2,6% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, o Japão 2,9%. No entanto, este segundo vem há tempos reduzindo suas emissões. Já a situação do Brasil é radicalmente diferente, as emissões estão crescendo”, compara. Contudo, ele acredita em uma cooperação mútua significativa nesta área entre os dois países.  “Podemos contribuir fazendo com que eles [japoneses] reconheçam a utilização dos biocombustíveis e eles podem nos auxiliar ensinando às industrias a operarem, efetivamente, com maior eficiência energética.”

Mundo em mudança

No segundo painel do seminário, José Augusto Corrêa, diretor titular adjunto do Derex, destacou a transformação das relações internacionais. “Existe uma mudança completa, que inclui o ambiente de comércio internacional. É como se estivéssemos jogando futebol e, de repente, dissessem que agora se pode jogar com as mãos. Temos que mudar”, disse, para ressaltar a importância do Tratado Transpacífico (TPP na sigla em inglês), que une EUA e Japão.”

Corrêa lembrou que a Fiesp defende a análise de se integrar ao acordo, que deve ditar o padrão dos futuros pactos norte-americanos. E está em gestação o Tratado Transatlântico (TPIP), que vai incluir Estados Unidos e União Europeia, no que pode ser o maior acordo de livre comércio do mundo. “Ou a gente negocia agora, ou no futuro só vamos poder aderir.”

Paulo Eduardo Rocha Brant, diretor presidente da Cenibra -Celulose Nipo-Brasileira S/A, disse que uma das faces mais funestas da crise atual do país é o seu quase isolamento do ponto de vista das relações econômicas internacionais. “Infelizmente o Brasil está ficando à margem” da atual revolução tecnológica.

A Cenibra completou 40 anos em 2013 e atualmente tem capital 100% japonês. Trabalha a 101% da capacidade de produção e planeja expansão, tendo como maior entrave um decreto do Governo Federal que obriga à criação de um projeto a ser enviado ao Incra para cada fazenda que quiser comprar. Brant diz que depois de um ano de envio do primeiro projeto, a Cenibra não teve resposta. Para dobrar a produção, a Cenibra precisaria de 100.000 hectares a mais de florestas plantadas. Isso, ressaltou , para viabilizar um investimento de US$ 3 bilhões em área em que Brasil é muito competitivo, graças a, entre outras coisas, “ciência da boa”.

Frisou a enorme complementariedade entre Brasil e Japão. O Japão poupa mais do que investe, porque já tem infraestrutura pronta, ao passo que o Brasil ainda precisa de muita coisa. “Trabalhar no aprofundamento e na ampliação das relações entre os dois países é crucial.” Disse que a Cenibra e seus acionistas estão muito satisfeitos com a parceria com o Brasil. “Queremos ampliá-la, se deixarem.” A declaração foi comemorada por Ruy Martins Altenfelder Silva, presidente do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp (Consea), coordenador da mesa redonda. Ele convidou Brant a participar do grupo da Fiesp dedicado às discussões sobre remoção dos entraves ao investimento.

Passado e futuro

Akihiro Ikeda, que foi presidente da Alunorte (1977-1978), citou o modelo, com incentivos fiscais e parceria com o governo, que permitiu por exemplo o surgimento da Cenibra. Exibiu gráfico que mostra a evolução da corrente de comércio entre Brasil e Japão em relação ao comércio mundial do Brasil, que teve pico entre 1971 e 1975 (8,3%). “Murchou, não é desprezível, mas caiu para 3,1%” entre 2011 e 2015. Explicou que o Japão estava em expansão na década de 79, e o Brasil precisava exportar. Foram criadas condições (inclusive a implantação de indústrias) para o comércio. Crises posteriores, no Brasil e no Japão, prejudicaram o fluxo. Além de fábricas de celulose e alumínio, a agricultura do cerrado ficou como herança da época, frisou.

Nos investimentos, o pico ocorreu entre 71 e 80 (11,4% do capital estrangeiro no Brasil era japonês). Depois de cair a 0,9% entre 91 e 2000, chegou a 6,5% entre 2011 e 2014.

“E agora?”, perguntou. O Japão tem sérios problemas, como o demográfico, que limita a demanda e lhe tira a energia para o futuro. O Brasil deve sair da crise em talvez dois anos, mas depois tem baixa chance de crescer mais que 3% ao ano. Também começa a enfrentar problema demográfico. Não se sustenta crescimento baseado apenas em aumento da produtividade da mão de obra. O Brasil tem mercado, com 200 milhões de pessoas, com demanda em transformação, e o Japão tem tecnologia. Há espaço para aumentar muito as trocas.

Akira Homma, assessor científico e tecnológico sênior da Bio-Manguinhos/Fundação Oswaldo Cruz, ressaltou a interação de longa data na área biomédica entre Brasil e Japão. Destacou memorando de cooperação entre Brasil e Japão assinado em agosto de 2014, com foco em populações em envelhecimento, estímulo à qualidade de vida e prevenção de doenças.

Apesar de seu avançado sistema de saúde, o Japão tem alta incidência de doenças imunopreveníveis – e até “exporta” vírus. Homma apresentou proposta de intercâmbio entre Brasil e Japão na prevenção de doenças. O Brasil usaria o conhecimento acumulado com o Programa Nacional de Imunizações (PNI), e o Japão forneceria expertise na medicina preventiva e assistencial. Outra área de grande potencial é a capacitação científica e tecnológica em vacinas, em que o Japão é forte, e o Brasil ainda tem carência. O intercâmbio na área de produção de vacinas traria ganho no desenvolvimento comum de vacinas – por exemplo, contra dengue, zika e chikungunya.

Ao encerrar o painel, Ruy Altenfelder destacou entre os objetivos do seminário a revisão do sucesso dos projetos conjuntos, para, com base naqueles bem-sucedidos, pensar no futuro. Creditou à tecnologia trazida pelo Japão parte do sucesso no cerrado. Entre os desafios atuais, mencionou as doenças viróticas e o aedes aegypti. Também citou a complementariedade entre os cientistas japoneses e os brasileiros como algo a ser seriamente considerado em relação ao Sistema Único de Saúde.

Agência Indusnet Fiesp