Notícia

Gazeta Mercantil

Diploma universitário pela TV a cabo

Publicado em 16 junho 1995

Por por Mark Robichaux - do The Wall Street Journal
Glenn Jones está sentado ao piano no seu cavernoso escritório com vista para as montanhas Rochosas e fazendo improvisações musicais, embora não saiba ler uma única nota de música. Numa parede, ele mantém a lareira acesa porque alega que nunca esteve verdadeiramente aquecido desde o dia, em 1965, em que decidiu provar que podia passar uma hora inteira mergulhando em águas com temperatura abaixo de zero grau durante um exercício da Marinha. Nas prateleiras da estante estão grandes obras da literatura e volume de sua própria poesia, incluindo obras como God and the S.E.C. ("Deus e a Comissão de Valores Mobiliários") e Dragon Dreams ("Sonhos de Dragão''). A maioria das pessoas nunca ouviu falar de Jones, exceto os que estão no setor de TV a cabo, que o conhecem como um excêntrico. Mas suas ambições são enormes: ele tem a intenção de controlar o futuro da televisão educativa nos Estados Unidos. Jones já construiu a sétima maior operadora de TV a cabo do país, a Jones Intercable Inc., com mais de 1 milhão de assinantes em 23 estados. Também montou uma rede de curso universitário televisionado disponível em 26 milhões de lares, que ele denomina grandiosamente de "Universidade de Extensão da Mente". Assistindo a um número suficiente dessas aulas, a pessoa consegue obter diploma da Universidade George Washington, da Universidade do Estado de Kansas ou de nove outras universidades. Ele está agora examinando uma proposta para assumir a administração do Sistema de Transmissão Pública, vez de apresentações de aulas. Ele injetou cerca de US$ 50 milhões em sua Universidade de Extensão da Mente e diz que os lucros ainda estão dois anos distantes. E está também provocando agitação no Congresso norte-americano. Depois que sua rede apresentou palestras de História por Newt Gingrich, três legisladores acusaram o presidente da Câmara dos Deputados de receber irregularmente o estimado valor de US$ 200 mil em horário livre da Jones Intercable. A Comissão de Ética da Câmara está examinando as queixas, que o republicano Gingrich e Jones classificam de políticas. Filho de um mineiro de carvão que quase não conseguiu chegar à universidade, Jones é um salvador improvável da educação. Ele é um homem ativo de 65 anos que toca gaita de foles para chamar os funcionários às reuniões da empresa. Ele controla as operações da empresa a partir de uma "sala de guerra" toda preta, que ele projetou detalhe por detalhe usando de modelo um cenário descrito na obra "Dune", um romance de ficção científica. Jones leu recentemente pela terceira vez Atlas Shrugged, de Ayn Rand, e consegue recitar passagens inteiras de "As lições da História", de Will e Ariel Durant. Quando não tem tempo de ler um livro, manda um funcionário fazê-lo por ele e lhe fornecer um resumo. Jones fala com metáforas militares e presenteia seus principais executivos com o livro A Book of Five Rings - uma estratégia de batalha escrita por um samurai do século 16 que matou mais de 60 oponentes. Pendurado na parede de quase todas as salas dos funcionários estão cartazes que dizem: "Atacar, atacar, sempre atacar!" Os dragões, de que ele se enamorou durante seus dias como jovem oficial naval no Japão, preenchem seu escritório: um dragão de "papier-machê" com mais de dois metros de altura está no subsolo do edifício. Todos os anos, Jones concede a maior honra na empresa - a Medalha Internacional Jones da Aliança a um associado'' (ele não usa a palavra "funcionário") que mostra grande imaginação. Jana Henthorn, uma gerente geral da Jones, descreve a cerimônia no ano passado quando foi a laureada: "Ele coloca uma medalha ao redor do seu pescoço e beija você nas duas bochechas e olha nos seus olhos. Depois diz 'você é uma matadora de dragão; os dragões nas cavernas tremem à sua aproximação'. Foi o ponto alto da minha carreira. O tempo todo tocavam gaitas de foles". ALICERCE DA DEMOCRACIA Jones, que considera sua Universidade de Extensão da Mente uma força populista para a automelhoria, está agora lançando-a em uma dezena de novos mercados, incluindo Tailândia, Brasil e Inglaterra. Ele está requerendo homologação para sua própria academia particular para conceder diplomas a telespectadores e, no futuro, quer ter cinco "universidades eletrônicas" que mostram suas aulas de TV no mundo. Ele afirma que a idéia para tudo isso lhe veio em uma manifestação divina durante uma visita ao Memorial do Vietnã em Washington em 1986. "Era um dia de outono muito bonito", lembra-se. "As pessoas estavam tocando nas paredes, e procurando nomes, e as pessoas estavam chorando. Literalmente eu não conseguia voltar para o automóvel. Então, de repente, uma folha de árvore caiu diretamente sobre minha testa. Um estalo Assim mesmo! A educação é o alicerce da democracia." Enquanto relata a história, ele abre a gaveta de sua escrivaninha e retira o que diz que é a própria folha. Hoje, 35 universidades e faculdades mantêm acordos para transmitir suas aulas pelo canal de TV de Jones. Onze universidades oferecem diplomas a qualquer um que assista a aulas suficientes e passe em exames escritos. O preço das aulas é de cerca de US$ 2,2 mil para um semestre com 12 créditos - quase o mesmo de muitas universidades particulares. Os estudantes pagam as mensalidades diretamente à empresa de Jones, que as divide com as universidades. Os cursos por cabo fornecem a conveniência e o acesso a programas que algumas pessoas não conseguem atingir de outra maneira. As aulas de Jones permitiram a Janet Smith Clayton, de 40 anos, mãe de três crianças, obter um diploma de mestrado em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade George Washington, que fica a cerca de 720 quilômetros de sua residência em Sumter, Carolina do Sul. Ela acompanhou as aulas pela TV à noite e conversou com professores e colegas de aula via computador. A experiência "foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida", garante. "Caso contrário, eu não teria conseguido diploma algum." Entretanto, esses casos de sucesso continuam raros. Só um pequeno número de espectadores da Universidade de Extensão da Mente - cerca de 3,5 mil a 4 mil por semestre - se insere vem de fato para obter os créditos universitários. Poucos chegam à conclusão do curso; a universidade televisionada espera conceder neste fim de semestre seu centésimo diploma através de seu programa. "Conselhos práticos" Os educadores estão divididos sobre toda a idéia de universidade por televisão. "Se os educadores cruzam os braços e pensam que a vida continua na mesma, estamos em um mundo de sonhos'', afirma Philip Austin, reitor do sistema da Universidade de Alabama, cujas faculdades são ligadas via televisão. Mas na Universidade do Estado do Colorado, a primeira instituição a assinar acordo com Jones, os professores protestaram no ano passado contra o avanço sorrateiro da TV. Jones incentivou alguns professores a abandonar suas classes e dar aulas em estúdio de TV. Ele também queria que os professores fizessem um seminário de dois dias sobre como melhorar suas aparências diante da tela. "Estamos dando-lhes conselhos práticos", afirma Jones. "Tire seu protetor plástico do seu bolso. Use roupas leves no inverno. Não use brincos grandes. Eles, por sua vez, querem saber como ensinar, como se comunicar melhor. É mentalmente mais envolvente." Os dirigentes universitários resistiram e, em agosto passado, retiraram-se do empreendimento, alegando divergências filosóficas e regras para homologação de curso. Ficar diante da tela nunca é tão bom como ir à escola, sustentam algumas fontes. "Na classe, o grupo é dinâmico", comenta Mary Burgan, secretária geral da Associação Norte-americana de Professores Universitários. "Você aprende muito com as pessoas ao seu redor. Não pretendemos destruir a tecnologia, ferramentas e idéias novas. Mas não queremos que substituam os elementos fundamentais da educação." MÁGICO E AÇOUGUEIRO Sem se impSortar com tais opiniões, Jones tem mais projetos em andamento. No ano passado, recrutou o pioneiro da indústria de multimídia, Bernard Luskin, para dirigir uma nova divisão interativa que fornece instrução sobre computadores pessoais e CD-ROM. Luskin está fazendo preparativos para um teste de aulas por solicitação: com um clique no controle remoto, cursos gravados são enviados a um televisor do cliente e um texto complementar é enviado ao computador pessoal. Isso leva Jones a um mercado já congestionado, com rivais estabelecidos como a Simon & Schuster da Viacom Inc., que já lançou 65 CD-ROM educativos, e a Apollo Group Inc., de Phoenix, que oferece cursos universitários on-line. Enquanto isso, seu negócio base de TV por cabo está sob ataque crescente. Os analistas geralmente concordam que a Jones Intercable se encontra em mercados de grande expansão, e prevêem fluxo de caixa de dois dígitos no próximo ano. Mas a empresa enfrenta competição assustadora de empresas telefônicas, especialmente da Bell Atlantic Corp., que está lançando uma grande investida em Washington, um dos maiores mercados de Jones. Na defensiva, ele está investindo cerca de US$ 36 milhões na reformulação de seu sistema. A busca educacional de Jones é curiosa para um homem que cresceu trabalhando em siderúrgicas da Pensilvânia ocidental e prestando pouca atenção à escola. Ele recorda como uma manhã acordou e viu seu pai de pé à beira da cama, chutando de leve uma mala de viagem de papelão. Ele disse: "Chegou a hora de você ir para escola'', e então o mandou para Finley College, em Finley Ohio. Durante o curso, Jones trabalhou como assistente de mágico e como açougueiro. "Sonhava em se tornar dançarino, pagando por aulas de bale e de sapateado com o fornecimento" de carne aos professores comprada por ele com desconto de 20%. Depois da faculdade, alistou-se na Marinha. Disposto a se tornar mergulhador naval, o quase míope Jones diz que entrou às escondidas na enfermaria uma noite para memorizar as letras do quadro para exame de vista. Depois do serviço militar, conclusão do curso de direito e uma candidatura malsucedida para a Câmara dos Deputados, ele comprou seu primeiro sistema de TV a cabo em 1967 com US$ mil de entrada, parte da quantia, segundo ele, emprestada com a garantia de um automóvel Volkswagen. Hoje, suas posses incluem uma pequena empresa de produção de filmes, um serviço de criptografia eletrônica para transações bancárias e a maior rede de emissoras de rádio de música "country" dos Estados Unidos. E ele está tentando acrescentar Big Bird ao seu império: em meio às discussões no Congresso sobre a privatização da Public Broadcasting System (PBS) Jones está promovendo um plano para ele próprio gerir o sistema. AMPLIAR O SABER "Precisamos eliminar a propaganda política da programação e se tornar sério", afirma Jones, um dos executivos que desejam um papel na PBS. "Era um instrumento educativo - agora é concorrente da rede CBS." Enquanto ele marcha na sua cruzada educativa, Jones insiste em que as aulas televisionadas existem para ampliar, e não substituir as escolas. Ele ignora os que protestam contra a intromissão da TV no ensino. "Algumas dessas pessoas simplesmente não podem ser convertidas", comenta. "Já tivemos o problema com as tábuas dos mandamentos.''