Notícia

Jornal da Unesp

Dimensão cultural de um centro de pesquisa

Publicado em 01 setembro 2014

Por Oscar D’Ambrosio

Em agosto, Marcos Napolitano participou, no Centro de Documentação e Memória da Unesp (Cedem), do evento “A cultura e as artes no regime militar: 50 anos do golpe”. Essa participação foi mais um exemplo do relacionamento consistente que o professor de História do Brasil Independente da USP mantém com o Centro, cujo acervo ele já utilizou em diversas pesquisas. Atualmente, Napolitano é docente-orientador no Programa de História Social da USP e professor visitante do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL), da Universidade de Paris III. Atua também como assessor ad-hoc da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista no período do Brasil Republicano, desenvolve principalmente estudos sobre o regime militar e a história da cultura, com ênfase nas relações entre música popular e política. Possui, ainda, experiência na área das relações entre história e cinema e no uso do audiovisual no ensino.

Jornal Unesp: Qual é a sua relação com o Cedem?

Marcos Napolitano: Costumo dizer que os debates que ocorrem no Cedem são parte do calendário acadêmico e cultural de São Paulo. Têm relevância cultural, são de excelente qualidade e reúnem uma audiência significativa, com o auditório geralmente lotado. São ótimas experiências, das quais participei como público e como convidado. Como pesquisador, considero o Cedem uma referência em documentos de movimentos de esquerda e já tive a oportunidade de consultar cartazes, panfletos, relatórios e atas de reuniões, tendo inclusive utilizado material do Centro, em minha área, História da Cultura, em pesquisas sobre resistência cultural envolvendo movimentos sociais de esquerda.

JU: Qual foi a sua fala no evento realizado em agosto, ao tratar da cultura e das artes no regime militar?

Napolitano: Buscamos, na mesa, junto com os colegas Marcelo Ridenti, da Unicamp, e Rodrigo Czajka, da Unesp de Marília, enfocar a resistência cultural com várias abordagens. Tratase de um período que vem apresentando muitas revisões e complementos na historiografia recente. Isso ocorre não só pela abertura de arquivos, mas pela pluralidade de temas a serem trabalhados. Muito tem sido feito a partir dos anos 1990 sobre música, literatura, cinema e artes plásticas, mas é preciso ainda pesquisar mais a participação de intelectuais de direita no regime militar, assim como a relação entre artistas de esquerda e o mercado. Os artistas que estão fora dos cânones, além de Chico Buarque, Nara Leão ou Elis Regina, são trajetórias específicas que podem ser estudadas. Existe campo para adensar o que já foi dito, sem repetir o que já foi dito, mas realizando revisões críticas e novas abordagens.

JU: A cultura perdeu hoje o poder de mobilização que tinha há 50 anos?

Napolitano: Trata-se de um outro tipo de mobilização. A cultura perdeu o papel de mobilizar a classe média. Os estudantes eram os produtores de arte nos anos 1950 e 60. Hoje, eles são consumidores. Vive-se um outro momento histórico, com outra indústria cultural. A cultura mudou de lugar. Nas periferias, a juventude dá à cultura, via manifestações como hip-hop, rap e saraus literários, um papel central. Ela mudou de espaço e de bases estéticas. Não se pode esquecer que, sem uma atividade cultural intensa, a vida de um país fica medíocre.

JU: Quais são seus projetos mais recentes envolvendo a cultura e as artes?

Napolitano: Encerrei recentemente um projeto sobre o cinema dos anos 1950 em que trato do que denomino “chanchada comunista”, melodramas e musicais populares feitos por cineastas ligados ou simpatizantes ao Partido Comunista. Analiso três filmes: Tudo azul, de 1951, de Moacyr Fenelon; Agulha no palheiro, de 1952, de Alex Viany; e Rio Zona Norte, de 1957, de Nelson Pereira dos Santos. O desafio dessas obras era fazer filmes que agradassem ao público sem ser escapistas, incorporando o tom social do neorrealismo italiano. A questão era conciliar a temática da conscientização fazendo algo de gosto popular que funcionasse como diversão para as massas. O projeto, nesse fio da navalha, não deu certo e foi enterrado pelo Cinema Novo.

JU: Sem ser no cinema, essa ambiguidade deu certo?

Napolitano: Na Música Popular Brasileira, a MPB, foi possível atingir, com uma produção de conteúdo de esquerda, o mercado das classes populares. A arte de resistência venceu as barreiras do consumo, chegando às classes trabalhadoras. Acredito que o limite é dado muito mais pela estrutura do consumo num determinado período do que pela estrutura da obra em si mesma. A MPB foi, nos anos 1950 e 1960, um espaço de afirmação de uma crítica cultural e política, mas também, um mercado. Não era apenas resistência ou mera concessão ao bom gosto. Os festivais da canção foram momentos fulcrais dessa transformação. Não dá para concluir que o mercado matou a MPB ou que a MPB se vendeu ao mercado. O que ocorreu é que a MPB foi ganhando espaço estratégico no mercado.