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Dilma e Serra exaltam o álcool combustível e ignoram crise do setor

Publicado em 18 novembro 2008

Com o mesmo espírito do consagrado lema "O petróleo é nosso", a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o governador do Estado de São Paulo, José Serra, defenderam com unhas e dentes o álcool nacional, programa que foi criado em 1975 para o estímulo do consumo do combustível renovável no país. Com um discurso pró-etanol, os dois candidatos virtuais à presidência da República defenderam o uso do combustível no mercado internacional. De um lado, Dilma Rousseff ressaltou as vantagens do consumo do álcool combustível e da importância do produto no mercado interno. Com uma frota de cerca de 7 milhões de veículos flexfuel, o mercado de etanol representa quase metade do consumo de combustível no país.

"O etanol demanda 0,5% da área plantada no país, com 4,5 milhões de hectares", afirmou Dilma Rousseff em seu discurso, durante a abertura da Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, que teve início ontem em São Paulo. A ministra quis ressaltar a importância da cultura no país e que o avanço da cana não afeta a produção de alimentos. De fato, a cultura não ameaça a produção de grãos no país. No entanto, a área plantada com cana é quase 70% maior que o anunciado pela ministra: a cana ocupa quase 7,5 milhões de hectares no país.

O governador de São Paulo também não poupou elogios aos biocombustíveis, mas aproveitou para ressaltar os programas desenvolvidos pelo Estado para a cultura. Segundo Serra, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com a iniciativa privada deverá investir cerca de R$ 100 milhões em pesquisas em etanol nos próximos dois anos, sobretudo na área de álcool para uso das indústrias químicas.

Embora tenham ressaltado a importância do combustível renovável, tanto Serra quanto Dilma Rousseff nem sequer lembraram que o setor sucroalcooleiro passa por uma das piores crises de sua história. O índice de inadimplência das indústrias de base, que fornecem equipamentos para o setor, chega a 35%.

Segundo Dilma Rousseff, o setor será beneficiado pelo pacote de medidas de ajuda anunciado pelo governo federal de maior oferta dos leilões de ACC (Adiantamento de Crédito de Câmbio). Nas últimas semanas, os usineiros estiveram em Brasília pedindo um pacote de ajuda específico para o setor. As usinas estão altamente endividadas, como reflexo dos recentes projetos de expansão anunciados nos últimos três anos.

A ministra-chefe da Casa Civil afirmou ontem que o zoneamento da cana deverá ficar pronto nos próximos dias, mas que ainda depende de acertos de detalhes entre os Estados. O zoneamento agroecológico vai delimitar as áreas de expansão da cultura da cana-de-açúcar do país para evitar que os canaviais avancem em áreas de reservas ambientais. O zoneamento exclui os biomas da Amazônia e do Pantanal. O Estado de São Paulo anunciou recentemente seu próprio zoneamento, que exclui áreas, como o Vale do Ribeira. A concessão de licenças ambientais também está mais restrita e deverá passar por um crivo maior da Secretária do Meio Ambiente.