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Diário do Nordeste online

Dilemas da criação

Publicado em 04 setembro 2011

O dilema de um impasse: realidade e ficção. O jornalismo é uma atividade que se transformou para se adaptar ao sistema capitalista. A pressa a que os jornalistas estariam submetidos diariamente na realização da investigação dos acontecimentos e da criação textual seria condição para a falta de zelo e aprimoramento linguístico na feitura das notícias, daí a depreciação do exercício jornalístico na fala de grande parte dos "literatos". Segundo Medel, os processos de criação do jornalismo e da literatura têm seguido caminhos opostos.

O jornalismo estaria, de acordo com o autor, preso a insignificância de eventos cotidianos. Porém, os livros, contêm a essencialidade da vida. Manuel Rivas, escritor, poeta, ensaísta e jornalista galego, é citado por Medel, por acreditar, ao contrário de outros "literatos", que jornalismo e literatura são o mesmo ofício. (Texto VI)

As singularidades

Tanto o jornalismo quanto a literatura dispõem de suas próprias especificidades de estilos e técnicas que confluem, muitas vezes, quanto à temática e ao discurso. Roberto Nicolato vai dizer que as estratégias adquiridas pelo jornalismo (clareza, concisão e objetividade, por exemplo) são tentativas pretensiosas de fazer com que a atividade pareça um "espelho do mundo real" como se a "realidade pudesse se apresentar por si só sem a interferência do processo de escolha, dos pontos de vista, enfoques e hierarquias nas decisões editoriais".

O discurso literário estaria sujeito a muitas interpretações, ele é "indiferente ao entendimento, ao posso que o discurso jornalístico subordina tudo ao receptor, vive para ele numa transparência imediata", diz Helena de Sousa Freitas. O repórter tem que construir seu texto na forma mais direta e clara possíveis para que resulte numa interpretação uniforme dos fatos. Portanto, um texto jornalístico bem escrito é aquele que consegue mostrar a realidade sem transfigurações, ou seja, uma descrição superficial da atualidade, e encaminhe o leitor para a única interpretação possível (a visão do jornalismo) do fato noticiado.

Verdade e confiança. Se eu digo a verdade para o meu leitor, ele confiará no que eu estou informando. Este é o grande alicerce da atividade jornalística. A empresa de comunicação ou o jornalista que quebra a confiança de seu público não poderá mais exercer a função de informar à população pois sua credibilidade está abalada.

A gênese

Samuel Buckley, diretor do The Daily Courant, segundo Abreu (2006), o primeiro jornal de que se tem notícia no mundo tendo nascido em 1702, na Inglaterra, foi quem introduziu o conceito de objetividade no jornalismo: "o relato isento dos fatos, sem comentários; esses ficariam em um espaço específico do jornal. Só assim, segundo o diretor, o jornal ganharia credibilidade perante o público leitor".

A consciência ética, muito presente nos dias atuais, além de inibir jovens jornalistas a utilizarem técnicas literárias para aprimorar linguagem e texto, faz com que a preocupação em separar realidade da ficção leve a reflexões cada vez maiores. O pacto ético firmado pelo jornalismo com o público cuja natureza está nessa busca pela verdade "levou o jornalismo a trilhar o caminho de um discurso, diria, unívoco", afirma Nicolato. A problemática é que verdade e realidade talvez sejam inalcançáveis. O que é a verdade? O que é a realidade? Simplesmente não podemos definir, conceituar, medir, calcular e objetivizar uma realidade que está constantemente em processo de mudança. (Texto VII)

Verso e reverso

Em 1981, Gabriel García Márquez escreveu um artigo intitulado "Quem acredita em Janet Cooke?" sobre a repórter do jornal Washington Post que publicou, em 1980, a história sobre um menino de 8 anos de idade chamado Jimmy que, vítima do tráfico de drogas em Washington, tornou-se um viciado em heroína.

A reportagem, sob o título de "O mundo de Jimmy", apresentava descrições de como o menino injetava a droga na presença da mãe. Janet Cooke foi laureada com o prêmio Pulitzer, o mais importante prêmio de jornalismo nos Estados Unidos. A história, naturalmente, gerou muita comoção e polêmica. As pessoas começaram a pedir para a repórter que ela revelasse onde o menino Jimmy morava para que pudessem ajudá-lo. Cooke negava a informação alegando a necessidade de proteger suas fontes. Pelo que se sabe, a redação do Post desconfiou da matéria, pediu explicações para a jornalista e esta admitiu a mentira do relato. Resultado: devolveu o prêmio e foi demitida do jornal. (Texto VIII)

De acordo com a reportagem da jornalista estadunidense e as observações que García Márquez fez da dimensão humana e social do relato junto a recepção dos leitores do jornal onde foi publicada a história, cabe algumas perguntas: se a realidade é tão subjetiva não sendo possível captá-la por completo, o que faz, deste modo, tanto o jornalismo quanto a literatura construtores de realidades, por que existem opiniões tão contundentes querendo separar os dois gêneros?

Se o que Cooke escreveu corresponde à realidade da sociedade estadunidense (como prova os casos similares que os leitores afirmaram conhecer), por que a jornalista teve seu prêmio e emprego cassados e foi submetida à execração pública? Por que os jornalistas insistem em usar uma técnica de apuração e escrita ultrapassadas em nome de uma verdade inexistente?

Cooke inventou um personagem, mas em momento algum faltou com a verdade. Sua reportagem é verossímil dentro da realidade na qual aquela sociedade está inserida, pois é possível que casos iguais ao de Jimmy existam. Por falar em García Márquez, sua produção jornalística também foi contestada por críticos que viam suas reportagens e crônicas como uma distorção da realidade com "o propósito de oferecer aos leitores uma percepção irracional da realidade" (MCNERNEY apud HERSCOVITZ, 2004, p. 180).

Real e imaginário

O jornalismo mágico feito por García Márquez e outros jornalistas-escritores latino-americanos, mas, sobretudo Márquez, "rejeita a razão e descreve uma realidade quase sobrenatural, distanciando-se dos cânones jornalísticos que estabelecem a objetividade como ideal da profissão", afirma, incisivo, Herscovitz. Exemplos desse estilo estão na série de textos de García Márquez sobre o Chocó, a região mais isolada da Colômbia. Na reportagem "O Chocó ignorando pela Colômbia", publicada em 1954, no jornal El Espectador, García Márquez mostra o descaso das autoridades colombianas com a situação de abandono em que vive a população do Chocó. Sims (apud HERSCOVITZ, 2004), diz que o escritor fabricou uma mobilização popular na região contra a proposta do governo de dividir a área. (Texto IX)

Deste modo, García Márquez criou uma notícia que teve repercussão nacional escrevendo sobre a tragédia do Chocó e valorizando o aspecto humano da história.

O jornal que Márquez representava, o El Espectador, endossou a fabricação e, em várias colunas e editoriais, denunciou a precária situação do Chocó e de sua população.

O escritor, desse modo, quebrou inúmeras regras básicas do jornalismo como, por exemplo, os princípios de veracidade e exatidão.

TRECHOS

TEXTO VI

O jornalista é um escritor. Trabalha com as palavras. Busca comunicar uma história e o faz com vontade de estilo.[...]Quando têm valor, o jornalismo e a literatura servem para o descobrimento da outra verdade, do lado oculto, a partir da investigação e acompanhamento de acontecimento. Para o escritor jornalista ou o jornalista escritor a imaginação e a vontade de estilo são as asas que dão voo a esse valor. Seja uma manchete que é um poema, uma reportagem que é um conto, ou uma coluna que é fulgurante ensaio filosófico. Esse é o futuro. (RIVAS apud MEDEL, 2002, p. 19)

TEXTO VII

O mundo de verdade que dá significação ao texto é um mundo de ajustamentos dinâmicos, em contextos reais, com múltiplos sujeitos (todos interessados) e muitas verdades - verdades de quem escreve, de quem lê, de quem informa, de quem comenta, de quem fala, de quem ouve... [...] interpretação dá-se por acordos e conflitos, por compreensão e incompreensão, por rejeições e aceitações, por desconfianças e crenças.É em sua totalidade interpretativa que o jornalismo se realiza como espaço e processo cultural.

(CHAPARRO apud ABREU, 2006)

TEXTO VIII

... mais além da ética e da política, a audácia de Janet Cooke, mais uma vez, coloca as perguntas de sempre sobre jornalismo e literatura, que tanto jornalistas como escritores levamos adormecidas, mas sempre a ponto de despertar o coração. Devemos começar por perguntar-nos qual é a verdade essencial em seu relato (o de Janet). Para um novelista o mais importante não é saber se o pequeno Jimmy existe ou não, mas estabelecer se a sua natureza de fábula corresponde a uma realidade humana e social dentro da qual podia ter existido... Antes que se descobrira a farsa de Janet Cooke, vários leitores escreveram ao jornal dizendo que conheciam o pequeno Jimmy e muitos conheciam casos similares. Isso nos faz pensar... que o pequeno Jimmy não só existiu uma vez, mas muitas vezes ainda que não seja o mesmo que inventou Janet Cooke.

(GARCÍA MÁRQUEZ apud HERSCOVITZ, 2004, p. 192)

TEXTO IX

Como levei dois dias para chegar até lá e o fotógrafo se recusava a voltar sem fotos, decidimos de mútuo acordo com Primo Guerrero (o correspondente local) organizar uma demonstração popular que foi anunciada com tambores. No segundo dia, espalhamos a informação e no quarto dia chegou um exército de repórteres e fotógrafos em busca da multidão. Tive de explicar a eles que nesta cidade miserável todo mundo dormia, mas que tínhamos organizado um protesto popular enorme, e foi assim que o Chocó se salvou.

(GARCÍA MÁRQUEZ apud HERSCOVITZ, 2004, p. 182)

Saiba mais

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 1989

BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005

GRANJA, Lúcia. Machado de Assis, escritor em formação: à roda dos jornais. Campinas: Fapesp, 2000

MÁRQUEZ, Gabriel García. Textos caribenhos - obra jornalística I. Rio de Janeiro: Record, 2006

ROSSO, Mauro. Lima Barreto e Coelho Neto: um Fla-Flu literário. Rio de Janeiro: Difel, 2010