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Agência USP de Notícias

Dificuldade em entender método da Homeopatia é ponto de resistência para não-homeopatas

Publicado em 04 setembro 2006

Estudo identifica os aspectos que facilitam a aproximação entre a Homeopatia e as demais práticas médicas e quais a dificultam. Pesquisadora ouviu 48 profissionais de saúde não-homeopatas

Apesar de questionarem a cientificidade da Homeopatia, os profissionais de outras áreas da Medicina enxergam nela um resgate do caráter humanista da profissão. Enquanto as tradicionais consultas médicas vêm sendo reduzidas a um encontro cada vez mais breve entre médico e paciente, a Homeopatia valoriza esse contato.

De acordo com a médica homeopata Sandra Abrahão Chaim Salles, na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) as primeiras consultas duram cerca de uma hora. Para elaborar sua tese de doutorado, realizada no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina (FM) da USP, Sandra ouviu médicos de outras especialidades sobre a prática da Homeopatia.

Ela explica que, desde o seu reconhecimento como especialidade médica, em 1980, vem ocorrendo uma gradual aproximação entre a Homeopatia e as demais áreas da Medicina. Em maio deste ano, o ministro da Saúde lançou uma portaria recomendando a implantação e ampliação da Homeopatia no SUS.

"Minha idéia era conhecer as características dessa aproximação, identificando os aspectos considerados pelos entrevistados como fatores que a facilitam e aqueles que, ao contrário, indicam resistências ou oposições", afirma a pesquisadora, que concluiu seu estudo com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo ela, o que esses profissionais mais valorizam na Homeopatia é a prática de ouvir o paciente, dando espaço para que ele fale sobre seu processo de adoecimento. "A prática é valorizada também por sua abordagem integral das pessoas, em contraposição ao excesso de fragmentação promovido pela medicina das especialidades."

Afastamento

Entre os pontos de distanciamento entre a Homeopatia e as outras especialidades, ressalta Sandra, está a dificuldade de se entender o funcionamento da medicação homeopática. "O medicamento homeopático é ultradiluído e não é possível detectar quimicamente a presença do princípio ativo. Os entrevistados consideram a Homeopatia capaz de lidar com muitos sintomas com os quais as demais práticas têm dificuldades, como quadros recorrentes, alergias, doenças crônicas e psicossomáticas. Mas quando se trata de doenças mais graves - infecções, por exemplo - não se sentem seguros em relação à Homeopatia, pois não conhecem seus procedimentos."

Entretanto, é justamente o processo de ação ainda pouco conhecido do tratamento homeopático que atrai a atenção dos pesquisadores. Para alguns deles, a motivação para estudar a Homeopatia é o "desafio do novo". Os modelos tradicionais de pesquisa em Medicina, que geralmente atestam a eficácia de um medicamento a partir de testes realizados em um grande número de pessoas, não são válidos para a Homeopatia. "Para essa especialidade, a medicação deve ser ajustada às necessidades de cada paciente em particular. Por isso, é necessário um desenho diferente de estudos", destaca Sandra.

Isolamento

Alguns médicos reclamaram da "falta de retorno" dos homeopatas. "Muitos profissionais, após encaminharem pacientes para a Homeopatia, não recebem mais informações sobre o tratamento. Há uma visão de que os homeopatas são um grupo isolado. E, de fato, isso acontece. Cabe também aos homeopatas divulgarem mais suas práticas e procurarem um contato maior com os outros médicos", afirma a pesquisadora.

Sandra ouviu 48 profissionais de saúde (apenas dois não- médicos), sendo 16 gestores, 12 médicos que atendem pela rede pública em diferentes estados do País e 20 pesquisadores e docentes, de 11 faculdades de Medicina.

"Todos eles mantiveram algum contato profissional com a Homeopatia, orientando pesquisas nessa área, apoiando a implantação do ensino da especialidade em faculdades de medicina, encaminhando pacientes para tratamento homeopático ou apenas convivendo com sua presença em seu local de trabalho", esclarece a médica.