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Dieta com restrição de calorias podem evitar câncer em mulheres com obesidade?

Publicado em 20 novembro 2020

Por Úrsula Neves

Dieta com restrição de calorias pode induzir modificações bioquímicas no DNA de mulheres obesas capazes de reverter a propensão a certos tipos de câncer, indica estudo coordenado por pesquisadores brasileiros e espanhóis. O estudo foi publicado no European Journal of Clinical Nutrition.

O trabalho faz parte de um projeto que avalia em pacientes obesas submetidas a diferentes intervenções terapêuticas o padrão de metilação do DNA. Esse processo bioquímico pode alterar a expressão de alguns genes, fazendo com que o desenvolvimento de doenças seja incentivado ou inibido.

“Conseguimos mostrar que indivíduos com e sem obesidade têm um perfil diferente de metilação do DNA em alguns genes específicos e que isso pode ser modificado com a perda de peso. Dependendo da intervenção, as vias modificadas são diferentes e o padrão não necessariamente volta a ser o de um indivíduo com peso normal”, explica uma das autoras do estudo, Carolina Nicoletti, professora colaboradora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), em entrevista ao portal da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Como foi realizado o estudo

Onze voluntárias com obesidade grave e idades entre 21 e 50 anos foram avaliadas. Amostras de sangue antes e depois de uma intervenção dietética de seis semanas foram coletadas.

As pacientes, que ficaram internadas durante todo o período na Unidade Metabólica do Hospital das Clínicas da FMRP-USP, receberam uma dieta de 1.800 e 1.500 quilocalorias diárias no primeiro e segundo dia, respectivamente, e de 1.200 quilocalorias por dia no restante do período.

Uma equipe formada por médicos, enfermeiras e nutricionistas garantiu a adesão de todas as pacientes à dieta. Os níveis diários de atividade física que elas mantinham antes da intervenção não foram alterados.

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Redução de riscos

Após as seis semanas de intervenção, as voluntárias emagreceram 1,8%, o equivalente a um quilo por semana.

“Comparado com a cirurgia bariátrica, pode parecer pouco, mas é uma perda significativa. Quando se trata de uma pessoa de 150 quilos que precisa perder 50, é necessário levar em consideração que a mudança não vai acontecer em dois meses, mas provavelmente durante o ano inteiro”, diz Carolina Nicoletti.

O perfil de metilação foi medido com uma ferramenta capaz de avaliar simultaneamente 500 mil regiões do DNA. Foram comparados os padrões das mulheres obesas antes e depois da intervenção, além de um grupo controle, sem obesidade e da mesma faixa etária.

Antes da intervenção, todas as mulheres apresentaram diferenças em 1.342 regiões do genoma, presentes em 953 genes, sendo que mais de 80% das regiões estavam hipermetiladas no grupo sem obesidade.

Ao comparar a metilação do DNA das mulheres com obesidade antes e depois da intervenção foram observadas alterações em 16.064 regiões do genoma, localizadas em 9.236 genes. Os níveis de metilação foram reduzidos em 16% na maior parte das regiões analisadas. Genes como SULF2, GAL e SNORD2, envolvidos em alguns tipos de tumores, como de mama e colorretal, estavam 35% menos metilados após a intervenção.

“Encontramos muitos pro-oncogenes, genes relacionados ao desenvolvimento de câncer. Eles estavam menos metilados nos obesos, o que significa que têm uma expressão maior, favorecendo a formação de tumores. A modificação ocorrida após a intervenção dietética sugere a diminuição dos riscos da ocorrência de câncer nessas pessoas”, explica Carolina Nicoletti.

Apesar da melhora, o estudo ressalta que a intervenção não igualou o padrão de metilação das mulheres dos dois grupos. No entanto, a continuidade na perda de peso poderia levar a isso.

A pesquisa vai continuar com o grupo de pesquisadores analisando dados de metilação de DNA em pacientes submetidas à cirurgia bariátrica e exercícios físicos.

Segundo os autores do estudo, a continuidade da investigação científica tende a contribuir para o entendimento da obesidade, do câncer e da relação entre os dois.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Autora:

Úrsula Neves

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá (UNESA), pós-graduada em Comunicação com o Mercado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e em Gestão Estratégica da Comunicação pelo Instituto de Gestão e Comunicação (IGEC/FACHA)

Referências bibliográficas:

https://agencia.fapesp.br/dieta-com-restricao-de-calorias-induz-alteracoes-beneficas-no-dna-de-mulheres-obesas/33969/

www.nature.com/articles/s41430-020-0660-1