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Diáspora há 2,5 milhões de anos

Publicado em 20 agosto 2019

Por Marcos Pivetta, da revista Pesquisa FAPESP

Um grupo de arqueólogos e geólogos de universidades brasileiras afirma ter descoberto os mais antigos indícios da saída de hominídeos da África, considerada o berço da humanidade. As camadas geológicas em que foram encontrados seixos lascados e lascas, oriundos de escavações feitas entre 2013 e 2016 no vale do rio Zarqa, na Jordânia, foram datadas por três métodos distintos e atingiram a idade máxima de aproximadamente 2,5 milhões de anos.

Se os dados estiverem corretos, esses artefatos líticos teriam sido produzidos pelas mãos de humanos arcaicos pertencentes a populações de Homo habilis, a primeira espécie conhecida do gênero Homo, 400 mil anos antes do registro considerado até agora como o mais antigo da presença de hominídeos fora do continente africano.

“Nosso estudo muda a história da humanidade em quase meio milhão de anos”, afirma o bioarqueólogo Walter Neves, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), coordenador da equipe que fez as pesquisas na Jordânia, com apoio da FAPESP.

A área do vale do rio Zarqa em que foram encontradas as pedras lascadas dista cerca de 40 quilômetros de Amã, a capital jordaniana, e hoje é circundada por projetos agrícolas e cidades. A datação e a caracterização das peças líticas da Jordânia, polêmicas como quase todas as descobertas que envolvem os primórdios do homem, foram publicadas on-line no periódico científico Quaternary Science Reviews.

Além de possivelmente retroceder no tempo a saída de humanos arcaicos da África, esses vestígios de pedra lascada também seriam um indício de que a primeira espécie de hominídeo a deixar o continente-mãe pode não ter sido o Homo erectus, hipótese mais aceita atualmente. Há 2,5 milhões, idade dos sítios de Zarqa, existia apenas uma espécie de hominídeo que trabalhava a pedra lascada, o Homo habilis, cujo nome deriva justamente da habilidade de ter sido o primeiro humano arcaico a talhar fragmentos de rocha. Por isso, Neves e seus colegas deduzem que essa espécie deve ter sido a autora dos artefatos de Zarqa. A presença de água na região, um atrativo para a vida, percebida por meio de indícios geológicos, remonta pelo menos ao período em que os seixos foram trabalhados.

Mais antiga espécie conhecida do gênero Homo, o H. habilis chegava a uma altura máxima de 1,4 metro (m) e o volume de seu cérebro era de cerca de 650 centímetros cúbicos (cm³), enquanto o de um chimpanzé varia entre 300 e 500 cm³. Mais desenvolvido, tendo surgido provavelmente por volta de 1,8 milhão de anos atrás na África, o H. erectus podia medir entre 1,60 e 1,80 m de altura e tinha um cérebro de pelo menos 850 cm³, volume próximo ao do homem moderno, o H. sapiens (de pelo menos 1.100 cm³).

Nas escavações na Jordânia, não foram identificados fósseis de ossadas de hominídeos, limitação que dificulta a confirmação da presença de populações de H. habilis na área durante a pré-história remota. Os pesquisadores acharam apenas vestígios de alguns animais que viveram, em diferentes períodos da pré-história, na região de Zarqa, como um mamute, um bovídeo auroque e restos de cavalo.

“É muito raro encontrar esqueletos humanos em sítios paleolíticos”, diz o arqueólogo italiano Fabio Parenti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), outro membro da equipe e coautor do trabalho. “Quando não temos ossos, falamos das pedras [lascadas pelo homem].”

Segundo os pesquisadores, os cerca de 2 mil artefatos líticos obtidos em Zarqa apresentam características inequívocas de terem sido feitos por mãos humanas e não de forma natural, debate que sempre surge quando são achadas novas evidências arqueológicas com potencial de “reescrever” a pré-história. “Fomos muito conservadores ao selecionar as peças para o estudo”, comenta Parenti.

Os seixos lascados e lascas obtidos em Zarqa seriam característicos da chamada indústria lítica Olduvaiense, muito primitiva e associada ao H. habilis, registrada na África há pelo menos 2,4 milhões de anos. Trata-se basicamente de seixos a partir dos quais são produzidas lascas. O que diferencia as peças dessa indústria é seu formato mais angular (os seixos de origem natural são mais arredondados), com cantos lascados em ângulos menores que 80 graus.

“Encontramos em um barranco de 120 metros que escavamos uma concentração anormal de artefatos de pedra”, diz o arqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, outro membro da equipe. “Os hominídeos não caçavam nessa época. Essas lascas deviam ser usadas para descascar carniça”, explica Neves.

Os pesquisadores exploraram os afloramentos que apareciam nas paredes dos terraços, cavando nos cortes verticais abertos no solo árido e compactado da região abertos por projetos agrícolas. “O solo é tão duro que usamos até uma britadeira nas escavações”, conta Araújo. Assim tiveram acesso ao conteúdo depositado nas camadas sobrepostas de sedimentos fluviais.

Leia a notícia completa em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/08/07/diaspora-ha-25-milhoes-de-anos/.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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