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Diáspora científica

Publicado em 26 julho 2021

Por Mozart Neves Ramos

"Falta ao Brasil uma política de engajamento científico envolvendo seus pesquisadores que vivem no exterior com a política nacional de ciência, tecnologia e inovação, cuja lacuna se amplia com a gradual perda de investimentos na área". Leia a opinião de Mozart Neves Ramos

Na literatura acadêmica, define-se como “diáspora científica” o movimento de pessoal altamente qualificado de um país para outro, atraído por boas oportunidades de trabalho ou tangido por crises políticas ou econômicas. Dados de 2011 da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicados pela revista Pesquisa Fapesp na edição 283 de 2019 revelam que Índia, China e Filipinas são protagonistas mundiais nesse processo de fluxo de talentos para centros avançados de pesquisas em países-membros da entidade, com 2 milhões, 1,6 milhão e 1,4 milhão de pesquisadores, respectivamente. E mais: eles enxergam isso não como perda de cérebros, mas como uma oportunidade para fomentar a colaboração científica e ajudar a sua indústria a ingressar nos mercados internacionais. Para isso, mantêm uma política de cooperação estreita com seus talentos erradicados no exterior. Por exemplo, o Ministério da Ciência e Tecnologia da Índia rotineiramente engaja talentos radicados no exterior em suas iniciativas, convocando-os a avaliar projetos de pesquisa e a supervisionar sua implementação.

Até mesmo o Chile – que, a exemplo do Brasil, tem um contingente relativamente baixo de talentos no exterior – se beneficiou da experiência deles; a criação de empresas de base tecnológica no país foi fortemente influenciada, desde o final dos anos 1990, pela participação de chilenos radicados nos Estados Unidos com conhecimento em ciência avançada e empreendedorismo.

Falta ao Brasil uma política de engajamento científico envolvendo seus pesquisadores que vivem no exterior com a política nacional de ciência, tecnologia e inovação, cuja lacuna se amplia com a gradual perda de investimentos na área. O Brasil tem ainda um dos mais baixos índices de cientistas por milhão de habitantes. Enquanto Argentina, Estados Unidos, Coreia do Sul e Israel têm, por exemplo, uma relação de 1.200, 3.900, 6.400 e 8.300, respectivamente, o Brasil tem apenas 700 pesquisadores por milhão de habitantes. Isso naturalmente tem um impacto relevante na competitividade de um país, como se pode ver no Ranking Mundial da Competitividade de 2019, produzido pelo Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF), que mede a capacidade dos países para competirem com outras economias – os países mais inovadores. A Alemanha ficou em primeiro lugar em inovação pelo segundo ano seguido. A pesquisa cita a vasta quantidade de patentes registradas no país – 290 por 1 milhão de habitantes –como um dos motivos. A Coreia do Sul é o segundo país asiático mais inovador.

Para diminuir a sensação ruim de que estamos ficando para trás, felizmente o Brasil conta com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que nos seus sessenta anos de existência se renova e avança no papel social de induzir pesquisas de ponta e disseminar conhecimentos para o progresso da ciência e para a melhora da qualidade do povo brasileiro. Além de contribuir de maneira decisiva para uma política robusta de ciência, tecnologia e inovação no Estado de São Paulo, a Fapesp também tem contribuído com todo o país mediante parcerias estratégicas com as fundações de apoio dos demais estados brasileiros. O papel estratégico da entidade neste momento difícil pelo qual o país vem passando foi muito bem retratado na matéria “Na pandemia, Fapesp vai de vacinas a pesquisa genômica”, de Hugo Passarelli, publicada pelo Valor Econômico de 16/07/2021. O futuro de um país se constrói com educação e ciência de boa qualidade.

Mozart Neves Ramos é membro do Conselho Superior da Fapesp e titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP – Ribeirão Preto.

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC