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Diário de uma repórter - O Memorial e eu

Publicado em 03 dezembro 2019

Por Maria Lúcia Zanelli

Em 2006, eu recebi uma pauta para desenvolver: o restauro do Memorial da América Latina. Meu editor, na época, Almyr Gajardoni, disse que eu tinha uma grande responsabilidade nas mãos. Confesso que fiquei com medo, mas, com a ajuda de meu marido, que é engenheiro, consegui entender o que aconteceria naquele lindo complexo. O resultado foi a matéria abaixo:

Quando Fernando Leça assumiu a presidência da Fundação do Memorial da América Latina, em março de 2005, descobriu que teria muito trabalho pela frente. Atrair mais público e fortalecer a presença da instituição no circuito turístico da cidade eram os principais desafios. Isso dependia, porém, de uma providência: os sete prédios que compõem o conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer precisavam de reparos urgentes.

Levantamento fotográfico indicou os principais pontos com problemas. Cerca de 400 fotografias foram analisadas pela Gerência Técnica do Memorial e por órgãos como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo.

O arquiteto Lúcio Gomes Machado, professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e especialista nas obras de Oscar Niemeyer, explica: “Alguns detalhes que constam da planta original não foram respeitados. Isso, aliado à falta de manutenção adequada, fez com que o complexo começasse a ter problemas nas mantas de impermeabilização que revestem os prédios”.

O arquiteto esclarece ainda que obras contemporâneas, mesmo as existentes no exterior, como as do francês Le Corbusier, apresentavam dificuldades idênticas. A razão é que esses conjuntos, apesar do traço arquitetônico avançado, utilizaram técnicas comuns da construção civil, e a falta de manutenção causa os problemas.

Visão panorâmica – O Pavilhão da Criatividade tinha fissuras, pelas quais entrava a água da chuva. O vazamento era tão grande que atingia parte do acervo de 2 mil peças de arte popular do Brasil, México, Peru, Equador, Guatemala e Bolívia, informa o engenheiro Joaquim da Silva Boaventura, da Gerência Técnica da Fundação Memorial da América Latina.

“Em 17 anos de existência, o Memorial passou por diversos processos de manutenção predial. A diferença entre as atuais reformas e as obras anteriores é que, agora, as fissuras estão sendo realmente tratadas. Em vez de apenas pintar os prédios, os técnicos estão abrindo as fissuras para colocar um material chamado elastômero, que permite os movimentos naturais de retração e dilatação do concreto, provocados pelas mudanças de temperatura. Após esse tratamento, os edifícios serão recobertos por manta de tecido não-tecido, produto nacional e de baixo custo, que dá elasticidade ao concreto”, explica Boaventura. Na última etapa do trabalho serão pintados os prédios que compõem o conjunto arquitetônico.

Em setembro começaram as reformas. Foram restaurados o Pavilhão da Criatividade, o prédio da monitoria e a entrada monumental. De acordo com Boaventura, o Portão 1 (passagem subterrânea, na saída do Metrô Barra Funda) ficou fechado durante dez anos. Com a reforma, o espaço, que desemboca diretamente na Praça Cívica, voltou à sua função principal: ser a porta de entrada que oferece ao público visão panorâmica do conjunto arquitetônico. O corredor que liga o Portão 1 à Praça Cívica terá em seu teto, nos próximos meses, uma obra de Maria Bonomi, artista plástica italiana radicada no Brasil.

Parcerias – Mesmo antes do projeto de reformas em andamento, duas importantes parcerias foram realizadas. De maio a julho, a Sabesp cedeu 50 caminhões-pipa para a lavagem completa do piso. De acordo com Boaventura, a água da Sabesp era de reúso e foi utilizada também para a lavagem da escultura A Grande Mão, de Niemeyer.

No ano passado, a Siemens do Brasil completou 100 anos e presenteou o Memorial com a recuperação e a ampliação da iluminação cênica na fachada dos prédios, bem como nos corrimãos da passarela (78 luminárias). A parceria com a multinacional alemã permitiu ainda que fossem trocados os seis holofotes de cada uma das oito torres de iluminação, deixando a Praça Cívica iluminada como um campo de futebol. As 29 bandeiras dos países latino-americanos, hasteadas na entrada oficial em ocasiões especiais, também foram especialmente iluminadas.

As torres receberam luminárias com lâmpadas de mil volts de vapor de sódio. Para os outros circuitos cênicos e dos monumentos foram utilizadas lâmpadas de 400 volts de vapor de sódio, com aproveitamento dos refletores existentes. A iluminação das bandeiras recebeu refletores, luminárias e novos circuitos de alimentação de energia. O setor da passagem subterrânea (Portão 1) ganhou iluminação nova e reforço nas paredes laterais. A passarela de acesso que liga os dois lados do Memorial também recebeu novas lâmpadas e luminárias, além de um circuito de energia.

Formas curvas – Após restaurar o Pavilhão da Criatividade, o prédio da monitoria e a entrada monumental, o Memorial da América Latina iniciou obras em mais dois edifícios: o Auditório Simón Bolívar e o Salão de Atos. Em seguida, será a vez da Biblioteca Latino-Americana Victor Civita e da Galeria Marta Traba. Até março, todos serão entregues ao público.

O contrato de reforma do Salão de Atos, no valor de R$ 232,4 mil, foi assinado pelo presidente do Memorial e representantes da empresa Consport, escolhida por meio de licitação. A empresa está fazendo o tratamento das fissuras e a pintura do salão, que mede 30 metros e é côncavo, portanto de difícil manutenção. O prédio abriga importantes obras de arte, como o painel Tiradentes, pintado em 1948 por Cândido Portinari, e seis painéis verticais de Carybé e Poty, que contam a história da América Latina.De acordo com o engenheiro da Consport responsável pela obra, Celso Domingues, 20 homens trabalham para que a obra seja entregue no prazo estipulado de 60 dias.

O Auditório Simón Bolívar – que também tem formas curvas, marca do arquiteto Oscar Niemeyer – passa pelo mesmo tipo de reformas. Assim como o restauro do auditório e do Salão de Atos, as obras da biblioteca e da galeria vão durar 60 dias e fazem parte da verba de suplementação de quase R$ 1,5 milhão recebida do governo do Estado em setembro.

Modernização da biblioteca – Como parte das mudanças no Memorial da América Latina, 14 computadores foram instalados na Biblioteca Latino-Americana Victor Civita e integram o projeto Acessa São Paulo. Inaugurado em 23 de setembro, recebeu até dezembro 4.241 visitantes. O espaço funciona de terça a sexta e aos domingos, das 9 às 18 horas; e aos sábados, das 9 às 15 horas.

De acordo com Leça, o acervo de livros da biblioteca é especializado em cultura latino-americana e tem atualmente 30 mil volumes. “Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a biblioteca encontra-se em processo de modernização tecnológica. A informatização permitirá ao usuário o acesso rápido ao acervo local, bem como tornará disponível este acervo ao usuário externo por meio da Internet”, afirma o presidente da fundação.

Recorde de público – Outra importante mudança é a melhoria no atendimento ao público. Os resultados podem ser comprovados. De janeiro a dezembro do ano passado, 444,8 mil pessoas visitaram o local. No mesmo período de 2004, haviam sido 204,5 mil. O número de visitas começou a aumentar a partir de setembro do ano passado. O mês foi um marco e ficou conhecido como Primavera no Memorial. Para isso, a instituição está adotando nova estratégia para atrair turistas. A contratação de 14 novos monitores, que estão sendo treinados em parceria com a Secretaria do Estado de Educação, ajuda nessa tarefa. Os monitores devem abordar os visitantes, que chegam ao local individualmente ou em grupos, para oferecer-lhes ajuda e explicações, se necessário. Visitas monitoradas de duas horas continuarão sendo oferecidas.

“As pessoas que nos visitam têm apreciado as novas condições das instalações e usufruído da boa programação. Além das reformas, grandes eventos ocorreram aqui, como uma festa típica nordestina (São João), o Anima Mundi e a Mostra Internacional de Cinema (abertura, encerramento e sessões para estudantes)”, informa o diretor de Atividades Culturais, Felipe Macedo.