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Diálogos inéditos

Publicado em 12 julho 2010

Fábio de Castro, Agência FAPESP

Área de fronteira do conhecimento, a dinâmica fônica envolve pesquisadores oriundos de diversos campos distintos, como linguística, psicologia, neurociências e até engenharia.

Em junho, 50 estudantes de pós-graduação do Brasil e do exterior tiveram a rara oportunidade de participar, por cinco dias, de um intenso diálogo com 18 dos maiores especialistas no mundo nessa área multidisciplinar dedicada ao estudo dos eventos dinâmicos que caracterizam a produção e a percepção da fala em todos os seus níveis.

Realizada entre os dias 7 e 11 de junho na capital paulista, a São Paulo School of Advanced Studies in Speech Dynamics (Escola São Paulo de Estudos Avançados em Dinâmica Fônica) foi organizada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP).

O curso ocorreu no âmbito da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) - modalidade de apoio lançada pela FAPESP em 2009 de modo a criar oportunidades para que pesquisadores de São Paulo realizem cursos com a participação de especialistas internacionais e que tragam ao Estado jovens estudantes ou pós-doutores de outras regiões e países, possibilitando a interação com estudantes e pesquisadores locais e o debate de temas científicos avançados.

De acordo com a coordenadora do evento Eleonora Albano, professora do Laboratório de Fonética e Psicolinguística do IEL-Unicamp, todas as apresentações feitas durante o curso serão em breve disponibilizadas no site do IEA (em www.iea.usp.br/speechdynamics.pdf), que transmitiu as aulas ao vivo pela internet. Os vídeos também serão incluídos no site em breve.

"O evento foi um exercício inovador na área da linguagem. A comunidade envolvida com a dinâmica fônica abrange um leque de formações muito distintas. No entanto, isso não costuma se refletir nas reuniões, que giram em torno de especialidades e não da temática. Como a reunião foi temática, conseguimos um diálogo raro e uma interação fantástica entre os participantes", disse Eleonora à Agência FAPESP.

A ESPCA teve participação de 18 docentes, dos quais 12 brasileiros e seis estrangeiros - sendo que dois deles trabalham no Brasil. Em relação às áreas de origem, o grupo foi composto de 13 linguistas, dois físicos, um engenheiro, um matemático e um psicólogo.

Quanto aos alunos, as vagas foram distribuídas para 30 brasileiros e 20 estrangeiros, sendo 38 linguistas e os demais fonoaudiólogos, engenheiros e neurocientistas. Entre os estudantes estrangeiros, oito vieram da Europa, oito dos Estados Unidos e quatro de países da América Latina. Dos brasileiros, 12 eram de São Paulo, oito de Minas Gerais, cinco do Rio de Janeiro, cinco do Rio Grande do Sul, dois do Paraná e um do Ceará.

"A predominância de paulistas e mineiros corresponde às regiões nas quais a dinâmica fônica envolve mais profissionais no Brasil", disse a professora. Segundo ela, as principais instituições que trabalham com a área no país são a Unicamp, a USP e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma das principais contribuições do evento no aspecto científico consistiu em inaugurar um diálogo que não existia internacionalmente. "Trouxemos pessoas de dois grupos com pontos de vista diferentes em relação à área e possibilitamos o diálogo entre elas", disse Eleonora.

Uma das vertentes corresponde aos pesquisadores que se dedicam a estudar a percepção da fala - ou seja, a dinâmica que diz respeito aos vários sinais que constituem a fala - dos sinais acústicos aos estímulos óticos. A outra vertente reúne os que estudam a produção da fala, mas não se atêm aos sinais e sim aos diversos movimentos que a constituem, como o movimento dos lábios.

"Os especialistas mais voltados para a dinâmica da percepção têm algumas posições teóricas que parecem, pelo menos superficialmente, muito divergentes das posições dos que estudam a dinâmica da produção da fala. Esses grupos tendem a formar duas trincheiras que não costumam interagir. Mas conseguimos reunir gente das duas vertentes e o resultado foi um diálogo intenso e muito rico", contou a coordenadora.

Diálogos iniciados

As características da ESPCA facilitaram a integração dos participantes. "Tivemos atividades em período integral, totalizando mais de 40 horas de aulas, inlcuindo sete minicursos, cinco conferências e três mesas-redondas. Todos tiveram oportunidade de falar e de ouvir e se dedicaram totalmente ao curso pelos cinco dias. As perguntas não eram feitas apenas por alunos, mas também por professores, o que gerou debates muito aprofundados. Os participantes reconheceram que houve um diálogo inédito", afirmou Eleonora.

A dinâmica fônica se apoia na teoria dos sistemas dinâmicos - uma teoria matemática que, criada para lidar com problemas da física, foi disseminada para várias áreas do conhecimento, como economia, ecologia e linguística. A dinâmica fônica aborda a relação entre os aspectos cognitivos e físicos da fala do ponto de vista dinâmico.

"A fala é transmitida por todos os sentidos. A abordagem dos sistemas dinâmicos permite estudar a produção da fala em todos os seus estágios e explicar diversos fenômenos fonéticos, fonológicos e linguísticos em geral", explicou.

Segundo a professora do IEL-Unicamp, a ESPCA propiciou também o início de um outro diálogo: entre os que abordam a dinâmica da fala e os que usam a teoria dos sistemas dinâmicos para iluminar outros aspectos da linguística, como sintaxe, semântica e o uso de construções e expressões.

"Esse diálogo ainda está incipiente, mas vai deslanchar. Dois dos especialistas que fizeram apresentações na escola sob esse ponto de vista são físicos que trabalham com a linguagem, usando redes complexas para tentar entender como funcionam os outros aspectos da linguagem, além da fala. Tivemos o início de uma conversa que é completamente inédita no mundo", afirmou.

Mais informações sobre a modalidade ESPCA da FAPESP: www.fapesp.br/espca