Notícia

Escritas em Dança

Diálogos da Aldeia Arapiraca -Enquanto o aluá fermenta

Publicado em 30 setembro 2018

Por Marcelo Gianini

O público que foi assistir ao espetáculo As mulheres do aluá, d’O imaginário, de Rondônia, foi recebido com uma imagem impactante: quatro mulheres presas em quatro pequenas jaulas, suas bocas tapadas por uma espécie de focinheira, como aquelas utilizadas nos negros e negras escravizados; à frente das jaulas, quatro cuias inalcançáveis às mãos dessas mulheres encarceradas. Ouvimos, em off, diversos nomes femininos sendo ditos de maneira ininterrupta. Como nas jaulas, onde quase não há espaço para se movimentar, o ouvido tem dificuldade em separar um nome de outro. Esse prólogo anuncia o que veremos durante a próxima hora, um coro de mulheres oprimidas, sem direito público ao próprio nome e à própria fala, que só podem se manifestar na intimidade, enquanto fermenta o aluá. Outras imagens potentes serão recorrentes durante todo o espetáculo: quatro pequenos bancos com peles que são percutidas; um enorme pilão no centro do palco; a poeira dos grãos de milho jogados e moídos no pilão e que envolve as quatro mulheres; a espera para beber um gole do aluá.

O escritor e crítico literário russo Andréi Biely dizia, em fins do século XIX, que “a arte liga-se ora à ideia, ora a mudança das ideias: no primeiro caso surgem as formas estéticas espacializadas, no segundo, as formas temporais” (BIELY apud MEIERHOLD, 2009, p. 343). De forma simplista, pode-se dizer que as artes do espaço (as plásticas, como figurinos, cenografia e adereços) produziriam ideias, enquanto as artes do tempo (as rítmicas, como a dramaturgia, as movimentações cênicas, a música e a iluminação), provocariam a evolução das ideias. O teatro, bem como as artes cênicas em geral, seria a linguagem artística privilegiada para colocar em diálogo os diversos elementos que compõem a cena, ora de maneira harmônica, de forma a emitir um discurso unívoco, ora atritando uns aos outros com o intuito de produzir leituras polifônicas e até mesmo dissonantes. Assim, se as imagens são, por si só, produtoras de sentido, quando se desenvolvem no tempo-espaço têm a capacidade de produzir outros, diversos e até mesmo divergentes daqueles iniciais, solicitando do espectador uma atitude ativa, dialética, frente aos temas tratados.

Parece-me que o partido escolhido na encenação das histórias verídicas dessas mulheres que habitaram a cidade de Porto Velho, entre as décadas de 1910 e 1930 (segundo informações do diretor do espetáculo, Chicão Santos), foi o de privilegiar um dos elementos cênicos temporais, a palavra, enaltecendo a dramaturgia, ora na forma de depoimentos, ora em conflitos discursivos entre as personagens. A atuação das intérpretes acentua essa escolha cênica ao reforçar o sentido lógico-racional dessas palavras nos gestos que as acompanham, pois a musicalidade da fala e o ilustrativo da gestualidade estão à serviço da clareza do texto, do entendimento do que se diz e seus porquês. Privilegia-se, assim, mais o que se dá a ouvir do que o que se dá a ver; diria, com mais precisão, mais o que se quer dizer. As imagens descritas acima, belíssimos “achados” cênicos, não se desdobram, não evoluem no tempo-espaço, não dialogam com as palavras, mas as ilustram. São desfeitas rapidamente logo após serem construídas.

Talvez alguns exemplos deixem mais claro o que tento apontar. Logo após as vozes em off marcarem o início do espetáculo, as atrizes retiram as focinheiras e começam a falar. A presença desse elemento cênico impactante não é explorada, não é transformada em ação. Na sequência, após uma certa dificuldade em sair de seus claustros, as mulheres erguem-se da posição de subalternidade em que estavam e ficam de pé, eretas, donas de seus corpos e de suas palavras, porém, ao tentar se deslocar no espaço, percebemos que seus pés estão acorrentados às jaulas. Essa dificuldade de locomoção poderia ter sido explorada no espetáculo, mas é logo “solucionada” com a simples retirada das correntes pelas próprias atrizes, assim como acontecera com as focinheiras. Outros exemplos poderiam ser dados a partir desta perspectiva proposta.

Ao citar esses exemplos, corro o risco de você, leitor, se perguntar se este crítico que lhe escreve não estaria melhor na posição de diretor do espetáculo, visto que pareço ter as respostas ao que eu mesmo aponto como possíveis falhas. Dizer o que EU acho que está errado e EU próprio dar a solução parece-me uma atitude arrogante e prepotente, portanto, nada crítica. Não é desta perspectiva que proponho esses exemplos, e sim no intuito de dar concretude a algumas reflexões que poderiam ser mais problematizados na cena. Parece-me que no afã de afirmar um discurso extremamente necessário sobre a posição de subalternidade que a mulher ainda está submetida em nossa sociedade patriarcal, a encenação enaltece a palavra, abafando outros elementos que poderiam potencializar ainda mais sua perspectiva crítica. Até mesmo questões estruturais no processo de criação, reveladas no instigante debate que tivemos ao final do espetáculo, são solucionadas com posições já demarcadas, defensivas, que evitam que o belo espetáculo possa reverberar ainda mais em nossas vidas.

Talvez a incrível experiência de levar essas mulheres do aluá a todo território brasileiro, neste Palco Giratório do SESC, entrando em contato com outras realidades e outras formas de pensar e agir no mundo, possam fermentar ainda mais O Imaginário a aperceber-se de suas potências e fragilidades e, principalmente, da importância de seu trabalho para a cena nacional.

REFERÊNCIA:

MEIERHOLD, V. Sobre o teatro. Tradução Maria Thaís e Roberto Mallet. In MARIA THAÍS, Na Cena do Dr. Dapertutto: poética e pedagogia em V.E.Meierhold: 1911 a 1916. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2009.

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO E PRODUÇÃO: Chicão Santos

ELENCO: Agrael de Jesus, Amanara Brandão, Flávia Diniz e Zaine Diniz

CENOGRAFIA E LUZ: Chicão Santos

DRAMATURGIA: Euler Lopes Teles

CLASSIFICAÇÃO: 14 anos

DURAÇÃO: 60 minutos

REFERÊNCIA:

MEIERHOLD, V. Sobre o teatro. Tradução Maria Thaís e Roberto Mallet. In MARIA THAÍS, Na Cena do Dr. Dapertutto: poética e pedagogia em V.E.Meierhold: 1911 a 1916. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2009.

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO E PRODUÇÃO: Chicão Santos

ELENCO: Agrael de Jesus, Amanara Brandão, Flávia Diniz e Zaine Diniz

CENOGRAFIA E LUZ: Chicão Santos

DRAMATURGIA: Euler Lopes Teles

CLASSIFICAÇÃO: 14 anos

DURAÇÃO: 60 minutos