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Tribuna Impressa

DHR propõe dobrar produção de álcool

Publicado em 06 julho 2003

Por Renê Gardim - Editor de Economia
Duplicar a produção de álcool sem aumentar um hectare sequer o plantio atual da cana. Essa é a proposta do processo Dedini Hidrólise Rápida (DHR) desenvolvido pela Dedini S.A. Indústria de Base, de Piracicaba. Utilizando o bagaço e a palha da cana, o sistema praticamente dobra a produtividade. A empresa acredita que poderá colocar o programa no mercado dentro de poucos meses. O processo promete ser revolucionário e não deve exigir grandes investimentos da maioria das usinas paulistas. De acordo com o vice-presidente de Operação da empresa, José Luiz Olivério, as vantagens são muitas, indo da redução no custo da produção do álcool até os benefícios ambientais, uma vez que as usinas deixariam de queimar a palha da cana. "Tanto a palha como o bagaço se tornam matéria prima adicional", afirma. "Hoje esses produtos são desperdiçados e na DHR também se tornam álcool". Atualmente a produção do álcool utiliza somente o caldo da cana como matéria prima. Em um hectare é possível colher, em média, 80 toneladas do produto. Cada tonelada gera cerca de 80 litros de álcool, ou 6.400 litros por hectare. Com a nova tecnologia, de acordo com levantamento feito pela Dedini, será possível utilizar cerca de 16 toneladas de palha por hectare, que hoje são queimadas ou abandonadas na lavoura. Junto com o bagaço, que em parte se torna produto para queima em caldeiras, essa palha poderá produzir mais 5.600 litros de álcool. "Ou seja, teremos 12 mil litros do produto, ou mais ainda, se as usinas otimizarem seus sistemas de produção para sobrar o máximo de bagaço, o que nem sempre acontece hoje, embora já exista uma preocupação, principalmente em São Paulo, de tornar a usina energeticamente otimizada". Para Olivério, uma unidade que já esteja "energeticamente otimizada" terá um investimento baixo para utilizar a nova tecnologia. "Mesmo levando em conta esse investimento, a tecnologia DHR terá um impacto econômico muito grande numa usina, pois, a partir do bagaço e da, palha da cana, será possível produzir álcool 40% mais barato que hoje", afirma. "Além disso existe o impacto da produtividade, onde será possível fabricar mais com a mesma área atual, e o impacto ambiental, pois não será mais necessário queimar a palha". Detentora da nova tecnologia, a Dedini pretende determinar os parâmetros para elaboração em escala industrial do DHR (veja na matéria ao lado) nos próximos meses e, a partir daí, oferecer o sistema às 308 usinas de açúcar e álcool de todo o País. "Inicialmente vamos procurar um primeiro cliente para colocar o DHR operando industrialmente", explica Olivério. "Como o projeto é pioneiro, existe um conjunto de dificuldades que estamos contornando, e em breve teremos os ajustes necessários para colocá-lo no mercado". PROJETO ESTÁ NA RETA FINAL COM O ESTUDO DA SUA APLICAÇÃO EM ESCALA INDUSTRIAL Após dez anos de pesquisas e investimentos superiores a R$ 15 milhões, a Dedini vai apresentar a nova tecnologia capaz de dobrar a produção de álcool no País, durante Simpósio do setor sucroalcooleiro em Piracicaba entre os dias 14 e 19. O processo permite o uso do bagaço e da palha da cana na transformação do combustível. Atualmente, a empresa está iniciando a operação em uma unidade semi-industrial, capaz de produzir 5 mil litros de álcool por dia. A Dedini espera concluir em dois meses os testes do uso dessa tecnologia em escala semi-industrial. A usina piloto está operando na Usina Santa Luiza, em Pirassununga, que pertence ao grupo. A partir daí, poderá iniciar o processo para uso comercial. O desenvolvimento da nova tecnologia começou no final da década de 1980. Inicialmente num laboratório, em escala de bancada. Em seguida foi criada uma unidade piloto para produzir apenas 100 litros diários. "Era uma verdadeira miniatura da planta de uma usina", afirma o diretor de Operação da Dedini, José Luiz Olivério. Em 1997. a empresa assinou um contrato de tecnologia com a Coopersúcar para prosseguir com o projeto. E em fevereiro do ano passado a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) também passou a apoiar o DHR, possibilitando a construção da unidade semi industrial para produzir 5 mil litros diários de álcool. "A intenção é comprovar a engenharia de escala, ou seja, que é possível produzir álcool através do bagaço e da palha da cana em escala industrial", diz Olivério. "A partir daí teremos os parâmetros para oferecer o DHR no mercado nacional". O mercado externo também está na mira da empresa, que já registrou patente da tecnologia. "Podemos montar o sistema em qualquer usina no mundo", afirma Olivério. O DHR será apresentado oficialmente em julho, durante o Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologiado Setor Sucroalcooleiro (Simtec), que será realizado entre os dias 14 e 19 em Piracicaba Devem participar representantes das usinas brasileiras e outros 60 usineiros de países como Argentina, Colômbia, Cuba e México. O grupo Dedini atua na área de produção de bens de capital (equipamentos) e mantém duas usinas. Emprega 6 mil pessoas e faturou, no ano passado, R$ 650 milhões. (Renê Gardim) USINAS PRECISAM DO BAGAÇO NA PRODUÇÃO Para os usineiros da região, o projeto da Dedini não é revolucionário, embora esteja no caminho certo e tenha o apoio do setor. O grande problema está na utilização do bagaço da cana para produzir mais álcool. Atualmente a sobra da moagem serve para gerar energia que movimenta as moendas e para atender todo o complexo industrial das usinas. Para implantar o DHR seria necessária voltar a comprar energia elétrica das geradoras, como CPFL, Eletropaulo, inviabilizando a produção de álcool. Atualmente quase todo o bagaço da cana, gerado pelas moendas durante extração do caldo que vai servir para a produção de álcool e açúcar, é utilizado nas caldeiras para produzir energia elétrica para consumo da própria usina. Algumas chegam a gerar um excedente que é vendido para as geradoras. Para o assessora dos usineiros, João Pereira Pinto (JPP), o projeto da Dedini só vai se viabilizar quando houver a possibilidade de utilizar a energia hidrelétrica. "Só assim será possível disponibilizar o bagaço da cana para produzir álcool. Outra opção é o usineiro aumentar a capacidade das caldeiras, para gerar mais energia com menor queima de bagaço. "Mas é um investimento muito alto", lembra JPP. "Além disso, será necessário despender mais recursos para implantar o projeto da Dedini". JPP lembra que o uso da palha seria uma forma de cumprir a legislação, que determina o fim da queima em 20 anos, e tomar o produto rentável. No entanto, entende que não seria viável pois o volume de palha não é suficiente. "Ao que sabemos, o bagaço é importante no processo". A União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica) também afirma, através de sua assessoria de imprensa, que "toda tecnologia que representa aumento da produtividade e diminuição dos custos será bem recebida pelo setor industrial". Mas prefere aguardar os detalhes sobre o atual estágio do projeto. (Renê Gardim)