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Inovação Unicamp

Devagar, mercado de investimento em empresas inovadoras cresce no País; disponibilidade de venture capital e interesse aumentam

Publicado em 27 setembro 2007

Por Janaína Simões

O venture capital firma-se no Brasil como alternativa de financiamento para empresas emergentes de base tecnológica e inovadoras. Na segunda semana de setembro, uma delegação de investidores dos Estados Unidos esteve no Brasil, convidada pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), para visitar empresas inovadoras e centros de pesquisa, e conhecer melhor a realidade econômica e os potenciais do País. Em agosto, a Imprimatur Capital, empresa inglesa de investimento, instalou-se em Campinas (SP) para encontrar firmas brasileiras em que possa investir "capital-semente" — aquele que, nas práticas desse mercado, precede o venture capital. Outra iniciativa nesse segmento é a Votorantim Ventures, um fundo criado há sete anos pelo Grupo Votorantim para empresas nascentes. O executivo responsável pelas operações da empresa, Paulo Henrique de Oliveira Santos, diz que o mercado não atendeu as expectativas do fundo, que investiu menos do que poderia.

Representantes de 12 fundos de investimento dos EUA, com ativos entre US$ 700 milhões e US$ 245 bilhões, formaram a delegação de investidores trazida pela ABVCAP e pela ABDI. Eles estiveram no Rio de Janeiro e em São Paulo, entre os dias 9 e 13 de setembro, para conversar com gestores de venture capital e órgãos do governo sobre o mercado brasileiro. Segundo a ABDI, a finalidade da visita não foi concretizar investimentos imediatos no País, mas começar a dialogar com os investidores para que isso ocorra no médio e longo prazo.

Neste mês, a revista Valor Financeiro, do jornal Valor Econômico, trouxe a mais recente pesquisa sobre o mercado de venture capital no Brasil, feita pelo Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getúlio Vargas (GVcepe) e pelo Instituto Endeavor, organização sem fins lucrativos criada por ex-alunos da Universidade de Harvard (EUA) para auxiliar países subdesenvolvidos na elaboração e execução de políticas de incentivo ao empreendedorismo. A pesquisa da GVcepe abrangeu 89 empresas gestoras de venture capital e descobriu que estas firmas comprometeram um total de US$ 16,7 bilhões em recursos em 2007. Em 2004, esse volume era de US$ 5,58 bilhões, relacionados a 71 empresas gestoras. O número de empresas que receberam investimentos de venture capital passou de 306 para 404 no período. Em 2004, havia 498 profissionais na área; em 2007 são 984. Trinta e três empresas iniciaram suas atividades nos últimos dois anos e meio.


Votorantim Novos Negócios

O Grupo Votorantim, por exemplo, diz que investiu menos do que gostaria porque não encontrou bons projetos. Quando, em 2000, a empresa decidiu entrar no ramo, com a Votorantim Novos Negócios, destinou US$ 300 milhões de seu próprio orçamento para investimentos na forma de venture capital. Segundo o diretor-presidente Paulo Henrique de Oliveira Santos, nem metade dos US$ 300 milhões foi investida ainda, passados sete anos da criação do fundo. "E boa parte do que investimos não foi em empresas de pesquisa, desenvolvimento e inovação, mas em companhias de tecnologia da informação que prestam serviço", comenta. "Estou há sete anos no setor e diria que melhorou o mercado de venture capital no Brasil. Mas foi uma melhora tímida, numa velocidade muito distante do que nós, da indústria, esperávamos", aponta.

Para o executivo, isso ocorre por dois problemas. "Os pesquisadores não conhecem direito o venture capital, precisamos divulgar o que a indústria faz. E eles estão fechados, focados para dentro [da universidade], não pensam em desenvolver novos produtos", enumera. Santos explica que demora um tempo para desenvolver a cultura do uso de venture capital nos ambientes de pesquisa acadêmica, onde há maior potencial para encontrar as idéias inovadoras que podem se transformar em empresas, mas que precisam de investimento para que a tecnologia chegue ao mercado. Como são idéias, e não produtos, há o risco de o investidor perder seu dinheiro caso a idéia não se concretize em algo viável para o mercado.

No início, a Votorantim Venture fez prospecção junto às universidades, na busca por bons projetos, mas mudou sua estratégia de atuação ao se deparar com a dificuldade de dialogar com os pesquisadores. Ao invés de receber propostas, criou empresas. "A gente pensa um projeto internamente, desenvolve a idéia e depois procura os pesquisadores que podem atuar nele. É diferente do modo de operação dos fundos nos Estados Unidos, por exemplo, onde os pesquisadores procuram os investidores de venture capital", compara.


Mais private equity do que venture capital

A experiência da Votorantim sinaliza uma explicação para o fato de os fundos de venture capital darem preferência a investir em empresas maiores. "Temos observado uma tendência de os gestores das empresas de venture capital trabalharem com fundos maiores e com empresas também maiores, o que é mais típico das operações de private equity", afirma Patrícia Freitas, superintendente da Área de Investimentos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Na divisão de tarefas no mercado de investimento, o private equity é voltado para negócios que, embora ainda pequenos, apresentam um ciclo comercial completo, ou seja, são empresas que têm faturamento, produto, canal de distribuição e clientes. "As operações de venture capital realmente estão sendo mais tocadas hoje por instituições de governo", observa Clóvis Benoni Meurer, diretor-superintendente da empresa CRP Participações, gestora de venture capital, e vice-presidente da ABVCAP.

Patrícia lembra que o mercado hoje está mais aquecido, devido à liquidez na economia internacional e ao aumento da viabilidade econômica das firmas, resultado da estabilidade econômica. Clóvis Meurer diz ainda que os juros altos são opções seguras, por exemplo, para investidores que adquirem títulos do governo brasileiro, mas observa que a remuneração menor desse tipo de investimento promove a migração desses recursos para outros nichos, como os fundos de venture capital. "Com a baixa dos juros, os investidores colocaram dinheiro em empresas", acrescenta.

Investidores estrangeiros no Brasil

A Imprimatur fez um convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no valor de R$ 6 milhões, para financiar pequenas empresas inovadoras do programa PIPE; e outros dois, com a Unicamp e com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para criar start-ups — aquelas firmas nascidas de pesquisas acadêmicas cujos resultados têm potencial para se tornar um produto ou processo novo para venda no mercado. Pelos acordos, as universidades apresentarão para a Imprimatur patentes ou tecnologias promissoras. A empresa selecionará, para investir, aquelas que, segundo os critérios dela, apresentem potencial de mercado.

"A Imprimatur investe quando a tecnologia está bem no começo da cadeia — quando ainda não se sabe quais serão seus mercados ou as melhores aplicações. Estamos falando de tecnologias das universidades e de empresas muito pequenas, como as financiadas pelo PIPE da Fapesp", informa Rosana Ceron di Giorgio, a diretora da empresa no Brasil. Daí o interesse da Imprimatur no convênio com a Fapesp: os R$ 6 milhões da empresa, combinados aos R$ 6 milhões da agência (de que fazem parte também recursos da Finep), vão ser destinados a levar até a fase de comercialização produtos e tecnologias já desenvolvidos com recursos do programa que apóia as pequenas inovadoras. O processo de seleção inclui entrevistas com representantes das empresas e termina em 28 de outubro, com a divulgação das selecionadas.

Rosana deixou a Diretoria de Propriedade Intelectual e Desenvolvimento de Parcerias da Agência de Inovação da Unicamp (Inova) dia 16 de julho para assumir a operação da Imprimatur no Brasil. Nesses dois meses, além de procurar o melhor lugar para a empresa se instalar no País e cuidar da parte burocrática dessa operação, ela assinou os contratos com a UFSC e com a Unicamp; e está negociando acordos similares com outras universidades. "Viemos para ficar no Brasil — os contratos são de longa duração, de dez anos. Não é uma coisa transitória", destaca.

Rosana ressalta que a Imprimatur também quer fazer parte da gestão da firma. Por isso, oferece à empresa que apóia uma série de serviços: contato com consultores da academia e da indústria de vários lugares do mundo, assessoria para fazer o planejamento estratégico, planejamento de negócios, entre outros. "Sabemos que a mortalidade das empresas no Brasil é alta. As agências de fomento têm um papel importante, porque financiam a pesquisa, mas só podem apoiar a atividade de P&D. Uma empresa pequena e nascente não é bem-sucedida se tiver apenas os recursos para pesquisa. Ela precisa de um bom gestor para conduzir os negócios e fazê-la crescer", diz. O gestor não tem de ser alguém da Imprimatur; a escolha é feita com base na necessidade da empresa financiada. Como normalmente a empresa tem outros participantes, como a universidade e o pesquisador, a decisão é conjunta.

A executiva afirma que a Lei de Inovação é muito importante na atração de investimentos como o da Imprimatur. Na opinião dela, a lei deixa claro que as universidades têm permissão para comercializar tecnologias, dividir a propriedade intelectual e compartilhar laboratórios. "Ainda temos de enfrentar a questão da exclusividade no licenciamento, algo que até agora não foi bem resolvido", opina. Para uma universidade ou instituto público de pesquisa licenciar uma tecnologia com exclusividade para uma empresa, é preciso antes fazer um edital, diz a Lei de Inovação. "Como a universidade vai trabalhar com um investidor como a Imprimatur, que vai investir na análise de uma tecnologia, ver que tem potencial, para depois correr o risco de o negócio ir para outra empresa?", questiona. A Imprimatur tem, em Londres, um Conselho Científico formado por PhDs para fazer esse tipo de análise, e isso é um custo para o investidor. "Já não é fácil fazer um licenciamento, então não deveriam dificultar tanto esse processo", aponta. Rosana diz que o Brasil, entre os países da América Latina que conhece, é o único que exige a realização de uma oferta pública para a licença exclusiva. Segundo ela, a Imprimatur está estudando como lidar com a questão do licenciamento exclusivo de forma a não ter problemas, atender os interesses das universidades e o que determina a Lei de Inovação. Quem já fez licenciamento exclusivo, do lado da empresa e do lado da universidade, não compartilha a opinião de Rosana.

Conforme os acordos que a Imprimatur fechou com a Unicamp e com a UFSC, as universidades apresentam tecnologias para a empresa avaliar. Em troca, a Imprimatur dá um relatório de análise e oferece uma justificativa se não quiser investir. Nos casos em que o diagnóstico é positivo, a Imprimatur aporta capital, criando a start-up. A Imprimatur pode ter de 40% a 60% de participação acionária como contrapartida ao investimento em dinheiro e à realização dos serviços de apoio. "Sabemos também que os núcleos de inovação das universidades ainda estão no começo de suas atividades, por isso a Imprimatur dá apoio para eles se organizarem, analisando e sugerindo a reivindicação de patentes, fazendo análise de mercado etc.", explica Rosana.

Venture capital é "capital inteligente", diz Finep

"Chamamos essa modalidade de investimento de capital inteligente porque, além dos recursos financeiros, a empresa recebe do gestor do fundo o apoio gerencial, algo que não se encontra nos financiamentos tradicionais", destaca Patrícia Freitas, da Finep, responsável pelo Programa Inovar. Segundo ela, esse gestor orienta a empresa em assuntos fundamentais, como realização de acordos comerciais, atração de bons profissionais para a empresa e realização do planejamento estratégico.

O Inovar, da Finep, busca ligar pequenas empresas que inovam a investidores. Como explica Patrícia, o esforço da agência direciona-se prioritariamente para venture capital voltado a empresas com até R$ 100 milhões de faturamento, para tentar estimular os fundos a investir nas empresas em fase mais inicial de desenvolvimento. A financiadora disponibiliza recursos próprios para incentivar a formação de fundos de venture.

A ação conseguiu parceiros internacionais, como o Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Fumin-BID), e tem a participação de outros investidores em fundos de venture capital, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Banco do Brasil Investimentos (BB-BI), a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e os fundos de pensão dos funcionários do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco do Brasil (a Previ), da Petrobras (a Petros) e da Caixa Econômica Federal (a Funcef).

Em seis anos, o programa comprometeu R$ 600 milhões em 13 fundos, que beneficiaram 50 empresas. A Finep participa de fundos como o GP Tecnologia, o Stratus VC, o SPTec, o Rio Bravo Investech II, o Novarum, o CRP Venture VI e o Stratus VC III. Cada um desses fundos tem como administrador uma empresa gestora de venture capital, vários cotistas e uma área de preferência. Por exemplo, o SPTec é voltado para empresas emergentes paulistas de base tecnológica. O patrimônio do fundo é administrado por três gestoras: CRP, Eccelera e Proinvest. Entre os cotistas, além da Finep, estão o BNDES, o Grupo Cisneros e o Sebrae. Uma empresa que recebeu recursos do fundo foi a Linkware Informática, que desenvolve softwares para a área de gerenciamento financeiro e de controle de operações financeiras ativas e passivas.


O que é o mercado de venture capital

Os investidores de venture capital geralmente reúnem-se em condomínios, os fundos, e são chamados de cotistas. Os investidores subscrevem cotas quando o fundo começa a funcionar; essas cotas serão resgatadas quando o investimento feito em um determinado negócio for retirado. Em geral, a saída — ou "desinvestimento" — ocorre de cinco a dez anos após o fundo ter feito o investimento. Esse desinvestimento se dá com o lançamento da empresa no mercado de ações ou com a venda da firma para outra companhia.

As operações de seed money, venture capital e private equity buscam a participação em empresas com alto potencial de crescimento e rentabilidade. Daí o interesse por empresas de base tecnológica e inovadoras — que, na visão do mercado, apresentam maior potencial de ganhos. "No Brasil, há bom número de empresas com potencial, uma classe empreendedora muito forte", diz Clóvis Meurer, da CRP Participações. Contudo, segundo ele, os gestores encontram tecnologias que não têm demanda ou produtos que dificilmente atingirão escala de mercado, mesmo quando criados por um excelente pesquisador. Outra dificuldade é a velocidade do avanço tecnológico atual. "Nós investimos e, quando chegamos ao produto final, ele não tem mais valor porque um concorrente lançou algo mais avançado e melhor", comenta.

"Os fundos procuram empresas cuja tecnologia é diferencial no mercado, analisando inclusive itens como quanto tempo essa tecnologia demoraria para ser copiada, qual a capacidade da empresa de gerar outras inovações para se manter à frente da concorrência", explica Luiz Eugênio Figueiredo, conselheiro da ABVCAP e diretor da Rio Bravo, outra empresa que faz gestão de investimento. Fundada em 2000, a Rio Bravo conta hoje com 100 profissionais. Em palestra apresentada na reunião da ABVCAP em março deste ano, Figueiredo contou que a empresa administra recursos da ordem de R$ 100 milhões em private equity e venture capital. Recentemente a Rio Bravo investiu R$ 5 milhões na Adespec, empresa apoiada pelo programa PIPE da Fapesp, do setor de adesivos à base de água.

Investimentos em venture capital e private equity, em geral, são feitos por companhias de participações, como BNDESPar, e por gestores de firmas especializadas, como a GP, a CRP, a Rio Bravo e outras, que estruturam os fundos de investimento, operação chamada capitalização, e selecionam as empresas que têm potencial para receberem esse dinheiro. Há também os investidores individuais, chamados de angels, que dispõem de capital para investir em empresas, e as empresas de seed money ou capital semente, que também organizam investidores em forma de fundos e gerenciam os recursos, selecionando os melhores negócios para investir. Os principais investidores em fundos de venture capital e private equity são os fundos de pensão e as seguradoras. Esse mercado, no Brasil, é regulado e fiscalizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em troca do aporte dos recursos do capital empreendedor, o mais comum é o fundo investidor se tornar acionista da empresa. O objetivo do investidor é obter elevados lucros, mas a médio e longo prazo. Daí o venture capital e o private equity serem mecanismos importantes para as empresas inovadoras, que precisam de tempo para desenvolver suas tecnologias e produtos. Essas modalidades de investimento ganharam maior projeção com o sucesso das empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde está boa parte das maiores firmas da área de tecnologia da informação do mercado. No Brasil, diz Figueiredo, esses investimentos se concentram em empresas de base tecnológica de setores dinâmicos como nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e comunicação, e também são atraídos pelo setor de infra-estrutura.