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O Eco

Desventuras em Jacupiranga: holofotes, caçadores e quilombolas

Publicado em 23 junho 2016

Por Christine São Bernardo

Entre 2001 e 2005, eu e colegas do Laboratório de Biologia da Conservação da UNESP de Rio Claro (SP) participamos de um projeto que visava estimar o tamanho das populações de espécies cinegéticas da Mata Atlântica paulista, coordenado pelo Prof. Dr. Mauro Galetti. Espécies cinegéticas são aquelas objeto de caça, ou, em outras palavras, aquelas que os caçadores preferem. Incluem aves, como macucos e jacutingas; e mamíferos, como porcos do mato e muriquis. A presença ou ausência destas espécies e a medição de suas densidades populacionais são excelentes indicadores de qualidade de uma floresta, assim como do impacto humano e da efetividade de uma área protegida.

Assim, Unidades de Conservação com boas populações de jacutingas, queixadas e muriquis têm proteção efetiva e gestão eficiente, enquanto aquelas com florestas vazias sofrem de gestão e manejo ineficientes.

Perguntar aos bichos é a melhor maneira de saber se dinheiro destinado à conservação está sendo bem gasto ou se determinada estratégia de manejo ou política ambiental funciona.

Entre caçadores e palmiteiros

Durante nosso projeto percorri trilhas de muitas das áreas protegidas do estado de SP. Deparei-me com problemas fundiários e crimes ambientais nas 10 unidades de conservação paulistas de uso indireto (parques, estações ecológicas) que visitei entre 2001 e 2005. Em todas elas encontrei caçadores, palmiteiros e animais domésticos. Em todas ouvi tiros e descobri ao acaso esperas com cevas. Em todas. Até andar agachada uns 50 metros andei para caçadores não me verem numa trilha que passava em cima do bananal onde eles estavam cortando banana para abastecer cevas. Hoje, a maturidade e uma boa dose de Discovery ID, que em 2002 não existia ainda, já me tiraram esta coragem desnecessária.

Quando eu retornava à civilização e colocava meus dados no computador, não era raro ter muitas informações a respeito de evidências de caça ou corte de palmito, e poucos dados sobre as espécies cinegéticas cujas populações queríamos estimar. Tão difícil quanto encontrar os animais também era encontrar alguma patrulha da Polícia Ambiental, que raramente se afasta do asfalto.

Durante o ano de 2004, vivenciei episódios peculiares que merecem destaque no Parque Estadual de Jacupiranga, no sul de São Paulo. Visitei este parque regularmente durante todas as estações do ano de 2004, principalmente para levantar informações sobre a população das jacutingas (Pipile jacutinga, Cracidae), uma espécie em sério perigo de extinção devido à caça e que pretendia estudar para meu doutorado.

Jacupiranga

"Ao percorrer uma destas trilhas cheias de palmito cortado, eu e uma ajudante de campo ouvimos o pio de um macuco Tinamus solitarius, (...)  Pois bem, este canto vinha do apito de um caçador"

Localizado no Vale da Ribeira, Jacupiranga é parque desde 1969. Abriga um importante complexo de cavernas inseridas em uma região que na época da pesquisa abrangia cerca de 150 mil hectares de Mata Atlântica. Jacupiranga é cortado pela BR 116, o que resultou em uma explosão de grilagem e desmatamento similar aos que vemos hoje nas rodovias amazônicas. Este parque tem tantos problemas quanto as outras áreas protegidas, entre eles os sempre presentes caçadores, palmiteiros e a falta de regularização fundiária. Para completar, na época do desenvolvimento da pesquisa havia um intenso debate sobre a sobreposição de áreas do parque com territórios quilombolas. A lei n. 12.810 de 2008 alterou os limites do parque Jacupiranga e colocou um ponto final neste debate, ao denominar estas áreas de sobreposição como “Reservas de Desenvolvimento Sustentável”.

Saíamos de Rio Claro (SP) e após cerca de 10 horas de viagem chegávamos na região do Núcleo Cedro, quase na divisa com o Estado do Paraná. Neste núcleo encontramos uma única jacutinga na região durante toda a duração do projeto. A ave estava pousada em um palmito-juçara no quintal de um casebre à beira da Régis Bittencourt ou BR 116 -- a tão famosa rodovia da morte. Este tipo de dado, semelhantes aos de outras áreas, faz pensar que ajudaria se as pessoas deixassem de caçá-la, pois as jacutingas não parecem tão exigentes em relação à qualidade do habitat.

 

Holofotes equivocados

 

Após procurar por jacutingas e outros animais no Cedro, durante cerca de sete dias a cada viagem, partíamos rumo ao núcleo Caverna do Diabo, mais ao norte, também seguindo pela rodovia Regis Bittencourt.

A BR 116 corta o parque ao longo de 60 km, facilitando o acesso de seres humanos às suas matas para a realização das mais variadas peripécias ilegais, entre elas o escoamento ilegal dos palmitos-juçara (Euterpe edulis) extraídos das terras do parque e outras áreas do Vale do Ribeira.

A Caverna do Diabo, uma das maiores do estado de São Paulo, possui pouco mais de 6 km de extensão, e tem visita turística permitida em seus primeiros 600-700 metros, por um preço, na época, em torno de R$ 3. Não consegui descobrir quem teve a ideia de iluminar a caverna com holofotes, o que permitiu a proliferação de algas e musgos nas formações calcárias próximas às fontes de luz. Há quem diga que este estrago é benéfico -- para o ser humano, claro --, pois aproxima as pessoas de um ambiente de cavernas, e ao conhecer este ambiente, o ser humano compreende a importância de preservá-las... Bom, lanternas-de-cabeça foram inventadas há muito tempo e cumprem bem este papel.

 

Trilhas proibidas

 

Na primeira visita à região da Caverna do Diabo, perguntei aos funcionários do parque sobre as trilhas existentes, sobre a segurança de andar nas trilhas e possíveis mateiros para auxiliar o trabalho. Rapidamente descobri que era proibido entrar em determinadas trilhas do parque, supostamente público e gerenciado pelo Estado, sem a permissão do chefe da comunidade quilombola.

A sorte é que o vice-representante da comunidade dos quilombolas era um dos guarda-parques e nos levou ao representante naquela noite. Foram duas noites de muita conversa para que conseguíssemos convencer o representante a nos deixar percorrer trilhas próximas ao quilombo que se sobrepunham às terras do parque. Apesar das terras da área pertencerem ao estado de São Paulo, também financiador de parte do nosso trabalho. Por que tanto receio dos quilombolas em ter pesquisadores percorrendo as trilhas próximas à comunidade?

Sem dúvida, para ganhar acesso às trilhas, foi forte o argumento de que viemos de um local distante 10 horas de carro. Lembro-me que uma das preocupações do representante era o levantamento de informações pelos pesquisadores não ser repartido com ou revertido para a comunidade. Levando em consideração a preocupação do representante dos quilombolas, comprometi-me em levar informações sobre jacutingas e outras espécies ameaçadas de extinção para a comunidade, o que fiz em fevereiro de 2004, por meio de uma palestra na escola local. Nela, abordei a importância das jacutingas como dispersoras de sementes e a importância do fruto de palmito-juçara como alimento de muitos animais da Mata Atlântica nas épocas de escassez de outros frutos, principalmente durante o inverno.

Numa das noites, ao voltar para o alojamento do parque naquela estrada estreita que sobe até a sede do núcleo Caverna do Diabo, quase atropelamos um burro carregado de feixes de palmito, que entrou na mata assustado. Mais uma evidência, encontrada ao acaso, de que muita coisa não ia bem por ali.

O (falso) canto do macuco

Durante as saídas de campo vi muitos poucos bichos, mas realizei inúmeros registros de extração de palmito-juçara nas trilhas na área do parque próximas à área dos quilombolas. Todas as palmeiras cortadas tinham caule bem fino (3 a 4 cm de diâmetro na altura do peito) e eram jovens demais para terem produzido sementes.

Numa manhã, ao percorrer uma destas trilhas cheias de palmito cortado, eu e uma ajudante de campo ouvimos o pio de um macuco Tinamus solitarius, exatamente às 6:03h.  Logo nos entreolhamos, um misto de alegria e alívio pelo primeiro registro auditivo de um animal cinegético naquela região. Às 6:04h, ouvimos 2 pios deste feliz macuco. Anotei o registro com vários pontos de exclamação. Às 6:06h ouvimos 3 pios, e exatamente 2 minutos após, ouvimos 4 pios seguidos. Começamos a ficar desconfiadas com a persistência desse macuco. Pois bem, este canto vinha do apito de um caçador, que passou por nós logo após o último registro do persistente macuco. Houve trocas de “bom dia”, apaguei os vários pontos de exclamação do caderno e adicionei o triste registro do caçador, colocando reticências. Em relação às jacutingas, foi avistado um único indivíduo na zona intangível – que não admite pessoas -- do parque. Nenhum registro ocorreu nas trilhas próximas aos quilombolas. Jacupiranga tem uma daquelas deprimentes florestas vazias.

Em uma noite fui com os colegas de campo ao bar da comunidade, para tomar uma cervejinha. Inevitavelmente conversamos com quilombolas, principalmente sobre os costumes tradicionais e a substituição destes por “costumes da civilização”. Aprendi com eles que palmito-juçara é realmente muito extraído na região, e aqueles bem picadinhos que compramos no supermercado são palmitos ainda jovens, que de tão finos não são colocados inteiros no vidro. Disseram que muitos dos selos autenticados pelo órgão federal são falsificados facilmente, legalizando o palmito extraído ilegalmente. Eu já havia ouvido isto em reportagens e relatos de colegas, mas ao vivo foi mais impressionante e frustrante. Depois deste dia, em todo posto de estrada em que entro e me deparo com aqueles vidros gigantescos de palmito-juçara, olho o rótulo, indagando se é falso ou não. Foi nestas noites que compreendi que a indústria do palmito-juçara só vai ser extinta quando o último palmito for cortado. Sim, há quem não abra mão do delicioso palmito-juçara assado ao invés de se contentar com palmito da pupunha ou palmito de açaí.

Há quilombolas da comunidade próxima a Jacupiranga que já possuem acesso à internet. Ao lerem estas histórias, certamente irão refletir. A situação das jacutingas e outros animais não inspirava otimismo. Após mais de 10 anos desta visita em Jacupiranga, será que jacutingas ainda encontram frutos de palmitos-juçara? Ainda encontramos jacutingas? E macucos ainda piam nestas matas?

E para não perder o espaço para um pequeno protesto, que apaguem aqueles holofotes da Caverna do Diabo e acendam-nos em cada palmito adulto que ainda reste pelas matas de Jacupiranga. Se restar algum.

Saiba mais

Veja aqui o artigo acadêmico que resultou desta pesquisa, a qual só foi possível graças ao apoio do programa Biota/Fapesp, FBPN e Biodiversitas/CEPAN.