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Desvendada estrutura de proteína essencial à replicação do vírus Zika (1 notícias)

Publicado em 31 de março de 2017

Uma equipe de pesquisadores do Instituto de Física do campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) desvendou a estrutura tridimensional da proteína mais crucial para a replicação do material genético do vírus Zika. Para eles, esse é o primeiro passo para a concepção de um medicamento que poderá ser utilizado logo após a picada do mosquito Aedes Argypti ou depois do aparecimento dos primeiros sintomas de alguma das doenças que ele transmite, como dengue e chikungunya, de modo a bloquear sua proliferação.

O professor do IFSC-USP e coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), Glaucius Oliva, conta que o caráter emergencial da pesquisa chamou sua atenção. Por isso começou a coordenar a modelagem molecular das proteínas codificadas pelo genoma do vírus Zika.

Trata-se de uma molécula bastante curta de RNA que carrega o código para 10 proteínas: três estruturais, responsáveis pela estrutura física que envolve o material genético, e sete não estruturais, associadas à replicação do RNA viral. “O coração do complexo de replicação é a proteína NS5, uma enzima polimerase que usa o próprio RNA como molde para produzir cópias”, explica Oliva.

É essa proteína que seu grupo caracterizou, e que pretende usar como alvo para o desenvolvimento de um fármaco. “Buscamos o desenvolvimento de fármacos por meio da modelagem de moléculas que interagem com receptores específicos”, disse Oliva. “Mas nunca tínhamos trabalhado com vírus até a formação da Rede Zika”, ressaltou.

Para chegar à estrutura foi necessário clonar o RNA, uma etapa feita em parceria com a Cellco, uma empresa criada e incubada na USP em São Carlos por três ex-doutorandos do IFSC, com o objetivo de oferecer soluções para laboratórios de pesquisa em biotecnologia. Depois de sintetizar o gene, de modo a não trabalhar diretamente com o vírus, e produzir a proteína, foi necessário formar cristais com a molécula, de forma a possibilitar a investigação de sua configuração por meio da cristalografia de raios X. Com isso, foi possível chegar ao detalhe na menor escala possível, com a localização de cada um dos milhares de átomos que compõem a proteína.

A partir de agora, de posse desse modelo, resta encontrar uma maneira de interferir com o funcionamento da polimerase e impedir a replicação genética. Os pesquisadores de São Carlos não são os primeiros a adotar essa estratégia. “A farmacêutica Novartis há anos está tentando produzir um fármaco contra dengue focando na NS5 do vírus”, conta Oliva.

Embora a empresa tenha outra escala em termos de recursos financeiros e instalações, se comparada à universidade, ele não se sente em desvantagem. “O que eles fazem, nós também fazemos na busca por uma molécula que bloqueie o sítio ativo da proteína”, afirma. Ele já sabe, na comparação entre a proteína do vírus Zika e a do vírus da dengue, que os respectivos sítios ativos apresentam diferenças importantes.

O fármaco que o grupo do CIBFar busca, portanto, seria específico para Zika. Com a publicação da estrutura cristalizada, ele espera contribuir para uma corrida em que diferentes laboratórios buscarão novos inibidores para a enzima NS5, candidatos a tratamento para a doença.

A descoberta está descrita em artigo publicado na revista Nature Communications, que pode ser lido em neste link.

(Agência ABIPTI com informações da Agência FAPESP)