Notícia

Fornecedores Hospitalares

Destino desconhecido sem previsão de chegada

Publicado em 01 fevereiro 2011

Em um debate recente no Comitê de Saúde da Amcham sobre genética, evoluímos a discussão para a pesquisa aplicada e as razões do Brasil não avançar mais na criação de produtos e serviços inovadores em saúde. Afinal, por que a despeito de termos pesquisadores reconhecidos internacionalmente, médicos do mesmo gabarito, serviços de saúde altamente qualificados, diversidade biológica, fundos disponíveis da Finep, Fapesp, BNDES, e terem se tornado cotidianos termos como IPOs, Investment Grade, Private Equíty, M&A, Start Ups, etc... ainda não vemos produtos e serviços ligados a ciências da vida genuinamente nacionais? O que falta? Alguns temas foram levantados: (1) a carreira universitária não privilegia a geração de propriedade intelectual, pelo contrário, estimula a publicação e difusão do conhecimento; (2) os fundos públicos disponíveis são voltados para pesquisa, não para o desenvolvimento comercial, e são muito pulverizados não permitindo estudos caros e de longo prazo demandados pelas novas descobertas no setor; (3) o brasileiro ainda não tem uma cultura de criação e proteção de propriedade intelectual sem a qual o pesquisador não obtém os retornos do seu trabalho, portanto não há estímulo; (4) as empresas e os pesquisadores vivem em mundos diferentes, falam línguas diferentes, têm velocidades diferentes e lhes falta a tecla SAP, (5)... São todos pontos verdadeiros e altamente relevantes, alguns inclusive foram mitigados por meio da Lei de Inovação, que ainda não pegou de verdade, a qual foi, inclusive, reforçada com a recente alteração da Lei de Licitações Públicas que flexibiliza a necessidade de licitação para compra de produtos e serviços voltados para atividades enquadradas na Lei de Inovação.

Ainda assim, há um sentimento de que isto não será o suficiente, uma sensação de reprise da decolagem do voo da galinha já vista tantas vezes. Pior é que estas tentativas de incentivo são sempre acompanhadas de barreiras a produtos tidos como inibidores do desenvolvimento local, tornando o caldo ainda mais amargo. Esta inquietação me levou a pensar em uma abordagem diferente. Imaginei quais seriam as minhas expectativas e motivações caso fosse um pesquisador ou um investidor/empreendedor focado no setor de ciências da vida. O que me estimularia e o que me desestimularia na direção da criação de um produto e consequentemente uma empresa que pudesse receber um investimento inicial (Angel): uma segunda rodada mais significativa (Private Equity) e ao final glória das glórias fazer o tal IPO? Ou criar uma patente para licenciar e passar o resto da vida ganhando um bom dinheiro por isto para mim e para a Universidade em que eu trabalho? 0 que motiva? Ora, o vil metal, o desafio intelectual e a solidariedade com os pacientes. Para uns mais uma coisa ou mais outra. Mas não se pode negar que este feixe de interesses fez surgir muito, senão tudo, o que nos levou a uma expectativa de vida saudável tão longa.

Refletindo sobre estas questões dentro do setor da saúde, entendo que dois são os principais fatores que acabam por desmotivar investimentos e avanços tecnológicos: tempo e incerteza.

O TEMPO e a INCERTEZA.

O fator tempo está presente até que o produto já desenvolvido esteja no mercado. Peguemos, por exemplo, casos mais críticos, como de empresas Start Ups. Até que uma pessoa jurídica receba suas autorizações básicas (Registro na Junta, CNPJ, etc.) o Banco Mundial fala em aproximadamente 180 dias. Além disto, com as instalações físicas prontas e funcionários contratados até que esta empresa receba Autorização de Funcionamento e Licença de Funcionamento são mais dois anos, isto com rapidez; para obtenção de Boas Práticas de Fabricação se leva mais um ano, isto também sendo um processo veloz; registro de produto mais um ano e meio, e por aí vai... A incerteza dos prazos se soma à incerteza do conteúdo das decisões, pois a Anvisa não conseguiu até hoje que seus técnicos tenham um entendimento harmonizado sobre a regulamentação. Além disto, a própria regulamentação é instável, pois a Agência muda constantemente os requisitos de empresas e produtos em processos não transparentes, em muitos casos abruptos e com grande distanciamento do setor regulado, suas entidades representativas e até da população. Previsibilidade de tempo do retorno e certeza do ambiente que gerará o lucro do investimento são requisitos mínimos para que tanto pesquisadores, quanto investidores/empreendedores se sintam atraídos a embarcar nesta jornada. Sem isto, é embarcar em um avião sem radar, que não se sabe quanto combustível tem, sem destino certo e hora para chegar. Você faria esta viagem?