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Desonestidade científica é farsa

Publicado em 01 agosto 2008

Por Paulo A. Nussenzveig e Renata Zukanovich Funchal

Considerarmos inaceitável que instituições públicas tratem problemas éticos como questões internas menores, sonegando informações à sociedade que as sustenta.

 

Os brasileiros não confiam nas instituições do país. Em sondagens recentes, como a da Associação dos Magistrados Brasileiros divulgada em setembro passado, vemos que menos de 20 % da população confia nas casas do Congresso e menos da metade confia no Poder Judiciário. A que se deve essa descrença?

Temos a convicção de que está associada à leniência dos brasileiros no tratamento das questões éticas, com a conseqüente impunidade reinante. A palavra ética tem aparecido com freqüência no noticiário, com pessoas clamando por sua importância na vida pública. A ilustração de sua ausência começa pelas trapalhadas do Executivo, percorre os corredores do Congresso Nacional e desemboca nas pequenas coisas, com o tristemente célebre "jeitinho brasileiro".

Acreditamos que um país é forjado na escola. Somos professores de uma importante universidade brasileira, a USP, onde se deveria dar o exemplo. No entanto, as mazelas do país são observadas em nosso seio também.

Em 19 de junho último, a revista Nature publicou um editorial e um artigo abordando a falta de integridade em pesquisas "científicas". O artigo apresenta dados sugerindo que as faltas éticas de pesquisadores são em muito maior número do que as estatísticas oficiais, levantadas pelo "Office of Research Integrity" (Escritório para Integridade na Pesquisa) dos Estados Unidos.

São apresentadas várias recomendações às instituições de pesquisa para promover um ambiente de integridade. Ressaltamos aqui a importância de se fornecer salva-guardas aos denunciantes de faltas éticas e a tolerância zero para com aqueles que as cometem, assim como para com aqueles que fingem não ver.

Segundo os autores, a responsabilidade social das instituições para com a comunidade científica e para com a sociedade é fortalecida quando fica claro seu comprometimento com a integridade. Há exemplos internacionais notáveis do rigor preconizado, como o caso de Jan Hendrik Schön, dos laboratórios da Bell, nos EUA, que falsificou dados publicados em algumas das principais revistas científicas do mundo. Diante das denúncias, a Bell montou um comitê de investigação em fins de maio de 2002. Os resultados foram apresentados publicamente (continuam acessíveis pela internet) em 25 de setembro de 2002 e Schön foi demitido no mesmo dia.

A Universidade de Konstanz, na Alemanha, onde Schön obteve seu doutoramento, decidiu revogar seu título, apesar de reconhecer que suas faltas foram cometidas posteriormente.

Alguns dirigentes de instituições, conforme menciona o artigo da Nature, buscam esconder ou minimizar acusações de mau comportamento. Talvez acreditem, equivocadamente, que assim preservam sua instituição.

Ao contrário, criam uma imagem de fachada, escondendo mazelas internas. Ao manterem-se dúbios, frustram as expectativas daqueles que buscam justiça, minando sua confiança nas diretrizes éticas da instituição. Deixam a porta aberta aos que cogitam usar de práticas anti-éticas, pois a leniência de hoje é o caldo de cultura de que se nutrem os fraudadores de amanhã.

Infelizmente, esse último cenário é o que verificamos por aqui. Conhecemos diversas denúncias de faltas éticas na academia e, no entanto, em nenhum desses casos sanções rigorosas foram aplicadas.

Como exemplo da falta de posicionamento claro e de transparência de nossos dirigentes, citamos uma denúncia, apresentada há mais de um ano, sobre suposto plágio praticado por docentes da USP. Até hoje, não se tem qualquer informação sobre a sindicância interna realizada pela USP, se foi concluída e quais os achados. Órgãos públicos de financiamento à pesquisa, como Fapesp e CNPq, omitiram-se, aparentemente fingindo não ver.

Ao mesmo tempo, embora aplicando estritamente as regras internas vigentes na USP, somente denunciantes ou pessoas descrentes na firmeza de propósitos de seus dirigentes sofreram qualquer conseqüência.

É inevitável lembrar da ditadura militar, em que, segundo Millôr Fernandes, "no Brasil, a justiça farda mas não talha". Ao tornarmos públicas essas linhas, enfrentaremos os olhares reprovadores de vários colegas, aqueles que "fingem não ver" o que ocorre. Podemos, inclusive, enfrentar restrições na Comissão de Ética da USP, ultimamente tão célere em censurar os inconformados. Nossa "falta"? Considerarmos inaceitável que instituições públicas tratem problemas éticos como questões internas menores, sonegando informações à sociedade que as sustenta.

Cientistas buscam descrições consistentes da Natureza, que possam ser verificadas através de experimentos controlados. Em palavras simples, buscam "verdades" da Natureza. Quando alguns poucos incorrem em comportamentos antiéticos, a credibilidade de todos é colocada em xeque. Há aqueles que podem se conformar em serem chamados de cientistas honestos. De nosso ponto de vista, ao invés de ser lisonjeira, essa denominação deveria ser meramente redundante.

 

Paulo A. Nussenzveig e Renata Zukanovich Funchal são professores do Instituto de Física da USP.