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Jornal da Unicamp

Desnacionalização foi benéfica para o setor de eletrodomésticos, conclui tese

Publicado em 29 setembro 2003

Por MANUEL ALVES FILHO
O processo de desnacionalização da indústria brasileira de eletrodomésticos de linha branca nos anos 90 trouxe efeitos positivos para o setor, como a intensificação da reestruturação e o incremento da produtividade do trabalho de suas principais empresas. Além disso, ampliou a inserção dos produtos no mercado externo. As conclusões estão na tese de doutorado de Adriana Marques da Cunha, defendida no último dia 26 de setembro junto ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Em seu trabalho, a economista também considerou o transbordamento dessas conseqüências para os fornecedores das montadoras, de modo a ter uma avaliação acerca da cadeia produtiva como um todo. Até o início dos anos 90, a indústria brasileira de eletrodomésticos era totalmente nacional. Ainda na primeira metade da década, foi deflagrada uma onda de aquisições das empresas que compõem o setor por grandes multinacionais. Em 1993, a sueca Eletrolux fechou um acordo de transferência de tecnologia com a Refripar, então proprietária da marca Prosdócimo. Dois anos depois, houve a compra definitiva. Em 1994, a alemã Bosch Siemens adquiriu a Continental e, em 1997, a americana Whirpool assumiu o controle acionário da Multibrás (Brastemp e Cônsul), Brascabo e Embraco, esta última fornecedora do mais importante componente dos refrigeradores, o compressor. Até mesmo a campineira Dako, tradicional fabricante de fogões, foi encampada pela americana General Eletric, em 1996. Atualmente, conforme Adriana, cerca de 90% do faturamento do setor é controlado pelas grandes empresas líderes mundiais. A entrada desses gigantes no Brasil deu-se por dois fatores em especial. Primeiro, por conta da ação estratégica desenvolvida pelas multinacionais, interessadas na conquista de um novo e amplo mercado, que apresentava como diferencial uma bem estruturada cadeia produtiva, aqui considerados os fornecedores de componentes. A autora da tese lembra que exportar eletrodomésticos, sobretudo os não-portáteis, como geladeiras, fogões e lavadoras de roupa, é uma tarefa complicada. Além de volumosos, os equipamentos não apresentam um elevado valor agregado. Assim, estando no Brasil, seria mais fácil para as multinacionais colocarem seus produtos nos países sul-americanos. Estes, por sua vez, reúnem um número extremamente interessante de consumidores potenciais. Só para se ter uma idéia, tome-se como exemplo o próprio Brasil. Em 2000, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), instrumento de investigação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 19% dos lares brasileiros tinham fornos de microondas. Já as secadoras de roupa estavam presentes em somente 5% das residências do País. O segundo fator que favoreceu a desnacionalização do setor foi o interesse dos empresários nacionais na possibilidade de extensão de seu horizonte de rentabilidade, por meio do acesso à capacitação tecnológica e organizacional das grandes empresas líderes mundiais. Diante dessa perspectiva, os proprietários das montadoras brasileiras foram, pouco a pouco, transferindo o controle das empresas para as gigantes do ramo. Para compreender melhor os efeitos dessa desnacionalização, Adriana realizou um exaustivo trabalho. Ela analisou tanto dados primários, colhidos junto aos novos controladores, como secundários, obtidos a partir de fontes como o IBGE. Ao processar, cruzar e interpretar essa massa de informações, a pesquisadora chegou a conclusões que contrariaram as primeiras expectativas sobre o resultado dessas aquisições. A autora da tese conta que, inicialmente, imaginava que a desnacionalização provocaria, por exemplo, a substituição dos componentes nacionais dos eletrodomésticos pelos importados. Ou que a presença das multinacionais no País favoreceria a importação dos equipamentos produzidos por elas no exterior em detrimento das exportações dos produtos aqui fabricados, decisão que ajudaria a piorar o desempenho da balança comercial brasileira. "Mas o que minha tese constatou foi algo bem diferente disso", afirma Adriana. De acordo com ela, três aspectos colocaram por terra as previsões pessimistas. Primeiro, a multinacionais intensificaram a reestruturação produtiva e organizacional que já vinha sendo executada pelas empresas, com ênfase na introdução de tecnologias inovadoras. Segundo, essas mudanças, associadas a outros métodos, ampliaram a produtividade dos trabalhadores. No caso das montadoras tomadas para estudo, houve um incremento de 70,4% do valor médio da produção industrial entre 1994 e 1997, frente a uma redução de 16,6% das pessoas ocupadas no mesmo período. Por fim, os novos controladores ainda acentuaram a presença dos produtos brasileiros no mercado externo, inclusive Europa e Estados Unidos. "O interessante é que, por já contar com uma cadeia produtiva bem-estruturada, houve um transbordamento dessas ações também para os fornecedores", explica. Em sua tese, Adriana reforça a necessidade da realização de novos estudos setoriais com metodologias coerentes, que permitam uma compreensão mais ampla e precisa sobre os efeitos dos investimentos diretos em determinados setores industriais brasileiros, bem como acerca das cadeias produtivas domésticas por eles controladas. "Creio que somente a análise de dados primários não basta para entender um processo tão complexo", pondera. O trabalho da economista foi orientado pelo professor Mariano Francisco Laplane, do IE. A autora não contou com bolsa de estudo, mas alguns pesquisadores que participaram de uma pesquisa que ajudou a subsidiar o seu estudo tiveram o apoio do CNPq e da Fapesp.