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EcoAgência

Desmatamentos colocam em risco de extinção as aves do Pontal, em SP

Publicado em 22 novembro 2006

Embora seja recente a história de ocupação do Pontal do Paranapanema, no extremo Oeste de São Paulo, por fazendas monocultoras e de criação de gado - fato ocorrido há 50 anos e que tornou a paisagem da região um conjunto de fragmentos de florestas -, estudos científicos revelam a necessidade de frear o desmatamento e trabalhar pela recuperação da Mata Atlântica que ainda resiste. "A extinção de muitas espécies na região pode ainda não ter ocorrido por falta de um intervalo de tempo maior", explica o biólogo Alexandre Uezu, pesquisador do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) que concluirá, no final deste ano, doutorado sobre a composição e estrutura da comunidade de aves na paisagem fragmentada do Pontal, no Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências, da USP (Universidade de São Paulo), sob orientação de Jean Paul Metzger.
A ciência mostra que, após 50 anos de isolamento, fragmentos de aproximadamente mil hectares apresentam metade das extinções de aves que ainda devem acontecer. "Esse resultado revela a urgência do estudo sobre a avifauna e a necessidade de amenizar os impactos negativos da fragmentação", alerta Uezu. Na região existem três espécies já consideradas quase ameaçadas: a cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata), a araponga (Procnias nudicollis) e o macuco (Tinamus solitarius). E a chibante (Laniisoma elegans) é tida como vulnerável.
No projeto, realizado desde 2003, foram amostradas 28 áreas, dentre elas 21 remanescentes de floresta e sete áreas dentro do Parque Estadual do Morro do Diabo, considerada área controle do estudo por apresentar a maior cobertura de vegetação. Para descobrir quais são os fragmentos mais importantes para as aves, foram selecionados remanescentes de mata em três tamanhos diferentes: sete grandes (acima de 400 hectares), sete médios (100 a 200) e sete pequenos (30 e 80).
A pesquisa considerou o histórico da fragmentação, a sensibilidade (como os animais respondem) e percepção das espécies à paisagem degradada, a influência da conectividade da paisagem por stepping stones — ou trampolins (que teve a cooperação do pesquisador Dennis Beyer) e a relação parasita-hospedeiro entre as aves e os carrapatos.
O tamanho e grau de isolamento dos fragmentos e a qualidade da floresta determinam a abundância (freqüência com que é vista) e a distribuição (onde pode ser encontrada) das 147 espécies dependentes de florestas identificadas na paisagem do Pontal. Constatou-se que a diversidade varia de acordo com o tamanho das áreas verdes, e que este é o fator mais determinante para definir a sensibilidade de boa parte das espécies. "A diversidade de aves é progressivamente menor da área do parque aos fragmentos grandes, médios e pequenos", conta o pesquisador do IPÊ, que ainda aponta para o fato de que as espécies endêmicas da Mata Atlântica — como olho-de-fogo (Pyriglena leucoptera), araponga (Procnias nudicollis), surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon surrucura) e tangará dançador (Chiroxiphia caudata) - são mais afetadas do que as não-endêmicas. Ele explica que isso ocorre porque o Pontal está numa área limite da Mata Atlântica, e, portanto, é borda também da distribuição das espécies endêmicas, o que já determina populações menores e conseqüente grau maior de ameaça. "A sensibilidade delas à fragmentação acaba sendo maior nessas áreas".
A qualidade da estrutura da vegetação — como a densidade de árvores - foi estudada para determinar a sensibilidade das espécies. Como o quase ameaçado macuco, há aves adaptadas a menos tipos de floresta, o que as tornam menos flexíveis para paisagens degradadas. "O manejo dos fragmentos pode melhorar a qualidade da vegetação e, assim, permitir que espécies mais sensíveis se instalem nessas áreas", esclarece Uezu. Ele cita o plantio de árvores nativas e a retirada dos cipós - que impedem o crescimento da vegetação - como atitudes relevantes.

Trampolins
É bastante comum associar a existência de sistemas ou bosques agroflorestais, que funcionam como stepping stones, à sobrevivência de inúmeras espécies animais. Os stepping stones, também conhecidos como trampolins, conectam fragmentos isolados, auxiliando na movimentação das espécies pela paisagem. Esse trânsito pode ser positivo para aumentar a variabilidade genética de uma espécie, auxiliar na busca por alimentos e na dispersão de sementes.
Comparando áreas com e sem trampolins, a pesquisa de Uezu constatou que nem todas as espécies de aves conseguem usar os trampolins, em especial as florestais (encontradas apenas nas florestas), muito sensíveis às áreas abertas. O contraste é tão grande entre a vegetação nativa e o pasto em volta que essas espécies não conseguem sair do fragmento para alcançar os trampolins. Isso mostra que também é necessário manejar a área de pasto, tornando-a menos resistente, para aumentar a eficiência dos stepping stones. "No entanto, os trampolins já fazem diferença para uma parte das aves, as generalistas (encontradas nas florestas e áreas abertas) e, portanto, parte das suas funções ecológicas já são restabelecidas com a instalação desses sistemas, como a dispersão de sementes", explica o biólogo.
Diversos métodos foram utilizados para verificar a densidade, diversidade e abundância das aves, entre eles: levantamentos por ponto fixo — por observações visuais e pelo som das aves identificam-se as espécies e a sua localização; capturas por redes de neblina — redes imperceptíveis para algumas espécies, que propiciam a manipulação dos animais e tomada das suas medidas; rádio telemetria — um rádio transmissor, com bateria que dura três meses, é acoplado à ave; triangulação para obter a localização exata do pássaro, funciona com uma antena e um receptor; e coletas de dados sobre a estrutura da vegetação.

Ectoparasitas
A presença de ectoparasitas (carrapatos) também foi observada na pesquisa. A taxa de infestação por carrapatos é maior em fragmentos menores e mais isolados. Neles, foram encontradas aves infestadas por mais de 600 carrapatos, o que demonstra que há sério desequilíbrio ecológico no ambiente — a ausência de predadores aumenta o número de hospedeiros, tornando as aves mais vulneráveis aos parasitas.
A coleta dos carrapatos ainda foi utilizada para descobrir se havia infecção por bactérias do gênero Rickettsia, o mesmo gênero da espécie causadora da febre maculosa brasileira. Esses dados ainda estão sendo avaliados em laboratório, a partir de técnicas moleculares aplicadas por Maria Ogrzewalska, do Instituto de Veterinária da USP.

Dinâmica da paisagem
Através de imagens de satélite, fotografias aéreas e mapas topográficos, a dinâmica da paisagem do Pontal foi mapeada para diferentes anos: 1956, 1965, 1978, 1984, 1988 e 2003. Para cada ano, foram calculados índices que representam o tamanho dos fragmentos e o grau de isolamento deles. Dados de diversidade e riqueza das espécies foram relacionados com os índices das paisagens do passado e da atualidade. Essas informações fornecem a medida exata do quanto as aves estão ameaçadas.
"A riqueza dos grupos na atualidade está mais relacionada com a paisagem de 1978, quando houve grande impacto sobre a vegetação", constata Uezu. Infere-se daí que o tempo de latência acumulado (ou tempo que leva para uma espécie desaparecer após a fragmentação) é de aproximadamente 25 anos para as aves do Pontal. "Isso indica que mais perdas acontecerão, mesmo que cesse a destruição das florestas, quando terminar o que chamamos de período de relaxamento e as aves enfim se adequarem ao ambiente transformado. É importante reverter o mais rápido possível o processo de fragmentação, através do manejo da paisagem, para barrar esse processo", explica.
O projeto recebeu apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), Idea Wild e The E. Alexander Bergstrom Memorial Research Award — Association of Field Ornithologists.
Sara Nanni, IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas / Núcleo de Comunicação - fone/fax.: (11) 4597 1327 www.ipe.org.br