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Jornal da USP online

Desmatamento estimula cães a se deslocarem para áreas de mata nativa

Publicado em 21 novembro 2016

Por Júlio Bernardes

Pesquisa do Instituto de Biociências (IB) da USP aponta que em áreas rurais perto de remanescentes da mata atlântica, o desmatamento pode estimular cachorros criados pela população local a deslocarem-se para regiões de mata muito distantes do local de criação. O levantamento do biólogo Fernando Ribeiro mostra que a presença desses animais nas florestas é mais comum que a de espécies nativas de animais carnívoros, como a onça e a jaguatirica. Para inibir os deslocamentos, é recomendada a manutenção e restauração de florestas nativas, além da distribuição estratégica de florestas plantadas de eucalipto.

 

A pesquisa aconteceu no corredor Cantareira-Mantiqueira, área de Mata Atlântica com cerca de 300.000 hectares (ha) entre o nordeste do estado de São Paulo e sul de Minas Gerais. “A região é considerada prioritária para conservação e conecta dois importantes remanescentes de Mata Atlântica, a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira”, afirma Ribeiro. Nessa região, foram estudadas 12 paisagens, com aproximadamente 3.000 ha cada. Elas variam no grau de desmatamento, retendo entre 10 e 50% de cobertura florestal nativa, e no número de cachorros criados pela população rural (entre 45 e 660 animais).

 

 

Os cães que invadem remanescentes de Mata Atlântica são criados pela população local. Porém, eles apresentam comportamento de vida livre, movimentando-se pelas paisagens rurais e adentrando remanescentes de mata, mesmo aqueles distantes do local de criação “A pesquisa registra, por exemplo, movimentos de até 3.000 metros entre o lugar de criação e o remanescente invadido”, destaca o biólogo.

 

O número de cachorros que entram nos remanescentes de mata variou de nove a 44, o que representa entre 5 e 24% da população total de cães criados nas paisagens estudadas. “Esses números são expressivos, e indicam que este animal está hoje entre os carnívoros mais abundantes dentro das florestas remanescentes, sendo mais comuns que espécies nativas como onças, jaguatiricas, gatos-do-mato e cachorros-do-mato”, aponta Ribeiro.

 

O número de cães que invade os remanescentes foi maior em paisagens onde a população total de cachorros criados e o grau de desmatamento são maiores. Para Ribeiro, isso provavelmente acontece por duas razões. “Primeiro, porque quanto maior a população de animais criados, maior a probabilidade de haver animais com características que os tornam bons invasores, isto é, que se movimentam muito e entram nas matas“, diz. “Segundo, porque cachorros preferem se movimentar por áreas abertas, onde são capazes de grandes deslocamentos, de tal forma que as florestas funcionam como barreiras. Quanto maior o grau de desmatamento, mais fácil é o acesso aos fragmentos de mata.”

 

De acordo com o biólogo, um novo projeto de pesquisa estudará os impactos dos cães no ecossistema das áreas de Mata Atlântica. “Porém, outros estudos demonstraram diversos impactos negativos para a fauna silvestre, como a predação, competição e a transmissão de doenças”, conta. “Além disso, a população humana também pode ser prejudicada com a transmissão de zoonoses adquiridas pelos cachorros após interação com animais nativos.”

 

A pesquisa demonstra que, ao lado de métodos de controle populacional, como a castração, e de restrição de movimentação, como impedir que os cães saiam livremente de suas casas, a manutenção e restauração de florestas é igualmente importante para controlar a invasão. “Elas agem como barreiras à movimentação, impedindo que esses animais acessem áreas florestais mais distantes dos locais de criação”, diz Ribeiro.

 

Além disso, os resultados sugerem que florestas plantadas de eucalipto também limitam a movimentação de cachorros. “Sua distribuição espacial na paisagem poderia ser usada de maneira a barrar estrategicamente a movimentação de cães em áreas de maior interesse para a conservação das espécies nativas”, enfatiza o biólogo. A pesquisa foi orientada pela professora Renata Pardini, do IB, e faz parte do Projeto Interface, coordenado pelo professor Jean Paul Metzger, também do IB, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

Mais informações: email fer.rib1@gmail.com, com Fernando Ribeiro