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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Desmatamento ameaça peixes da Amazônia

Publicado em 21 agosto 2008

Agência FAPESP

Das cerca de 1.335 espécies de peixes escamados conhecidas no mundo, 1.200 estão da Amazônia. Isso se repete em proporções semelhantes quando se trata de pássaros e plantas. Essa riqueza imensa está ameaçada não só pelo desmatamento, mas também pelo aquecimento global.

As ameaças sofridas pela maior reserva em biodiversidade do planeta foram o tema da conferência do pesquisador Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Campinas.

Ninguém sabe ao certo o número exato de espécies da região amazônica. A cada ano ele cresce de acordo com o ritmo das pesquisas. Por isso, com a degradação da floresta, muitas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem descobertas.

Segundo Val, o Brasil não tem dado conta de pesquisar devidamente a floresta. “A maior parte dos artigos publicados sobre a Amazônia é escrita por estrangeiros”, lamenta o pesquisador, que ressaltou a existência de apenas 3 mil doutores em todas as instituições de pesquisa instaladas nos nove estados localizados na região amazônica, incluindo as universidades federais. Para toda a Amazônia brasileira há apenas quatro taxonomistas – responsáveis pela identificação e registro de espécies.

Segundo o cientista, uma das maiores ameaças atuais da floresta é o chamado “efeito de borda”. Com o desmatamento, novas bordas surgem na floresta e se tornam entradas para modificações no ecossistema. Essas alterações são sentidas até cerca de 400 metros dentro da mata e vão desde a morte das árvores maiores e mais antigas até a diminuição das espécies, tanto de plantas como de animais. “No Brasil, o desmatamento abre 22 mil quilômetros de novas bordas a cada ano”, revelou Val.

Além da derrubada das árvores, o aquecimento global que atormenta o resto do planeta também tem conseqüências sérias sobre o bioma amazônico. Uma pesquisa realizada no Inpa com o tambaqui, peixe típico da região, detectou alterações no DNA do animal após exposições elevadas aos raios ultravioleta do sol. “Se fôssemos estudar o pirarucu, que sobe à superfície para coletar oxigênio, as alterações poderiam ser ainda maiores”, estima.

O aquecimento do planeta também tende a reduzir uma das condições climáticas fundamentais na floresta amazônica, a umidade. “Os fungos, essenciais na ciclagem de nutrientes, são sensíveis à umidade; sem eles, muitas espécies desapareceriam”, disse Val.

As áreas chamadas de interflúvios (entre os rios) seriam as primeiras a sofrer com o aquecimento. Nessas terras é possível encontrar água cavando menos de 20 centímetros. O aquecimento tende a provocar uma diminuição do nível do lençol freático e os interflúvios ficariam mais secos. Um efeito em cadeia, então, atingiria todo o ecossistema.

Segundo o pesquisador do Inpa, com a diminuição do nível das águas, peixes dispersores de sementes como o bagre e o tambaqui não teriam mais acesso ao interior da floresta. Conseqüentemente, as plantas que dependem dessa dispersão para se reproduzir seriam prejudicadas.

Para complicar, o sistema é tão grande e complexo que tem de ser analisado por regiões. Por isso, Val propõe uma mudança nos modelos de previsão de mudanças ambientais. Segundo ele, é necessário levar em conta as características regionais em vez de considerar a floresta como um só bloco.

“Também não se trata apenas de modelos climáticos, temos de levar em conta o histórico evolutivo e adaptativo das espécies”, pontuou. O cientista ressaltou que é preciso assumir a distribuição das espécies, tendo a consciência de que não se conhecem todas elas.